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domingo, 11 de agosto de 2013

O pequeno grande do heroi


Era domingo de dia dos pais.
Tentava, mas seus bracinhos não conseguiam envolver ele todo. Ele, tão alto e forte. Então o abraçou como podia e deu-lhe um beijo no rosto, sorrindo, mas meio triste de ser tão pequeno perto dele. E quem se orgulhou foi o pai. Este sim conseguiu envolver aquele menininho todo nos braços num instante. E o pequeno entendeu que seu tamanho não importava enquanto tivesse seu grande heroi por perto.

sábado, 27 de julho de 2013

Arrependimento mau caráter

_ Quando finalmente o segurei em meus braços, e olhei para ele, tão pequeno, indefeso e lindo, foi o dia mais maravilhoso da minha vida. Foi quando entendi porquê é possível o sol se abrir mesmo com chuva caindo: sorri e chorei ao mesmo tempo. Aqueles pezinhos gordinhos e branquinhos que mais pareciam um pão de leite davam muita vontade de morder, e seu pai não ficou a desejar quando chegamos a nossa casa. – Sorriu olhando para baixo, como se estivesse voltando no tempo, lembrando daquele momento. - Dei uma festa cheia de doces, salgadinhos. Havia até bexigas. Até então minha vida nunca havia sido tão feliz... E nunca seria, se eu não tivesse uma criança que jamais poderia sair de mim.
A amiga ouvinte tentava conter a emoção com as lágrimas que queriam saltar dos olhos. Mas mais difícil que contê-la era deixar aquele aperto de lado, a que qualquer um daria o nome de arrependimento mau caráter.
_ Como se sentiu quando soube que não podia engravidar? – Por fim perguntou.
_ Foi triste. Mas desde que eu conseguisse adotar uma criança, entenderia que era preciso que eu fosse estéril, pra que esta pudesse ter uma família. E assim foi. – Não parava de sorrir – E eu o amo tanto, Arlete, tanto!  Meu Ivanzinho. – Disse quase que para si mesma, abraçando uma almofada e olhando o retrato do garoto de agora 15 anos, que estava na estante da sala logo à frente delas que estavam sentadas no sofá.
Arlete engoliu o choro.
_ Ele teve muita sorte de encontrar uma mãe amorosa e carinhosa como você. E um paizão atencioso e calmo como seu marido. – Comentou de todo coração.
_ Nós é que tivemos sorte, minha amiga. Felicidade para eu e meu marido não existiria com a ausência desse pequeno. – O sorriso que tanto esboçou o tempo inteiro deu lugar a uma singela e pesadinha lágrima agora.
_ Ah, meu Deus, me esqueci que tenho um compromisso daqui a pouco e estou atrasada. – falou num repente conferindo o relógio no pulso.
Despediram-se. Arlete já na rua e de costas para a casa humilde, mas cheia das coisas mais ricas da vida, pôde chorar fervorosamente. Não sabia se voltaria a se falar com Marta. Seria difícil depois de tanto procurar e descobrir secretamente que Ivan é seu filho biológico que havia abandonado ao nascer porque o marido carrasco e beberrão mandou. Estava arrependida racionalmente. Mas seu coração ainda sim preferia o homem. Ou o contrário, quem sabe – Digo arrependida emocionalmente.
Tinham pena dela os estranhos que a viam caminhando ao pranto pelas ruas. Mas é porque não sabiam que apesar de um choro arrependido, ela preferiu um homem ao filho.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Saudades


Abro a porta do quarto e você ainda não está. O tempo está passando rápido demais ultimamente, mas o dia da sua chegada demora a vir. O sino tilinta a cada hora, ouço o cantar dos pássaros a simbolizar os segundos, nada de você. Percorro pelos trilhos mais distantes, viajo a milhas e milhas. Ando, caminho, corro, mas a sua presença não é chegada, apenas o tempo se aproxima. Dia vinte e sete não chega e, com ele, minha felicidade também não, ainda não.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Remorso

Quando seu pai era vivo pouco o via. Raramente em natais ou páscoas. Do dia dos pais ele nem lembrava.
Quando seu pai morreu passou a visitá-lo todos os dias. O problema é que ele sabia que aquele caixão guardava menos o seu pai do que as lembranças.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Martelada final

Ele corria incansavelmente à procura de ajuda. O sol queimava seu rosto e o asfalto da estrada tornava-se verdugo aos seus pés. A sequidão da temperatura rachava seus lábios, mas não havia água para saciar sua sede. O desespero tomou conta de suas entranhas.
Sem conseguir ir adiante, ele parou e caiu no chão ardente. Seu coração martelou uma vez, duro, espremendo duas lágrimas quentes de seus olhos e se dissiparam ao tocar o fogo do chão que o consumia devoradamente.
Um carro passou ao seu lado e simplesmente não o ajudou.
Mais uma martelada, dessa vez mais dura, e novamente as lágrimas queimavam aquele rosto, juntamente com o sol escaldante. Ele chorava e não tinha ninguém que pudesse consolá-lo. De repente outro carro passou e enfim resolve parar. Abaixou o vidro e olhou profundamente naqueles olhos abatidos e decidiu ajudar. Pegou-o no colo e colocou no banco de trás. Ele desesperado só queria ouvir uma voz, um sorriso dela mais uma vez, uma única vez. Mas ela não o fez... Foi levada por homens, num carro. Ele correu demasiadamente para procurá-la.
Já deitado no banco, outra martelada, a terceira, dessa vez foi tão dura que ele não resistiu. Fechou os olhos e nunca mais abriu para contemplar a continuação da estrada que ainda o restava a seguir e sem a certeza se sua filha ainda estaria viva.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Brincadeiras de criança



