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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Dos capítulos de nossa história



É de capítulos que a nossa história se escreve. É de palavras que nós talhamos que os capítulos se encerram para dar início a outros. E assim começa nossa nova empreitada.

Uma casa grande como essa já acolheu prazerosamente algumas mentes brilhantes, cada uma com sua singularidade magistral. Os quartos ocupados foram ambientes de onde brotaram estórias geniais, cheias daquilo tudo que encanta os olhos e nos pega pela mão como se nos guiasse por um caminho secreto. Porque as estórias nos levam a mundos diversos, nos apresentam pessoas e muitas vezes são capazes de aquecer nosso coração ou nos dar um momento de reflexão.
Entre portas que se abriram como braços calorosos de boas vindas, adentraram em nossa casa Rafael e Roberto, trazendo na mala um talento ímpar. Rafael nos presentou com seus contos e crônicas impecavelmente escritos, pedidos para serem lidos ao bom som do MPB, com personagens tão reais cujas histórias podem nos encontrar pelas ruas do mundo real. Roberto trouxe a magia, despertou a mitologia e nos mergulhou em seu universo muito bem estruturado, nos brindando com obras profundas e cheias de entrelinhas que apenas podemos nos dar ao luxo de imaginar. Ambos nos deram o prazer de sua companhia pelo quase um ano que se passou, mas a vida é feita de capítulos, não nos esqueçamos disso e as histórias desses dois continuarão além dessas páginas, pois a grandiosidade os espera. Seus capítulos hão de ser belos, um após o outro.
E por falar em encerramento, há que se falar em recomeço. Pois bem, nossa casa hoje recebe um novo morador, o moço das belas palavras e aniversariante do dia, Fernando, que se achega timidamente só para nos surpreender com sua escrita intensa e sagaz. E com ele instalado em seu quarto de vista para uma bela paisagem que só um franqueado conhece, começamos uma nova era.

Inovações devem ser feitas para se adequar ao mundo corriqueiro em que vivemos, para dar espaço ao que é bom, assim nossa programação atual de três dias ganha um dia a mais de intervalo. A Franquia se renova outra vez e enquanto a vontade de escrever existir estaremos aqui.

Em breve o primeiro conto de Fernando para marcar sua estreia.

sábado, 1 de setembro de 2012

II Semana Especial: 2 anos de Franquia #Dia01


É de idas e vindas, de altos e baixos e de tantas outras coisas que a vida é feita e também praticamente tudo aquilo que nos propomos a fazer ao longo de nossa estadia por aqui. Ela é feita de coragem para se lançar de cabeça em ideias mirabolantes e em precipícios sombrios que escondem mistérios em sua profundeza. É feita de fé de que sobreviveremos pelas intempéries do tempo e de amor que sempre nos move adiante, não importa por qual caminho decidamos percorrer. Foi com uma mistura disso tudo que a Franquia começou dois anos atrás.
Esse tipo de data nos remete a lembranças de como tudo começou e de como as coisas andaram até aqui. Aniversários são feitos para celebrar, sim, celebrar a passagem do tempo que jamais para e então celebrar a vitória de cada pequena conquista que tivemos.
A história de como chegamos até aqui pode ser vista aqui e aqui. Aniversários são também renovações e não apenas repetições de fatos passados.
Não estaríamos onde estamos se não fosse por todos aqueles que acreditaram que isso daria certo, pela nossa força de vontade e pelos leitores que nos acolheram e deixaram se perder entre nossas linhas e entrelinhas por viagens para longe e até para dentro de si mesmos, pois as palavras são o melhor meio de transporte, há que se dizer.
Dois anos de Franquia medidos em tempo, dois anos medidos em amizades que se formaram, dois anos medidos em um pouco mais de 200 contos, cada um mais singular que o outro. Dois anos que o laço entre a escrita e quem escreve se aperta mais e mais.
Para comemorar de uma forma literária como nos convém, iniciaremos a II Semana Especial.
A partir de amanhã postaremos contos diários durante a semana com a particularidade de cada contador que compõe essa história que, mais do que tudo, se escreve por si só. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Aqueles que fizeram a história acontecer



Acredito que toda despedida nos remete ao pensamento de como tudo começou, então para dizer adeus é preciso entender o início de cada história, personagem e trama. A história em questão é a de tudo isso, a de como a Franquia começou e se tornou o que é hoje. A simplicidade origina enredos incríveis e esse é um deles.
A ideia surgiu na cabeça de Cristiano, ele então resolveu que precisava de ajuda para colocá-la em prática e para isso convidou Rodolpho e Nini, assim, de maneira simples, nasceu o Contos Franqueados. É óbvio que toda história que se preze tem reviravoltas e surpresas em sua trama, bem como a saída de personagens e a entrada de outros novos.
Nini ficou pouco tempo na casa, um pouco tempo que não se equipara a grandiosidade de sua contribuição.  Letícia veio em seguida, determinada a colocar tudo daquilo de bom em seus textos e personagens, sempre conduzida pela moral que pontua suas histórias.
A Franquia cresceu, as portas receberam vários visitantes e mais cômodos foram feitos, especialmente para a acomodação de Vinícius que chegou animado, com garra e cheio daquela vivacidade despretensiosa para começar a atuar, mostrando a qualidade em cada obra que produziu e Carolyne que trouxe encanto para as páginas com seus textos recheados de amor e paixão, deliciando cada um de nós com suas palavras doces, que deixaram um gosto nostálgico de quero mais quando ela também se despediu da casa, mas despedida não é sinônimo de esquecimento.
Maiara foi a nova integrante de nossa família, a talentosa e rebuscada, adicionando à Franquia uma coleção de textos formidáveis e de uma maneira tão bem escrita que facilmente poderia estar num livro em livrarias renomadas.
Natalia juntou-se a casa quando tivemos que nos despedir de Vinícius, que partiu e nos deixou de herança sua genialidade. Ela trouxe em sua bagagem contos variados e sua criatividade indescritível.
A casa prosperou, crescida como estava, com seus cômodos ocupados pelos distintos estilos de escrita e a porta de entrada sempre escancarada para aqueles mais tímidos que apenas passavam rapidamente e para aqueles fiéis leitores que aqui encontraram um lugarzinho para se aconchegar e desfrutar do que é oferecido. Viram? A simplicidade rege as boas histórias, principalmente aquelas que são vividas no mundo real.
A despedida outra vez nos bate a porta e diz que algumas coisas precisam mudar. Maiara, a contadora nata de histórias se despede aqui, juntamente com o idealizador de todo esse projeto, Cristiano, que deu o alicerce para a construção do que a Franquia é hoje, que ajudou com as estruturas importantes de toda obra, que trabalhou com maestria em tudo o que se propôs a fazer e que entendeu que mesmo que os personagens se vão, a história deve continuar.
Já disse que despedida não quer dizer esquecimento, pois todos que passaram por aqui serão sempre lembrados pela singularidade e carinho com que se dispuseram a colaborar com esse projeto que aprendeu a se renovar durante seus quase dois anos de existência.
Agora Rafael e Roberto, dotados de requintes na arte de escrever, entram a casa, cheios de uma ansiedade em explorar seus cômodos e abrir as janelas de seus quartos.

A Franquia continua, pois a magia das palavras permanece e enquanto ela existir há que continuar.

Abrimos as portas novamente, esperamos que gostem de como as coisas continuarão por aqui. Em breve a programação normal dos contos.  

sexta-feira, 30 de março de 2012

Sem amarguras, só saudade

Alçada por tranquilidade ela balançava os pés no píer. Os olhos despreocupados observavam as oscilações lá longe. O sol refletindo nas cristas das ondas fazia os cílios enamorar-se. Por um instante conteve-se em seu reflexo distorcido na água branda, um sorriso se espreitou no canto da boca ao notar que ao lado de sua imagem refletida, a de outro alguém se formava. 
- Senti a sua falta. – foram as palavras que pousaram em seus ouvidos. O mar quebrantando nas pedras ao longe se fazia silencioso para abraçar aquela voz serena e tanto ansiada.
- E eu a sua. – conteve-se ao dizer. Ainda amargurada pelo denso tempo que o esperou.
- Me desculpe pelo tempo. – disse como se adivinhasse seus pensamentos. Sentou-se ao seu lado fincando os olhos no horizonte.
- Ninguém tem culpa pelo tempo. – mordeu o lábio ao dizer, porque no fundo sabia que se entregar doía, e felicidade e amargura não pode ocupar o mesmo espaço, não ao mesmo tempo.
- Eu me entreguei a ele, deveria ter resistido um pouco mais. A volta seria breve. – as palavras saíram envergonhadas.
- Deveria. – foi sincera enfim.
Desconcertados ficaram encarando o Sol que descia devagar, as mãos inquietas, os suspiros solenes, o quase silêncio pairando entre os dois.

- Aceita desculpas sinceras? O seu nome estava em mim todos os dias. – replicou. Ainda está. – confessou. O sorriso dessa vez não se escondeu, nasceu em seus lábios para juntar-se aos dele. E ficaram ali, diminuindo saudade, abrindo o peito e aquietando as mãos umas nas outras. O dia se foi, a espera voltaria, mas eles permaneceriam correspondentes. Sem amarguras, só saudade.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Enquanto sonho



Todos os dias eu sou levado ao mesmo sonho, e não sei dizer se isso é a minha maior alegria ou o meu maior tormento. Há dias em que anseio por isso mais do que qualquer outra coisa, e há outros em que simplesmente não durmo só para não ter de te perder outra vez. É como um fardo ao qual tenho de carregar, e não importa para onde eu vá ou onde eu durma, o sonho sempre é o mesmo.
São duas e quinze da manhã e eu ainda não peguei no sono, estou andando de um lado para outro no quarto, vendo a persiana balançar com o vento frio de Outono.
Estou exausto, mas esse é um daqueles dias em que eu não tenho forças para te ver partir. Há quem diga que nós sempre somos fortes o suficientes para agüentar a dor, mas essa parece ter se tornado um buraco negro dentro de algum lugar dentro de mim, com força desconhecida e velocidade angustiantemente lenta, e que constantemente me suga em pequenas porções. O meu medo é que esse buraco negro além de se alimentar também me regurgite gradativamente, me fazendo ficar preso nesse ciclo abissal até onde minha mortalidade permitir.

Sento na cama com o rosto escondido entre as mãos, sinto a barba por fazer em minhas palmas e lembro-me das suas reclamações em determinada época do mês sobre a minha barba espetar o seu rosto, e em outros dias, de como você sorria quando eu a passava delicadamente em seu pescoço, dizendo que fazia cócegas. Não, não era bipolaridade, eu nunca a acusei, mas eu sempre soube que você era como a lua - cheia de fases, e eu me esforçava para conhecer todas elas, no fundo eu sabia que por mais fases que você tivesse, você sempre seria a minha menina, independente de estação ou época do mês eu sempre procuraria em seus olhos aquele brilho pueril, e me perderia em seu sorriso torto ao me flagrar te observando silenciosamente.
Não consigo evitar, tais lembranças sempre me arrancam lágrimas pesadas, e o choro me carrega para um sono indesejável. Nessa noite, meu sonho tem gosto de lágrima como em todas as outras desde a sua partida.