O começo de tarde estava bastante quente. Um típico calor que se faz na primavera, quando chove pouco. Mas no espaçoso e verde quintal de Gisele, reinava um frescor delicioso, cuja existência se dava pelas tantas altas e belas árvores que circundavam o lugar.
As crianças brincavam com arminhas de água ao longe. As mães, enquanto conversavam, as olhavam. Pedrinho adorava brincar com Vitinho em domingos como aquele. Eram melhores amigos, assim como suas mães haviam sido na infância e ainda o eram. Gisele aproveitava a oportunidade e chamava a amiga para tomar sol. Mas naquele dia preferiram sentar e tomar um suco, conversando e olhando as crianças.
Janaína bebericou o suco de laranja, e observou que os meninos estavam brincando de pega-pega agora. Sua atenção neles foi desviada quando Gisele voltou, tinha ido buscar mais suco.
- Meu filho corre tão bem. – sorriu olhando este acabar de pegar Pedrinho. – Já ganhou várias medalhas de ouro em competiçõezinhas da escola. – Concluiu sorridente e orgulhosa.
- Ah, ele realmente é muito bom – Gisele concordou, observando enquanto seu filho se esforçava para conseguir alcançar o Vitinho.
- O Pedro parece não aguentar correr por muito tempo...– Comentou.
- Na verdade, acho que é porque ele não gosta de brincar de pega-pega. – Respondeu prontamente, tirando a franja dos olhos.
- Ah, é? E do que ele gosta de brincar, então? – Perguntou estranhando a resposta de Gisele, porque achava que ela fosse dizer que era por causa do peso um pouquinho acima do normal.
- De guerrinha. Adora lutar contra guloseimas e depois devorá-las. – Riu divertida com a própria resposta, que era uma verdade absoluta. – Ahhh, crianças! Cada uma gosta de uma coisa, mas sempre são adoráveis. – Abriu outro sorriso olhando para seu filho sendo pego novamente. Seus olhos atentos brilhavam. Estava tão orgulhosa quanto Janaína.

domingo, 19 de maio de 2013

Ananda



Fora mais um dia como outro qualquer. Ananda deitada em sua cama ouvia os gritos que vinham da cozinha como estrondo de bombas explodindo sobre o solo. E por que não seria? Era assim que ela se sentia, como se o mundo estivesse caindo sobre sua cabeça, mais uma vez. E sempre era nela que caía. Tudo e mais um pouco. Mesmo com a porta trancada e com o travesseiro sobre a cabeça ela conseguia ouvir, e ouvir bem a cena mais que rotineira. Seu pai chegava em estupor de bêbado, de qualquer lugar, e descontava em sua mãe. Ananda já não conseguia mais ver sua mãe ser espancada todos os dias. Naquele seria diferente, ela disse a si mesma. Depois de não mais aguentar ouvir os gritos, que poderiam ser escutados a quilômetros de distância, Ananda resolveu agir. Levantou de sua cama com um sentimento que jamais havia experimentado. Secando suas lágrimas com as mãos ela já decidira evitar ver sua mãe ser quase morta mais uma vez por causa da brutalidade de seu pai. 
Andando pelo corredor e sentindo os gritos se infiltrarem ainda mais pelos seus ouvidos ela sentia que aquele sentimento, jamais experimentado, só fazia aumentar. Ao chegar a porta da cozinha ela observava seu pai descontar toda raiva dele em sua mãe. Parecia um bicho agindo por instinto. Parecia não se dar conta do que estava fazendo. Simplesmente fazia, como se fosse algo natural, e exibia certo sorriso malicioso no rosto. Como se estivesse sentindo satisfação pelo desempenho. Ver aquela imagem só intensificava aquela sensação súbita que consumia cada vez mais Ananda. Ela se aproximava cada vez mais, e seu pai distraído com seu serviço e ouvindo apenas seus próprios gritos, não percebera quando ela adentrou a cozinha e, já cansada de presenciar aquela cena de horror, avançou em suas costas para impedi-lo de continuar com o espancamento. Travando uma luta desigual com seu pai, Ananda acabou sendo arremessada contra a parede batendo a cabeça. Por sorte o impacto não a desacordou e ela conseguiu ter reflexo para se defender de um chute que seu pai lhe desferiu de imediato a sua queda. Ao segurar a perna de seu pai ela conseguiu desequilibrá-lo e lançá-lo para trás. Sua mãe já quase sem forças pra se levantar se transformou em algo irreconhecível e em um acesso de fúria pegou uma faca na gaveta e foi em direção ao marido. Na minha filha não. Por azar da mãe de Ananda seu marido já havia percebido a intenção de sua esposa e conseguiu se defender e tirar a faca de sua mão. Arremessando-a pra longe ele não pensou duas vezes em continuar a bater em sua esposa. “Agora vou te bater até você não levantar mais”. Com mais brutalidade, do que quando havia começado, o pai de Ananda derrubou sua esposa no chão e começou a chutá-la. Ananda em outra investida contra seu pai o segurou pelo braço e desferiu uma mordida com toda a força que conseguira. Ele urrou de dor. Sua mãe com o resto de forças levantou-se e o segurou pelo outro braço, o mordendo também. No entanto, ele era forte, não baixou a guarda nenhum instante com as mordidas. Assim como havia um sentimento em Ananda que só aumentava, em seu pai havia uma falta de lucidez que não cessava. Em um golpe final ele se voltou para a esposa e segurando sua cabeça deu três batidas fortes com ela na parede. Sua mãe desferiu um último grito e a casa se afundou em um profundo e cortante silêncio. Ao soltar o corpo de sua mulher no chão o pai de Ananda esfregou seu rosto com as mãos e só então percebera que elas estavam cobertas de sangue. Ele levou um choque e ficou intacto em pé diante do corpo de sua mulher já sem vida. Ananda, mesmo com o choque, e sem assimilar bem o que havia acontecido, se jogou em cima do corpo de sua mãe gritando numa tentativa de reanimá-la. Quando se deu conta de que sua mãe não levantaria mais e que seu pai havia cumprido a promessa, foi em direção a ele e começou a esbofeteá-lo dessa vez sem receber represália alguma. Seu pai se desvencilhando cambaleou até o quarto e se jogou em cima da cama, enquanto Ananda ficou ali, chorando abraçada ao corpo da mãe. Quando já não tinha mais força e nem mais lágrimas pra chorar Ananda se levantou e pegou a faca que havia sido arremessada pelo seu pai no chão e direcionou-se até o quarto. 
Seu pai estava tão bêbado que falava sozinho em resmungos. Ananda já estava totalmente dominada por aquele sentimento que a consumia dos fios de cabelos aos dedos dos pés. Ela hesitou, pensou, mas não conseguiu resistir a sede de vingança e ódio. Soltou um grito de libertação e correu em direção ao pai, deitado na cama, que não teve oportunidade de se defender. Ao cravar a faca na barriga de seu pai, que havia despertado pelo grito, Ananda olhou bem fundo em seus olhos. Quando seu pai tentou se defender ela desferiu mais facadas até que seu pai ficou largado em cima da cama agonizando. Ananda não viu o pai morrer. Saiu correndo sem rumo com uma mochila que arrumou as pressas. Correu com uma falsa sensação de liberdade, mas tinha em sua consciência que, dali em diante, estava sozinha no mundo. E estar só pesava muito em seu coração, pois ela sabia que estar só é muito diferente de estar livre. Tinha em sua consciência também que Ananda ficara morta naquela casa também e que a partir dali, além de uma vida nova, seria uma pessoa nova.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O sonho da bailarina



As clássicas notas do piano, destilando Für Elise de Beethoven espantam o som do nada e preenchem as lacunas do ar dando vida a bailarina que se esquece de ser apenas um objeto para bailar em seu perímetro compacto.
Ela gira em torno de si mesma e ao redor do ritmo suave da melodia, como se o som se desprendesse dela e conduzisse o tempo e não o contrário. Sua dança solitária e sem plateia traz apenas o aplauso amargo da tristeza. Sua vida frágil nunca lhe proporcionara algo mágico e grandioso. Seu destino estava preso na caixinha de música, selado pelo imã que a sustentava sobre seu próprio peso insignificante.
A bailarina tinha um sonho, maior que o seu ser. Um sonho de libertar-se de sua condição inanimada e saltar nas pontas dos pés nos mais variados palcos do mundo. Ela tinha o sonho de ser reconhecida, de ter olhares ávidos sobre ela e expectativas sobre seus próximos passos... mas seu sonho se trancava no escuro quando a tampa da caixa era baixada.
Suas lágrimas irreais e invisíveis respingavam no piso e a escuridão engolia todas as suas esperanças de se tornar alguém que ela nunca poderia ser. Por vezes ela ouviu as pessoas dizendo que tudo é possível se você tiver fé o bastante e força de vontade, porém, essas mesmas vozes quebravam o silêncio de seus pensamentos para lhe dizer que há sonhos que jamais se realizarão, não importa o quanto você deseje e nem o quão forte seja sua fé. Então ela chorava.

A bailarina incansável e sonhadora nunca pisou em outro lugar a não ser aquele a qual sempre pertenceu. Ela nunca ouviu o som da ovação por uma apresentação sua e nunca mais foi capaz de dançar quando, por descuido, derrubaram sua caixa protetora e ela se desfez em vários pedaços espalhados pelo chão.
Seu grito mudo não foi ouvido por ninguém e sua queda não foi tão sentida, mas ela livrou-se, enfim, das correntes que a segurava. Sua pequena alma na forma de um floquinho de luz projetou-se pela janela e atirou-se na cauda do vento, onde ela valsou, rodopiou e inventou passos magníficos.
Hoje em dia ela ainda baila por todos os cantos, ao som de diversas canções e sinfonias. Livre. Despretensiosa. E mais sonhadora do que nunca.
Ela entendeu que alguns sonhos são realmente impossíveis, mas que também sempre há a possibilidade de trocá-los por um que não seja.

Clique no nome da música pra ouvi-la, caso não a conheça. 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Despedida