Me vejo em um campo coberto pelo entardecer, nuvens acinzentas se aproximam e tomam conta do lugar rapidamente, a chuva parece apressada mas ainda não cai. Observo o horizonte coberto pelo capim alto, o vento o faz dançar calmamente como se fossem ondas sendo movimentadas a cada passar. Um cheiro forte toca o meu olfato e, involuntariamente uma lágrima escorre por meu rosto até tocar a minha boca me fazendo sentir aquele gosto salgado. É o gosto que tomou conta de minha vida após a sua partida. E o cheiro que me toma nesse momento é aquele que eu sentia quando afundava o rosto em seu cabelo dourado como o próprio capim que vejo balançar.

O vento se faz mais revigorante e feroz, até se acalmar mais uma vez enquanto você surge no meio do capim alto se aproximando com uma expressão doce presa no rosto. E a observo com os olhos empoçados, os ombros caídos e as costas pesadas, já sei o que acontece depois. E é simplesmente doloroso demais, quero sair do sonho, tento sair, me obrigo a sair, mas não posso. Nunca consegui, e às vezes, mas só às vezes, quando eu já estou cansado demais eu a culpo por isso. Me perdoe, esse é o meu lado humano tentando amenizar o irremediável.
Você fica frente a frente comigo, passa as mãos finas em meu rosto tentando secar aquele mar desgovernado que desce por meus olhos. E não adianta; nunca adiantou.
Eu enrosco as mãos em seus cabelos e a abraço forte, querendo tirar você desse lugar, querendo levá-la comigo.  Vejo seus olhos lacrimejarem enquanto você me encara com um olhar compreensivo, como se dissesse que exatamente era o que você tentaria fazer se estivesse em meu lugar, que me entendia bem, e eu sei disso porque você sempre foi assim; sempre foi capaz de me entender por mais falho que eu fosse.  Afundo o rosto em seu cabelo e inspiro aquele cheiro para dentro de todos os meus cantos, você se afasta um pouco como se o tempo estivesse acabando, e está mesmo, eu sei.

Vejo sua pelo ficando cada vez mais pálida como se estivesse se desfazendo, a beijo com todo o amor existente em mim e sinto que você faz o mesmo. Sinto os meus dedos apertarem sua pele, e por um momento tenho a terrível impressão de que eles podem ultrapassá-la. Você se afasta e eu seguro a sua mão em desespero, por que só dessa vez não pode ser diferente? – penso. E você parece ouvir tal pensamento, seus lábios se movem calmamente e leio suas palavras mudas.
Não deixe a dor tomar conta de todo o seu ser. Eu estou com você em todas as horas do seu dia, e estarei por toda a sua vida. Nos veremos outra vez.
O meu choro agora é acompanhado por ruídos dolorosos, entre soluços vejo os seus dedos sumir entre os meus, quero impedi-la, mas ainda pareço anestesiado por suas palavra nunca ouvidas antes, ou apenas nunca observadas, não sei ao certo. De todas as vezes que estive aqui, acho que nunca tinha me permitido ouvi-la de verdade.
E mais uma vez eu a vejo partir, a chuva começa a cair timidamente e sinto suas lágrimas se misturarem às minhas. Sou tirado daquele lugar com mais delicadeza do que o comum, e pela primeira vez desde o dia da sua morte, eu senti uma esperança inexplicável se instalar em meu peito enquanto repetia mentalmente as palavras que haviam me tocado tão suavemente, sim, você nunca me abandonaria, estava comigo o tempo todo, mas os olhos às vezes nos cegam e não nos permite ver aquilo que faz o mundo de cada ser vivente ter sentido.

Quando acordo não estou desesperado como todas as outras vezes em que eu sonhava com você. As suas palavras permanecem gravadas em minha memória e soam reconfortantes até o dia em que nos veremos outra vez. E nunca tive tanta certeza em minha vida como tenho agora, entre um suspiro aliviado observo a cortina sibilar tranquilamente em minha janela, o vento toca o meu rosto como se beijasse minha face, e aquele cheiro me invade outra vez - o cheiro do seu cabelo dourado. Fecho os olhos e absorvo a sua presença, no íntimo sinto que ela sempre esteve aqui, dentro de mim.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Só o tempo; Só, o tempo


Vestida por um sonho inacabado que movimenta o sono quase tranqüilo de todas as noites. O quase surge no impasse soprado pelo caos que mergulha nos ouvidos atentos. Deveria ser ela a menina tranqüila de sono fácil. Deveria. Mas a existência da objeção faz de sua linha da vida um quadro subjetivo e frágil de difícil entendimento.

Ela sonha com engrenagens. Milhares delas. E em um momento despercebido sua visão é alçada por um vôo cálido. O vento que sopra suas roupas é trançado por um calor aconchegante. A brisa carrega plumagens galopadoras de suspiros, e essa é a parte gera uma tranqüilidade incomum. Seu vestido é pintado pela cor de seu líquido vital. Enquanto sua visão altiva se faz, as engrenagens vão dissolvendo-se perante a altura que as fazem sumir.

Um tombo insensível a leva de volta, as engrenagens em constante movimento vão ficando mais próximas e ela consegue perceber o barulho incessante de dispersão entre ela e ela mesma.
Algo lá fora a chama, sua voz é inteiramente audível. As engrenagens reclamam insistentes. É a hora. É a hora! O tiquetaquear se faz ensurdecedor. Ela esfrega os olhos empurrando o resto de sono das pálpebras. As engrenagens a cercam por todo o lugar. A escrava do tempo acordou – murmura para ninguém, e para o mundo. 

domingo, 29 de janeiro de 2012

Precipício Temporal

Olho no espelho pela quinquagésima vez nesta noite, e me perco nos traços feitos pelo tempo. Ao lado observo uma fotografia antiga, onde eu me encontro num sorriso desconcertante de moça jovem que acaba de desbravar o mundo.

Todas as noites faço esse mesmo ritual, antes de dormir observo incansavelmente aquela foto. Sei que maltrato o meu coração maltrapilho desse jeito; sei que há coisas maravilhosas na velhice que podem me deixar contente. Mas nada será como antes. E disso eu sinto muita falta.

Sabe, quando se tem filhos, e netos, e um amor de mãos enrugadas para sobrepor a minha, essas reclamações de mim para mim mesma parece egoísta. Mas veja bem, eu sou feliz, muito. Mas também sou pura nostalgia, sempre fui. E esse é o meu jeito, não há outro jeito que me sirva tão bem quanto este.

E agora me pego outra vez mergulhada em melancolia, culpando o tempo por ter me levado embora de mim mesma. Nessas horas sinto como se houvesse um abismo em mim, onde eu insisto em cair todos os dias, e durante a queda eu sempre perco algo de muito valor.

Primeiro foi a dança, e isso me fez sentir como se cada célula do meu corpo fosse atingida. Quando olhei para o palco e não pude subir nele sem precisar da velha bengala, apenas chorei. Chorei lágrimas de sangue que me destroçavam a cada descida.
Depois foi o meu violino, que apenas reclamava emitindo grunhidos animalescos quando eu o tentava tocar com as minha mãos trêmulas. Fui obrigada a abandoná-lo. Ah, que saudade sinto...

E quanto mais o tempo se passava para mim eu percebia que mais coisas eram tiradas; e que as quedas em meu próprio abismo existencial se tornaram constantes. Pois logo depois, a minha memória começou a bater em retirada em pequenas doses. Houve vezes em que esqueci os nomes dos meus próprios filhos. E então tive certeza de que dor maior que essa não existia. Até perder a minha amiga, a minha fiel amiga. Ela, como eu, já estava limitada de tantas coisas... E quando a olhei deitada naquele caixão frio percebi que sorria. Talvez estivesse cansada demais de ser sucumbida pelo tempo. Ah, Amélia me foi uma irmã emprestada, que a vida me deu e que o tempo me tomou. No dia de seu enterro eu não consegui tocar dignamente a sua música favorita em meu violino, mas tentei, e sei que fiz feio. Mas ela não se importou, sei que não.
Há quem diga que tudo isso não passa de um capricho meu, mas eles não sabem o que eu sei, porque todos os que falam assim são jovens, estão vivendo correndo contra o tempo, mas quando perceberem já foram atropelados por ele ; e já estão velhos o suficiente para olhar-se no espelho e chorar admirando uma fotografia antiga.

Espero que consigam chegar até onde eu cheguei, e que tenham muita força para isso. Porque a velhice não é de toda ruim. Como agora, nesse momento que olho para trás engolindo doses de passado e observando o rosto que tranquilo em minha cama. Enxugo as lágrimas em minhas rugas cansadas, e vejo aquele sorriso de menino pregado no rosto do meu eterno garoto. Impressiona-me tanto olhá-lo, porque por mais que eu veja rugas e cabelos grisalhos, a alma dele transparece toda a sua juventude, e me sorri como na primeira vez em que foi apresentada a mim. E isso é o que me faz feliz nesses dias que eu sou toda nostalgia. Esse menino que me puxa de volta é o equilíbrio que preciso quando estou titubeando à margem de meu precipício temporal.  

domingo, 15 de janeiro de 2012

Vencendo interrogações


Não há nada mais inútil do que pegar o telefone sem ter a intenção de completar uma ligação. Aliás, há uma coisa mais inútil sim, aquele momento em que o olha por horas a fio, se martirizando por dentro numa dúvida destrutiva: ligo ou não? Não ligo. Não. Ligo. Não, não ligo. Não. Ligo. Depois de um jogo repetitivo de afirmações e negações sobre ligar ou não ligar, a decisão é tomada. Ligo.
O telefone antes tão inofensivo - lê-se antes como um tempo antes de você; antes dessa nossa história pela metade -, agora parece um monstro faminto pelas minhas interrogações.

Disco o número vagarosamente, apertando cada tecla com uma insegurança insuportável, bato o telefone com força; com raiva de mim mesma e de minha covardia; com mais raiva ainda de você que me fez assim, alienada. Faço mais uma tentativa, e mais outra, não sei quanto tempo passo nesse ritual cansativo, mas acho que muito. Por fim, consigo completar a discagem, o telefone toca três vezes antes de ser atendido por você. Estou com a mão apertando o aparelho de modo exagerado, seguro a vontade de bater o telefone com tudo, em sua cara. Mas isso seria muita covardia, e dessa já estou saturada.   

A sua voz soa cansada, por um instante penso em insultá-lo, como sempre faço em nossas brigas; em seguida penso em dizer o quanto tenho sentido a sua falta e o quanto me arrependo de tê-lo mandado embora. Mas você sabe, eu nunca faria isso, se o fizesse não seria mais a mulher pela qual você se apaixonou.