Ninguém entendia porque ele era o único ali que rejeitava a companhia de uma cortesã. Meio estranho ir a um salão de festas não convencional e não aproveitar do melhor produto. Ele apenas pedia a companhia de uma cerveja, que nos últimos dias havia se tornado, também, sua melhor amiga. Não era tão normal, mas o deixaram entrar com um cachorro dentro do salão e o cachorro ficava ali, ao lado dele, olhando na mesma direção, o palco.
No palco dançava a estrela da noite: madame Catrina. Linda mulher de cabelos pretos enormes, corpo estonteante. E em trajes tão curtos e bem delineados ao seu corpo sua áurea de bailarina se tornava esplendorosíssima. Mesmo ela tendo aprendido a tão pouco tempo a arte dança. Movimentos sensuais, olhares provocantes para o público, uma meia luz que deixava o ambiente ainda mais hipnotizante... e ele ali, a olhando como quem olha seu tesouro. Seu cão quieto e estático. Se alguém conseguisse visualizar bem a cena perceberia que seus olhares pareciam iguais, como se fossem dois em um, a mesma pessoa, ou mesmo cão; é bem possível que seus sentimentos fossem iguais também, bem possível que dentro de seus corações estivessem batendo as mesmas sensações. Ele pediu a conta, pouco depois de recusar mais uma cortesã que se oferecera pra ele, como se ele fosse alguém de quem a vida dela dependesse. Antes de o garçom que o serviu a noite inteira chegar com a conta ele sentiu um pesar enorme, junto com a tristeza de tomar consciência do que ela havia se tornado. Dançando ali para outros homens ela parecia, enfim, estar feliz. Sim, aquela era de fato sua esposa, ele precisava ver por ele mesmo. Não gostava de dar atenções a boatos. Ele ainda a considerava esposa... ela já havia saído de casa a meses por reclamar da desatenção dele. Sabia que aquilo era uma desculpa dela. Já sabia que acabou naturalmente o casamento deles, pois o amor permanecia. Ao menos o dele por ela. 
E ali, vendo aquele show, a vendo tão linda e feliz, ele percebeu que qualquer sentimento que ela tivesse por ele já não existia mais. Pagou a conta assim que o garçom chegou com o bloquinho de notas. Ele sabia muito bem que já havia pagado suas contas. As que tinha consigo mesmo. Deixou um valor a mais para o garçom sorrir um pouco, pois ele mesmo já não tinha vontade disso. Aliás, sabia que aquilo era muito para aquele garçom que o serviu tão mal. Se levantou e o cão o acompanhou, ele também sentia falta de sua dona, mas talvez tenha sabido lidar melhor com a situação de se separar de alguém que se ama. Perto da porta olhou para o palco mais uma vez. Seus olhares se cruzaram e ele notou que não guardava mágoa daquela mulher, não poderia, ela não havia feito nada contra ele. Sabia que naquele olhar não havia marca nenhuma de amor. E aceitou aquilo. Sabia que aquele olhar era o último. Quando percebeu que a atenção de outros homens haviam se voltado a ele, se virou, foi embora. Ela olhou rapidamente para o cachorro que, além de um olhar, ganhou, também, um sorriso. Voltou a dançar normalmente e por um segundo pensou que aquilo poderia ser uma distração qualquer, que talvez não fosse ele, que tinha se confundido. Ele seguiu andando, com um último olhar de consolo no coração.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Dos capítulos de nossa história



É de capítulos que a nossa história se escreve. É de palavras que nós talhamos que os capítulos se encerram para dar início a outros. E assim começa nossa nova empreitada.

Uma casa grande como essa já acolheu prazerosamente algumas mentes brilhantes, cada uma com sua singularidade magistral. Os quartos ocupados foram ambientes de onde brotaram estórias geniais, cheias daquilo tudo que encanta os olhos e nos pega pela mão como se nos guiasse por um caminho secreto. Porque as estórias nos levam a mundos diversos, nos apresentam pessoas e muitas vezes são capazes de aquecer nosso coração ou nos dar um momento de reflexão.
Entre portas que se abriram como braços calorosos de boas vindas, adentraram em nossa casa Rafael e Roberto, trazendo na mala um talento ímpar. Rafael nos presentou com seus contos e crônicas impecavelmente escritos, pedidos para serem lidos ao bom som do MPB, com personagens tão reais cujas histórias podem nos encontrar pelas ruas do mundo real. Roberto trouxe a magia, despertou a mitologia e nos mergulhou em seu universo muito bem estruturado, nos brindando com obras profundas e cheias de entrelinhas que apenas podemos nos dar ao luxo de imaginar. Ambos nos deram o prazer de sua companhia pelo quase um ano que se passou, mas a vida é feita de capítulos, não nos esqueçamos disso e as histórias desses dois continuarão além dessas páginas, pois a grandiosidade os espera. Seus capítulos hão de ser belos, um após o outro.
E por falar em encerramento, há que se falar em recomeço. Pois bem, nossa casa hoje recebe um novo morador, o moço das belas palavras e aniversariante do dia, Fernando, que se achega timidamente só para nos surpreender com sua escrita intensa e sagaz. E com ele instalado em seu quarto de vista para uma bela paisagem que só um franqueado conhece, começamos uma nova era.

Inovações devem ser feitas para se adequar ao mundo corriqueiro em que vivemos, para dar espaço ao que é bom, assim nossa programação atual de três dias ganha um dia a mais de intervalo. A Franquia se renova outra vez e enquanto a vontade de escrever existir estaremos aqui.

Em breve o primeiro conto de Fernando para marcar sua estreia.

domingo, 21 de abril de 2013

A pílula da juventude


Se fosse possível criar uma pílula de ATP, seríamos imortais. Mas às vezes, viver para sempre não faz sentido quando o que se quer, não é ter vida, e sim juventude eterna. Como morrer com uns cem anos de idade, sem nunca ter tido um fio de cabelo branco, ou a pele flácida e rugosa. Jazer velho pelo tempo que se passou, mas com a carcaça do corpo e a mente que o guia novíssimos.
Levou alguns anos. Um cientista não descobre nada da noite para o dia. São meses, anos de pesquisas na grande maioria das vezes. Demorou. Todavia, eu descobri a fórmula da juventude, como havia prometido. Seria inútil contar tudo que continha na pílula que desenvolvi para ser tomada uma única vez, na idade que fosse conveniente para a pessoa que queria parar de evoluir em tal idade. Porque o erro, já esteve à venda.
Por ironia, meu melhor amigo, um jovem saudável, forte, de cabelos negros, era uma criança num corpo de 20 anos. Quando lhe contei sobre minha invenção, foi como se ele estivesse em uma sala de aula no jardim da infância, levantando energicamente as mãos para ajudar a professora querida com uma experiência de sala. Foi meu cobaia. Cinco anos se passaram, e nada nele havia mudado fisicamente. Isso vinha me dizer, que se uma criança de dez ou cinco anos que fosse tomasse a pílula, teria o mesmo efeito.  Foi aí que percebi que deu certo.
_Roger, sua fórmula é genial. – Meu psicólogo fez uma breve pausa, olhou para baixo e depois em meus olhos. – E inadequada. – Concluiu.
_ Eu só queria realizar o sonho de alguns, e fazer muitos filhos felizes.  – expliquei triste. – E agora, estou sendo processado por alguns pais.
_ Entendo. – Ele disse calmamente. – Mas parou para pensar que assim, privaria muitas crianças de nascerem? Olhe para as três crianças que engoliram inocentemente sua pílula por descuido dos pais que a obtiveram. Você acha que aquela garotinha de quatro anos tem estrutura corporal para ser mãe algum dia?
Baixei os olhos e passei a mão por meus cabelos, transtornado. Eu havia feito uma descoberta incrível que poucos conseguiriam, mas não pensei nas conseqüências ruins que poderiam surgir. Então, vendo que eu não dizia nada, o Doutor Carlos questionou:
_ Quando você teve essa ideia? E por que ela surgiu?
Uma lágrima rolou pelos meus olhos. E eu não poderia omitir.
_ Quando soube pelo meu pai que minha mãe faleceu ao ter-me, aos dezessete anos. E eu prometi a ele, que quando crescesse, seria o primeiro cientista do mundo a descobrir uma fórmula para eternizar a juventude. E fiz isso pensando nas mães de outras crianças, tão jovens, que morriam no parto deixando seus filhos sem a chance de um dia verem seus rostos.
Notei que ele se comoveu com o fato. Mas me deu a principal dica da minha vida.
_ A natureza nos dá bens e tira quando quer, Roger. É a lei dela, e não podemos controlá-la. Descobertas como ser imortal, ser jovem eternamente, são coisas que alteram o ciclo natural da vida. Envelhecer, assim como morrer, é preciso. Os mais velhos precisam cuidar das crianças, e estas precisam crescer para depois cuidar de quem as cuidou antes, porque esses envelhecerão mais. E depois precisam morrer, para que outros nasçam e comecem tudo de novo.
Realmente atrapalhei a ordem natural das coisas, e reconheci isso no instante em que o Doutor Carlos clareou minha mente, antes conturbada sem entender o motivo de o meu nome estar num tribunal. Pelo menos só quinze pessoas da minha pequena cidade ingeriram minha fórmula, que por sinal, era caríssima. Quando acabou meu tempo, levantei-me da cadeira, e rumei para casa, desesperado, tentando alcançar um meio de reverter o caos terrível que eu havia iniciado. Eu tinha que dar um jeito, pelo bem da humanidade. Nem que fosse tentar até morrer, grisalho e de pele flácida e rugosa. Porque a fórmula da juventude, está mesmo em nossas mentes e, ser jovem mesmo na velhice, só depende de nós. Uma pílula para isso não deveria existir. Então dei um fim para sempre nas que criei, sem deixar vestígios de como as fiz.

sábado, 23 de março de 2013

Ao vê-la com outro


Ficou terrivelmente triste. Eles se abraçavam pelas calçadas, riam e se beijavam. Nos olhos do cara havia um brilho que nunca existira ao estar com outra garota qualquer. Que lindo! Aquela tarde de domingo, os passarinhos cantando, o sol quase se pondo... Se soubesse que os momentos ao lado dela continuariam tão doces, jamais a teria deixado por medo de vê-la sofrer com seu câncer.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Você que tem um pai...



Como é acordar com os olhos remelentos, ainda disperso e sonolento, ao ouvir a voz atônita do seu pai a chamá-lo? Como é olhar enraivecido, para ele, por ter sido acordado no meio de um daqueles sonhos em que se está dando uma volta em Paris, com uma Ferrari vermelha e uma garota linda e desejada ao seu lado?
Então você esfrega o dorso das mãos em sua face e se depara com uma cara assombrosa e desesperadora te acordando para ir ao colégio. Como é ter que sentar em frente ao seu pai, enquanto toma café, e ter que ouvi-lo brigar, por mais uma vez, não ter escutado o despertador tocar? Como se sente ao ter que ouvir outro sermão logo pela manhã?
Mochila arrumada, uniforme vestido. Agora você está entrando no carro para ser levado, por ele, ao colégio. Afinal, você estuda perto de onde ele trabalha, então, tem que ir de carona todos os dias. Como é chegar ao colégio com seu pai? Qual a sensação de olhar para seus colegas de turma, eles rindo, enquanto você desce do veículo e a atenção é toda voltada para você?
Ao sair, ele te beija na testa, dá um tapinha nas costas e, por fim, se vai. Você fica corado e, envergonhado, abaixa a cabeça e resolve ir direto para a sala de aula. Como é ser motivo de chacota por seu pai sempre levá-lo?
No final da aula a mesma coisa, ele te busca, já que o horário de almoço dele é bem no horário da sua saída. A rotina se repete. A sua novela parece que não é igual aquelas das 8 que só duram, em média, 4 meses. Diferente delas, a sua parece não ter fim. Vergonha atrás de vergonha, constrangimento empilhado, você se sente cansado disso. Como é ter um pai assim?
Ao chegar em casa, as lições para serem feitas e entregues no dia seguinte, são concluídas forçosamente. Por quê? Aquele pai briga, não deixa, pega no pé. Como se sente ao ter um pai dessa maneira?
Você quer sair à noite com os amigos, doze anos de idade: época de fazer as melhores coisas. Não pode, ele não deixa. Amigos te chamam de menina enrustida. Inimigos zombam da sua cara. Então, você, envergonhado, fica em casa e segue a rotina que ele tanto quer, mas com desgosto e desprazer. O que mais queria era ter um pai de verdade, daquele que te larga, te deixa sair, fazer e acontecer. Queria ter um pai que te deixasse faltar na escola, dormir até a hora que quisesse, sair sem hora para voltar e não se preocupasse com amanhã. Como é viver com um pai diferente do que você deseja?
Os anos se passam, você cresce e não tem mais aquele pai. Você queria tê-lo de volta, acordar com aqueles berros, ouvir suas brigas e, até mesmo, tentado ser um filho melhor. Agora é tarde demais. Tarde para valorizar uma atitude, tarde para reconhecer um erro, tarde para querê-lo de volta. Agora você fecha os olhos e deseja sua presença. Então, se pergunta: “Como é não ter um pai?” Difícil, muito duro, meu caro. Uns dizem que ter algo e perder é a pior das dores existentes, mas eu vos digo: ter tido é a experimentação de ter usufruído de algo. Eu nunca tive um pai, nem bom, nem ruim; nunca senti um grito amargo ou doce; nunca fui abraçada delicadamente ou com brutalidade. Não sei qual a sensação de ter um pai preocupado com meu bem estar. Mas, já que sabes, meu caro leitor, como é ter um pai? Porque eu nunca sentirei na pele como é isso, esse sentimento eu jamais saberei.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Oportunidade única