Fico em silêncio, ouvindo essas restritas palavras que variam entre: “Alô” e “Quem está falando?” Depois de pouca insistência elas cessam e eu estremeço. Ouço a sua respiração ficar mais pesada, depois um suspiro longo de exaustão.
- É você? – seu tom é quase o de uma súplica. Eu sinto vontade de dizer entre lágrimas que sim, que sou eu. Mas não o faço, permaneço presa nesse silêncio que grita em minha cabeça.
- Eu sei... Por favor... Me diga que sim.
- Sim... – minha voz soa arrastada, quase inaudível.
- O que você quer? – seu tom se faz áspero, quase consigo ver a sua expressão de ira.
- Eu... Me desculpe. – digo depois de um longo silêncio. O meu orgulho é engolido em goles pesados e cortantes, ainda sinto o gosto amargo na língua; a garganta ferida.
- O que você disse?
- Você ouviu, droga!
- Ligou para brigar comigo, é isso? Já não está cansada?
- Estou. – meus ombros caem. Estou mesmo exausta.
- E então?
- Você que tentar?
- De novo? Mais quantas tentativas são necessárias para você mudar?
- Apenas mais uma. Estou me humilhando, engolindo o meu orgulho diante de você, custa ser menos rude?
- Eu tenho esse direito, você não pode me cobrar cortesias.
- Tudo bem, faça o que quiser! – aumento o tom de voz enquanto bato o telefone. Fico alguns segundos o encarando com raiva, eu bateria nele se ele estivesse ali. As lágrimas tão pouco usadas escorrem quentes, cortando o meu rosto, me mostrando que mesmo sendo uma pessoa difícil, quase impossível, sou tão sentimental quanto ele.

O telefone toca, hesito em atender, cruzo os braços, dou duas voltas na sala, e corro antes que ele desista. Pego o telefone controlando a respiração.
- Você é muito complicada.
- Ligou pra me dizer isso?
- E muito apressada.
- Vai continuar com os insultos?
- Escute, mesmo você sendo controladora, irritante, insensata, insegura, em suma, problemática, eu amo você. Amo todos os seus defeitos, de verdade. Eu não quero que você seja outra pessoa, quero apenas que seja para mim alguém que peça desculpas quando estiver errada; quero que não me mande mais embora, porque isso é doloroso, ainda mais quando joga as minhas coisas pela janela, eu nunca fiz nada pra merecer tamanho desmazelo. Quero que conversemos, sem gritos histéricos ou acusações incertas. Quero sensatez, pelo menos entre nós. Não me importo que com os outros você seja rude, arrogante, hostil, mas comigo, amor, não. Eu sou aquele que tem permissão para enxergá-la exteriormente e principalmente interiormente. E não, não podemos tentar. Podemos fazer disso uma certeza e não uma tentativa.
O telefone caiu inerte no chão, saí pela porta pegando apenas as chaves de casa. Depois de trinta minutos eu estava batendo em sua porta, descontrolada. Ele abriu assustado e eu me joguei em seus braços, dei uns tapinhas inofensivos em seu ombro enquanto dizia o quanto o amava. Ele suspirou, dessa vez foi um suspiro tranqüilo. Estávamos em casa.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Palavras-chave

- Não sei por que você insiste tanto... Vamos listar coisas das quais gostamos, e no final veremos que isso não tem chance alguma de progredir.
- Concordo com a lista, mas eu estou certo de que estaremos certos juntos.
- Romance; Cazuza; versos de Vinícius; música baixa; comida pronta; livros velhos; cheiro de grama; Inverno; frio; Lua; filmes do Chaplin; gatos; organização.
- Ficção científica; Metállica; listas telefônicas; música alta; cozinhar; gibis; cheiro de gasolina; Verão; calor; Sol; seriados; cães; bagunça.
- E agora você está convencido? Nós somos completamente diferentes, não temos nada em comum.
- Não. Você tem razão em parte. Somos diferentes, mas existe uma coisa que nos liga. E essa é suficiente para tudo acontecer.
- E posso saber do que se trata?
- Eu gosto de você, e você gosta de mim. Pode ser simples se assim você interpretar, e se não souber posso ensinar. Agora te dou duas palavras, uma delas leva ao começo e a outra ao fim. Sim ou não?
- Isso por acaso é um jogo?
- Não, não é um jogo. Não precisa encarar assim. E então...?
- Tudo bem.
- Só falou ‘tudo bem’ porque não coloquei nas opções. Me contrariar é um novo vício? 
- Não é novo.
- Tudo bem.
[...]
- Gosto do seu humor.
- O que você disse?
- Você ouviu. Não sou repetitiva.
- Você é um problema.
- Então já temos outra coisa em comum.
- Isso quer dizer um ‘sim’?
- Talvez...
- Talvez, ou sim?
- Fica subentendido.
- Não sou bom em adivinhações.
- Azar o seu.
- Mas sou bom aprendiz.
- Eu não sou muito paciente.
- Não precisa ser, eu aprendo rápido.
- Por que tanta insistência?
- Porque gosto de coisas difíceis, valem mais a pena.
[...]
- Gosto do seu humor.
- Isso é algum atalho?
- Essa pergunta é você quem responde.
- O que acontece depois?
- Depois de que?
- Disso.
[...]
- Vai ficar me olhando assim? Não vai me bater ou gritar comigo?
- Por que eu faria isso?
- Porque acabei de te beijar sem sua permissão.
- Sem a minha permissão?
- Você é um enigma.
- Eu sou muitas coisas.
- Eu posso desvendá-la?
- Pode tentar.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Divã

Mãos. Pés. Olhos. Tudo precisa mesmo de uma pausa excessivamente lenta, já que esses são os espelhos que refletem a angústia de sempre.