A dor sempre fora imensa. Naquele momento, um pouquinho mais.
Respirou fundo o jovem negro e adentrou o quarto do hospital onde se encontrava seu pai, idoso e muito doente que fazia toda força para manter os olhos já fracos abertos quando ouviu a maçaneta da porta girar. Não tinha força para nada, mas sua audição ainda estava boa.
_ Desculpe eu aparecer por aqui, o senhor deve estar odiando. - começou o filho com uma intensa troca de olhar com o pai que perdera a fala devido o forte derrame que tivera.
O velho piscou pesadamente.
_ Nunca aceitou sua cor não é, meu pai? Seu sonho era ter um filho branco ao casar-se com a mamãe, loira e lindíssima. Mas eu nunca tive raiva do senhor por me rejeitar pelo fato de eu ter nascido com sua mesma pele. Agora que não pode me atropelar com suas palavras ásperas como fez até ser frio o bastante pra me expulsar de casa quando eu tinha dezesseis anos assim que a mamãe faleceu, posso te contar que te amo muito, apesar de tudo. Meu maior sonho era poder chegar perto do senhor, te abraçar, chamar de pai, aprender jogar futebol e todas essas coisas de pai e filho. Mas sua aversão era grande demais pra que eu tivesse uma oportunidade.
Os olhos quase mortos de João apresentaram um brilho. E Augusto sorriu furtivamente.
_ Eu tenho de tudo para ser um revoltado pela sua rejeição. Mas todo rancor que eu deveria ter sempre foi dissipado em um amor não correspondido. Por favor, pai... Não me odeie ainda mais. O senhor não pode mexer os braços e retribuir, assim como nunca retribuiu o amor que sempre guardei pelo senhor. Mas o que eu quero fazer agora, não posso guardar. A situação não é a melhor, mas eu não posso perder essa oportunidade agora.
 
Então o jovem caiu de braços abertos delicadamente sobre o pai, e abraçou-o, como nunca pôde fazer. Sorriu pra não derrubar lágrimas. E João arrependido quis chorar, mas não deu tempo. Seu último suspiro fora no primeiro abraço de seu único filho, o qual nunca quisera amar.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Mesmo longe, podemos estar mais próximos do que possam imaginar

Onde quer que você esteja 
O que quer que aconteça 
Não importa a distância 
Por tudo aquilo que pode vir 
E tudo aquilo que pode ir 
Eu caminho ao seu lado. 
I Walk Beside You - Dream Theater.

Um soluço segurando as lágrimas, foi apenas a reação que tive quando ouvi aquela doce e encantadora voz se distanciando de mim. Você caminhava lentamente e, seguidamente, olhava para trás, acenando-me, enquanto se aproximava do avião, para ir ao seu destino: estudar em Londres, durante um ano. Meus gritos eram impedidos de serem ouvidos, por um grande vidro que, agora, nos afastava. As lágrimas estavam afogando meu olhar, meu ritmo e meu sentido. Tanto tempo juntos, tanta coisa vivida e não poderia ter que ser assim.
Nossa vida foi traduzida numa história que não terá fim. Tudo foi traduzido em palavras, em promessas e em amor. Agora, estava você, partindo, se afastando de meus olhos, mas sei que estará comigo onde quer que eu esteja. Estaremos juntos. A distância não será capaz o suficiente para derrotar duas vidas que estão entrelaçadas pela força de um amor incondicional.
Queria ter acompanhado você, mas não pude. Porém, tenho certeza que estou caminhando lado a lado com você, pois nosso amor é único. Estarei onde quer que você esteja, porque você me leva junto contigo e assim seremos um só. Eternos e únicos.
Nosso amor foi traduzido em palavras. As palavras que Deus, com Suas próprias mãos escreveu, desenhou e pintou-nos com cada detalhe, para mostrar a mais perfeita união, num simples toque de amor e ternura indelével.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A (des)crença




A manhã havia chegado esplendorosamente depois de um anteontem terrível. O céu com um azul lindo e sem nuvens estava delicadamente decorado pelo sol que se erguia cheio de energia boa.
Enquanto algumas pessoas ainda estavam abrindo os olhos em suas camas, calçadas já estavam sendo varridas, pais levando seus bebês para tomar o sol da manhã, roupas sendo estendidas nos varais das casas... E dona Lúcia indo até o mercadinho que ficava na esquina da rua de sua residência para comprar pó de café.
- Que sorte a sua de estar viva, hein? – começou a velha Joaquina mexeriqueira assim que dona Lúcia botou os pés no mercadinho.
- Bom dia. – Respondeu, ignorando-a.
- Foi brutalmente assaltada, seu marido morreu tentando te proteger e você sobreviveu por sorte. Mas ficou viúva e sem ninguém. Deve estar muito decepcionada com seu Deus. Uma vida inteira de devoção, pra receber só desgraça em troca. - debochou.
- Pelo contrário, Joaquina, isso só me fez ter ainda mais fé nele.
- Como isso pode ser verdade, se agora você é uma pobre coitada?
- Sou uma vitoriosa. Ainda que tenha sido triste demais, devo reconhecer que tive um marido maravilhoso que chegou a morrer pra que eu vivesse. Depois, eu poderia ter morrido junto. Mas estou aqui viva, e mesmo depois de toda desgraça continuo cheia de saúde e com toda fé Nele pra superar o que houve há dois dias.
A outra silenciou absolutamente sem jeito. Dona Lúcia sumiu no corredor do mercado, segurando o choro. A saudade de seu marido e a dor da perda parecia dilacerar-lhe a alma. No entanto era só uma sensação. Porque sabia que continuaria inteira apesar do sofrimento. Deus é maior que tudo sempre.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Ardente devaneio