As mãos inquietas gesticulam enquanto as palavras amargas são jogadas para fora, eu a observo, como sempre... Como sempre. 
A procura nasce das infelicidades causadas ao seu coração, eu, ouvinte de tudo, tento manter a paciência. 

Está sentada, com as mãos indo de um lugar para outro, às vezes um estalo de dedos, tudo um sinal de dor. Não sinto vontade de perguntar como se sente, não é preciso. Ela vai dizendo tudo antes mesmo de ouvir qualquer pergunta, na maior parte do tempo fico em silêncio. Vez ou outra me olha com olhos lacrimejados, e sinto que quer ouvir alguma coisa, mas só tenho a verdade a oferecer, e essa nem sempre é o esperado. Mas ela já conhece tudo, sabe que sou desse jeito, e mesmo assim me procura sempre quando o coração dói. Culpa dela mesma, já disse. E ela me olha com raiva, mas no fundo concorda. Sei disso quando movimenta os pés de um jeito inseguro e envergonhado, e os olhos miram o chão. 

O falatório perdura por um tempo que não costumo contar, me acomodo do jeito que posso, me distraio olhando para outro lado, a encaro quando ouço algum absurdo, mas volto a olhar para outro lugar em seguida. Já conheço tão bem todas as expressões que sinto um pouco de monotonia em revê-las, mas os ouvidos estão sempre atentos, não dá pra ser de outro modo.
É o que ela espera que eu faça, e parece melhor enquanto vai arrancando tudo de dentro e jogando ali, em minha frente. E os meus conselhos tão cansados de tudo, surgem em um ponto e outro, mas é um ato já banal; trivial, não faz diferença se está ali ou não, ela nunca os ouve, e isso é extremamente irritante e principalmente cansativo. Mas o faço, não consigo evitar, na verdade ajo com uma solidariedade meio sádica, porque sinto pena, mas não sei medir verdades, elas são cruas, e é assim que e as sirvo. 

No fim suspira, e ouve algumas coisas que digo em tom calmo. O celular dela toca, é uma dor passada, mas que insiste em voltar. E o mais engraçado é que ela sempre a recebe, e eu não comento, não adianta, tem gente que gosta de doer; tem gente que tem a terrível mania de trocar em pesos equivalentes o amor pelo desamor, não vê? Esse ‘des’ muda tudo, mas ela já não sabe diferenciar, e para ser franca, nunca soube. Eu apenas balanço a cabeça em sinal negativo. Sinto pena por ela ter esquecido a si mesma em uma passagem dolorosa a qual já não sabe onde está. 

Fim da sessão. Mãos. Pés. Olhos. Todos indo para algum lugar onde refletirão mais da dor que sente, e que cria todas as vezes que sede a ela.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Porta entreaberta


Na porta da geladeira eu vi mais uma vez aquele sinal de solidão. Era um papelzinho verde com o nome PLANTÃO, escrito assim dessa forma; em letras grandes e numa caligrafia apressada. Franzi o cenho e voltei me arrastando para a cama, de onde eu nem deveria ter saído. Mas o sono já estava longe de me agraciar com a sua ilustre presença, e eu já não fazia mais questão.

Acordei às sete da manhã e preparei café apenas para uma pessoa, coloquei apenas um prato na mesa, conversei com a cadeira vazia a minha frente, e fui para o trabalho. No fim do dia voltei, e mais uma vez só ouvi os meus passos naquela casa que parecia grande demais para mim de uns tempos para cá. Fui para a cozinha já esperando o meu aviso solitário. E como esperado ele estava lá, debochando de mim. CIRURGIA - era o que estava escrito.
Revirei os olhos sem sentir-me egoísta nem nada, tomei o meu banho, jantei sozinha, e contei para a minha solidão como foi o meu dia. Fui para a minha enorme cama, e deitei nos lençóis frios. O sono mais uma vez não veio.

Passaram-se meses até eu tomar uma decisão definitiva. Eu estava cansada dos bilhetes, pois não havia me casado com uma caligrafia rápida e uns bilhetes coloridos. Não, essa não era eu, e eu não sabia fazer esse papel de esposa solitária.
Como o celular dele estava sempre desligado, resolvi ligar para o hospital, uma secretária me informou que o Dr. Ricardo não estava, e que havia saído às cindo da tarde com a sua namorada. Desliguei o telefone me sentindo atônita, corri para o quarto enquanto lágrimas ardiam em meu rosto, joguei todas as roupas dele dentro de uma mala, e por último arremessei o maldito bloco de papel colorido em cima de suas roupas. Voltei para a sala sentindo a dor queimar em meu cerne; sentei no sofá pensando em minha vida até aquele momento, e decidi que quem iria fazer plantão naquela noite era eu.