O céu flamejava o esplendoroso pôr-do-sol. Na grama, faiscante, o reflexo se interpunha. Os peixes bailavam em consonância com o som simétrico do vento. Os corpos contemplavam tamanho espetáculo, mas recusaram-se ficar, apenas, na plateia. Entraram em cena: voluptuosos beijos foram trocados, longos abraços oferecidos e entregues. Os olhares, doces e intensos, eram dilacerados por ininterruptos toques labiais. A pele roçava noutra, as carnes gritavam, desejosas. Ambos os corpos se queriam. Ambas as peles se entregaram.

Não mais flamejante, o céu tornara-se escuro. Desejaram-se, amaram-se e realizaram peripécias. Mas o gosto da saudade invadiu os rostos, gotejando lágrimas infindáveis. Nada no céu, além de uma estrela tremeluzente. Nada naqueles corações, além de um amor ardente, uma vontade gritante de não partir. A noite chegara, a despedida também. Deixaram-se. Cruzaram outros mundos, outros percursos: outra vida.

Abriu os olhos e viu que já era dia. Mais um daqueles sonhos loucos e desejosos. Tomou seu banho e foi trabalhar. Foi sonhando no verdadeiro encontro, quando ele, realmente, aconteceria e não apenas mais uma ilusão, daqueles filmes em que a linda princesa espera e encontra o príncipe num cavalo branco.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Acordo sozinho.



O céu estava púrpura. Ao crepúsculo, o sol se escondia por detrás da linha do horizonte e com ele o que restava da minha tristeza. Senti-me grato. Deitado com as minhas costas nuas na grama aveludada me distraio observando as primeiras estrelas que surjem na abóbada celeste, agora já completamente negra. Olho para o lado e dou um sorriso. Ver-te sempre me satisfaz. Ao te ver sorrindo de volta meus batimentos viram uma sinfonia terrivelmente bela. Seu rosto irradia uma beleza ameaçadoramente divina, o próprio Narciso desviaria o rosto do seu reflexo para olhar-te neste momento. Seu corpo, banhado pela luz do luar, emite uma claridade prateada que te confere um sutil ar de sublime pureza. Pureza esta que não se aplica ao seu olhar, que é penetrante, incisivo, perfura-me até que tomas conta da minha mente, controla-me. Já não aguento. Apreciar-te apenas com os olhos me fere. Preciso tocar-te. Arranco-te a camisa com as mãos. Pois a sua beleza deve ser vista por inteiro, sem me censurar de parte alguma. Mas em um instante os meus olhos encontram os seus novamente. O meu corpo já não obedece aos meus comandos, mas será que a minha mente também não quer o que estou prestes a fazer? Não importa. Beijei-te. Mas não um beijo ordinário, não um beijo normal. Beijei-te de modo a fazer a terra tremer sob os nossos corpos, de modo a fazer as folhas das árvores farfalharem com vigor. Um beijo que te faz queimar como o veneno de um Escorpião a te penetrar as artérias. Sinto os teus dedos arranhando-me as costas violentamente. Pressionando-me o corpo ainda mais sobre o teu. Dou-me conta de que estar junto não é mais o suficiente. Preciso estar mais próximo. Preciso estar dentro. Dentro de ti. É necessário que nos transformemos em unidade. Razão e emoção já não são coisas distintas. O meu coração aponta para ti assim como uma bússola aponta para o norte. Meus lábios estão em brasa. Minhas mãos percorrem o seu corpo de uma maneira suave e feroz. O mundo alheio a nós havia se transformado em um nada. E o seu cheiro adocicado possuia as minhas narinas, entorpecendo-me. Afastar-me de ti agora seria como se tivessem-me arrancado o coração com um punhal e entregado-o em sacrifício. Quando abro os olhos para ver-te, o que vejo causa-me horror. Estás a desaparecer como névoa. E abruptamente sinto o meu corpo tocar a grama, ja que o seu, antes a me sustentar, não mais existe. Continuo deitado. Estupefato. Petrificado. Junto contigo meu coração foi levado e até a Lua com seu sorriso invertido sente a sua falta. Já não penso mais.

Mas eu acordo sozinho. Sempre o faço. Olho para o lado vazio da cama sem esperanças. E como esperava, você já não está mais comigo. Foi-se embora junto com o sonho do qual acordei. Olho para o boneco do Cosmo na minha estante com o seu sorriso perene, como quem ri da minha solidão. O tic-tac do relógio sobre a mesa-de-cabeceira torna-se ensurdecedor. Até que eu volto a sorrir ao lembrar-me de ti. Já não me sinto melancólico. Afinal, és de todo meu quando me fecho os olhos. A imagem de ti, ainda que na minha mente, me envolve como um banho tépido. Engambelar-me-ei com a sua imagem a me visitar nos meus sonhos, já que no momento é só isso que tenho. Nada mais.