Os meus olhos ardiam, mais de raiva do que qualquer outra coisa. Eu sempre fui uma esposa atenciosa, sempre o apoiei nessa decisão profissional, mudei de emprego apenas para ele ser transferido de hospital, virei a melhor amiga da solidão, e tudo isso o que fiz de que valeu?
A porta rangeu, e ele entrou em passos silenciosos. Liguei a luz do abajur e encarei a face assustada dele.
- Como foi o plantão, querido?
- Ah, oi querida. Ainda acordada?
- Fiquei sem sono.
- Ah, não foi muito agitado.
- Sei... - suspirei pesadamente. - Ricardo, primeiro eu quero lhe dar a chance de falar  antes de qualquer coisa. Então, você tem algo a me dizer? - perguntei enquanto me aproximava.
- Do que está falando? - seu rosto assumiu uma expressão preocupada.
- Acho que isso é um não.
- Não estou entendendo.
- Não seja covarde, liguei para o hospital hoje à tarde. - a minha voz soou tranqüila.
- Bem eu, não, é que... - seus olhos desviavam dos meus. Ele não sabia mentir.
- Quem é ela?
- Ela quem?
- O nome. - disse eu em tom áspero.
- Débora. - falou como se estivesse exausto.
- Como teve coragem de fazer isso comigo? Eu que fiz tudo por você. Eu que mantenho a cama fria a sua espera, e você, o que faz? Esquenta a cama de outra. Você não é um homem Ricardo, você é um ser asqueroso sem princípios. O que você faz não tem nada a ver com o que você é. Você não é médico, você apenas pratica a medicina. E por favor, não me procure, e só o faça quando eu estiver na presença do meu advogado para resolvermos o divórcio. A sua mala já está feita. - apontei para a mala atrás do sofá. Ele me encarou como se pedisse desculpas, mas nada falou, apenas pegou a mala e saiu pela porta que ainda estava entreaberta. Porque na verdade, ela sempre esteve.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Os olhos da Anna

Quando menino eu costumava ir em feiras de brinquedos usados com o meu pai. Íamos sempre ao primeiro dia de cada mês, e eu passava todos os outros esperando para que o bendito dia de compra de brinquedos novos - ou pelo menos, novos para mim - chegasse. Foi num desses dias que eu conheci a Anna, ela tinha as mãos agitadas e tocava em tudo o que podia sobre as mesas dos brinquedos. Eu me aproximei curioso, e observei-a de perto, a mãe dela me olhou com um sorriso doce nos lábios. E a Anna  perguntou em seguida quem estava próximo a ela, pois estava sentindo cheiro de alecrim, e a sua mãe não cheirava assim. Eu dei um passo para trás instintivamente, e cheirei a camisa. A mulher de cabelos negros deu uma risada boa de ouvir, e a menina veio em minha direção perguntando quem era eu. Ela me fitava, mas parecia não ver. Olhei por cima do ombro, um pouco confuso. Ela deu mais um passo em minha direção e perguntou se o gato tinha comido a minha língua, e eu ri um pouco sem jeito. Então ela me disse que seu nome era Anna, e que não podia me ver, mas que me sentia muito bem. Eu abaixei a cabeça me sentindo envergonhado, disse em voz baixa que o meu nome era Leonardo, e ela assentiu colocando uma das mãos em meu rosto, perguntando se podia me ver do jeito dela. Eu disse um sim meio tímido, enquanto ela passava os dedos delicadamente por minha face. Eu passei a adorar mais aquele lugar naquele instante.

A partir daquele dia, comecei a encontrar a Anna em todas as feiras de brinquedos, e nós nos tornamos bons amigos. Eu passava as tardes na casa dela, levava as minhas pipas para descrever as cores que ela tanto amava. Foi ela mesma que me ensinou a achar descrições para as cores.

Numa tarde em que eu levei pela primeira vez uma pipa para compartilhar com ela a sensação de ver um pássaro colorido voar sobre nossas cabeças, me arrependi de imediato porque não sabia como o fazer direito. Então ela sorriu me levando até a janela e dizendo que a sensação que o vento deixa no rosto é calma, e muito agradável, e depois pediu para eu achar uma cor que pudesse dançar com o vento. Eu disse azul, como o céu num dia claro, que eu adorava olhar por horas e horas, vendo nuvens formar desenhos engraçados. Ela riu, balançou a cabeça em sinal positivo, e disse que de nuvens conhecia bem, já que o seu pai trabalhava numa plantação de algodão e sempre a dizia que as nuvens pareciam algodões costurados no céu.

Foi desse jeito que a Anna me apresentou ao seu mundo, e eu a apresentei ao meu. O tempo foi passando, e nós continuávamos juntos. Ela era tão esperta, e eu adorava isso nela.
Nos finais de semana, quando não tínhamos aula, ela me pedia para ir vê-la tocar piano, e era maravilhoso. Ela fechava os olhos, e deixava os dedos dançarem sobre as teclas, quando terminava, suspirava e sorria para mim. Perguntava como tinha ido, e eu dizia que fora maravilhosa, como sempre. Nos fins de tarde passeávamos no parque, e ela deitava na grama, dizia que gostava muito de sentir aquele pinicado no corpo. Eu me deitava ao seu lado, e a admirava por horas a fio. Gostava como o cabelo escuro dela ficava derramado ao seu redor. E ela me perguntava como o céu estava naquele determinado dia, então eu o descrevia. Depois ela ria, ria sempre. E em um desses dias, ela me disse para eu ficar atento ao céu, porque sentia vergonha quando eu a encarava por tanto tempo. Eu fiquei abobalhado, sem saber como ela sabia que eu a olhava o tempo todo. Até ela me dizer que me sentia de todas as formas, e que os meus olhares nadavam dentro dela, porque ela havia me ensinado muito bem como fazê-lo. Eu segurei a mão dela quando ouvi essas palavras, e ela apertou a minha. Depois de um tempo de silêncio, ela encostou a cabeça em meu peito, e eu tremi por dentro, sei que ela notou. Então ela falou que o meu coração estava sambando, parecia mais o dela. Disse me deixando ouvir o seu músculo dançante. Eu fiquei ali, e ela passou as mãos em meu cabelo, dizendo que era macio quase como algodão. Eu sorri, ela sorriu, e em um instante mágico estávamos selando os sorrisos com um beijo. O primeiro de tantos outros.