domingo, 30 de dezembro de 2012

As Caixas Ingratas Que Pesam Mágoas


Você chega. Com certa dificuldade, deposita, num canto, uma caixa tosca e acinzentada. Há outras, também colocadas por suas mãos, desorganizadamente dispostas pelo ambiente. São altas, largas, compridas e pesadas. Sobretudo, pesadas. O cômodo amplo comporta-as bem. Está no último andar de mim, do prédio, a consciência, a cobertura da edificação.
   Ignorando a base, você se deixa levar pelas aparentes paredes, tão belas, atrativas e acolhedoras. Parecem-lhe fortes. Talvez, até mesmo, indestrutíveis. É por isso que as habita. Você, mais do que ninguém, precisa de uma fortaleza palpável que o guarde. O exterior, aqui, não arranha, não fere. O tempo, aqui, não age. É sua garantia. É sua garantia de vida.
   A moradia lhe custa o mínimo que possa pagar. Ela conhece os seus recursos, sabe o quanto pode dispor. Você, entretanto, não traz o que é pedido. Em lugar, se revolta e traz caixas: as caixas ingratas que pesam mágoas.
   E pesam... Ah! Como pesam...
   Fatigada, então, a salvação lhe trai: eu estalo. O som abafado se repete em todas as direções. Rachaduras ferinas surgem em superfícies, se confundindo aos arabescos. A estrutura, por fim, crise.
   Incrédulo, sem perceber que o rompimento fora causado por sua própria displicência, você corre em direção à saída, ofendendo a estrutura que, em vão, tenta se manter de pé.
   Você sai, caminha e para, enquanto suas ofensas se apressam por corredores e cômodos. Olha para trás. Vê-me em frangalhos. A edificação desaba, pois, também seus braços, mesmo fracos, a sustentava. Dá-me as costas e se vai, chamando-me “passado”. Deixa as caixas sobre os escombros, pesando o que ainda sou. Por debaixo das ruínas, a sua voz ecoa: ofensas; verdades?
   Ecoa...
   E não sei o que fazer.
   Ecoa...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O que não é feliz para todos


A multidão que se movimentava como um formigueiro na longa rua não percebia que aquele entardecer de sexta vinha trazendo uma noite pesadamente infeliz.
Uma semana para o Natal e as lojas da cidade já estavam ficando abertas até mais tarde. Muita gente entrando aqui e ali, rindo, falando alto... Uns cheios de sacolas, outros sem nenhuma - porque estavam decidindo o que comprar. Alguns comiam guloseimas... e outros bebiam seus refrigerantes de latinha e jogavam esta em qualquer canto do chão mesmo, como se não houvessem lixos em cada esquina... E foi uma. Uma garotinha que um homem alto, moreno e agora muito forte notou - recolhendo as latinhas do chão e jogando-as num saco preto que era bem maior que seu tamanhozinho – quando ia jogar sua latinha vazia na sarjeta da calçada e olhou para o lado direito. Virou-se para a criaturinha, que olhou de sua mão que segurava a latinha para seus olhos surpresos de impacto de uma lembrança. Ela estava apenas esperando que ele jogasse o material para apanhá-lo e então seguir pela rua com seu trabalho.
Mas ele não jogava. E ela não saía dali. E se encararam demoradamente por alguns rápidos segundos. Olhou piedosamente naquele rostinho sujo, cuja sujeira não era por se lambuzar com comida, mas por trabalhar muito e tomar pouco banho...  Os olhinhos, um oceano profundo de tristeza... e os lábios moldados por choros, certamente. O cabelinho negro e liso, todo desgrenhado. E a roupinha mais parecia um desprezível pedaço de pano, gasto e sujo demais. Ah, quanta coisa aquele homem viu e sentiu apenas numa furtiva troca de olhar com aquela criança!
Quando ela baixou os olhos para os pezinhos descalços, esperando, ele tocou no alto de sua cabeça.
- Por que está fazendo isso, pequena? – O homem perguntou intrigado, guardando sua revolta para quando tivesse certeza de que aquela pobre menininha trabalhava a pedido dos pais viciados em seja lá o que fosse.
- Eu disse pra mamãe que quero uma blusinha nova de presente de natal, é o que vou pedir pro Papai Noel. Mas ela disse que a mais barata sai muito cara, e que se eu quisesse mesmo teria que dar um jeito de ajudar o bom velhinho deixando o que eu conseguisse na estante de casa.
- E o que sua mamãe e seu papai fazem?
- Nunca conheci meu pai, mamãe disse que ele mora no céu. E o que ela faz é tentar não deixar a gente ir pra lá também, porque passamos muita fome. Até que a gente consegue algumas coisinhas pra comer quando reciclamos uns materiais que achamos nas ruas. E pra ter minha blusinha vai ser assim também... – A garotinha suspirou triste rapidamente e soltou o que talvez lhe fizesse refletir o tempo todo – O Papai Noel é rico pra muita gente, dá presentões. Mas eu tenho que ajudar ele a comprar o meu. Eu, que mal tenho o que comer... Não consigo entender. – concluiu inocentemente fazendo biquinho.
- Nem eu. Sempre pensei nisso desde quando eu era pequeno como você -  Revelou o homem que teve a infância como a dela. A diferença é que seus pais além de miseráveis, viveram bêbados até que a cirrose os matou. Já a mãe da garotinha batalhava de sua forma pela vida delas.
Então jogou sua latinha no saco preto que a pobre criança segurava mantendo aberto.
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Hoje fazia exatamente cinco anos desde que aquele homem, Alberto, se deparara com aquela criança que agora já deveria ser uma mocinha. O Natal, assim como o dia-a-dia, não é feliz para todos. Sua infância, e tanto a daquela garotinha quanto de muitas outras, contraria toda a cena colorida que só os ricos, despreocupados ou menos observadores conseguem enxergar. Parecem invisíveis, mas elas estão lá, as crianças pobres, nas ruas, ganhando a vida e dando os próprios sorrisos com o que a maioria joga no chão porque não lhe é mais útil.