Depois de alguns anos a Anna se tornou pianista profissional, e eu a assisto em todas as apresentações, até hoje. E consigo me emocionar em todas elas também.
E se quer saber, estamos casados, temos duas filhas, e eu vivo ao lado de uma incrível mulher que me viu como nenhuma outra pessoa foi capaz.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Para não dizer que não falei dos espinhos

Encara o reflexo no espelho por mais uma vez, diz ser a última antes de sair de casa. Olha  o vestido curto, e se sente bem enquanto admira as curvas bem afeiçoadas. Certifica-se se o batom está devidamente delineado em seus lábios fartos, ajeita uma mecha do cabelo atrás da orelha e sai segurando uma pequena bolsa.

Liga para uma das amigas solteiras que a chamou para sair naquela noite. A mesma que disse a ela para se divertir um pouco, e beber muito, já que esse é sempre o melhor remédio. E ela aceitou, porque já estava cansada do sorvete e dos filmes românticos de fim de noite.

Se arrumou de um jeito provocante, só para ter certeza de que ainda consegue chamar a atenção de outros homens; só para ter a certeza de que ainda consegue conquistar mesmo estando em pedaços.

A amiga buzinava em frenesi na frente na esquina da rua, ela sorriu acenando. Entrou no carro e foram para um bar no centro da cidade.
A música era de péssimo gosto, e ela achou que as mulheres daquele lugar pareciam usar maquiagem demais; pareciam bêbadas demais, e desesperadas demais.

A sua amiga conhecia quase todo mundo do bar, ficava vagando de mesa em mesa, e a cada vez que voltava para falar com ela, parecia estar um pouco mais bêbada.
Ela começava a achar que aquilo tinha sido uma péssima ideia, ainda segurava o copo de uísque pela metade.

Andou até o balcão para pedir  um coquetel de frutas com pouco álcool, já que sabia que teria que dirigir por sua amiga que já estava beijando um homem de cabelo grande e óculos cafonas do outro lado do bar. Ela tirou algumas fotos, só para rirem disso quando ela estiver lúcida o suficiente para se arrepender. Alguém tocou em seu ombro enquanto ela ria das fotos recém tiradas.

O riso de deboche que sustentava sumiu quando encontrou os olhos daquele que arrumou as malas há duas semanas e saiu por sua porta para nunca mais voltar.
Ele estava desconcertado, não sabia o que fazer com as mãos ou com os olhos. Sorriu sem graça e disse que ela estava muito bem, ela agradeceu  ajeitando o vestido no corpo. E ele perguntou se ela estava bem, bem mesmo. Ela sentiu vontade de jogar o uísque quente no rosto dele, mas não o fez, não o deu esse gosto. Então balançou a cabeça em sinal positivo, abriu um sorriso da melhor forma que conseguiu e disse que estava bem sim. Muito bem. Ele pareceu triste com a resposta, afinal, ele queria que ela estivesse sofrendo ao menos, já que ela sempre fora uma pedra fria. Isso era o que ele achava, mal sabia que ela havia passado as últimas semanas acabando com o estoque de sorvete do supermercado de seu bairro, e que já havia derrubado mais ou menos umas cinco árvores de tantos lenços de papel que gastou. Mas ele não saberia disso, e ela não o daria esse prazer.

Ela perguntou como ele estava, e ele disse que estava levando. Nesse momento o silêncio pairou entre eles e, mesmo com a música ruim tocando ao fundo, sentiam que o único som que ouviam era dos cacos tilintando dentro do peito. Ela abaixou os olhos e quando os suspendeu preferiu não tê-lo feito.

Uma mulher com uma roupa vulgar e um batom vermelho passava o braço pelo ombro do homem a sua frente, o homem que foi seu há pouco tempo atrás.
A mulher com cara de prostituta mascava um chiclete e perguntava quem era ela. O homem respondeu dizendo que era a sua ex-namorada. As palavras machucaram o seu tímpano, mas o que doeu mais foi a cara de indiferença que a outra fez a sua frente. Ela beijou o homem, e disse que estava o esperando no carro para irem embora. A mulher sentiu o rosto queimar enquanto observava os olhos inquietos do outro.

Ela travou um choro na garganta dizendo que era melhor ele ir logo, para não deixar a vadia esperando muito. Ele abaixou a cabeça e lhe deu as costas. E ela saiu do bar em seguida, arrastando a amiga bêbada que ainda estava com o homem cafona. Dirigiu enquanto lágrimas queimavam o seu rosto. Em casa jogou a amiga no sofá e foi para a cozinha procurar as garrafas de vinho caro que ele guardava com tanto carinho. Ela bebeu todas elas, e no dia seguinte acordou com uma dor de cabeça que estava invadindo até os seus pensamentos. Achou melhor assim, já que as lembranças da noite passada não haviam sido as melhores. Sentiu ânsia de vômito em pensar no rosto da mulher que estava com ele, vomitou tudo o que podia, mas não tudo o que queria, porque a dor continuava lá, para sempre.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Determinantes

Naquela noite ele tinha os olhos voltados para o teto do quarto, onde observava os próprios pensamentos vagando por ali. Todas as noites ele tinha essa atitude, e era sempre uma confusão desgovernada que crescia à medida que as horas passavam.
Alguém bate na porta, e ele não responde. Já sabe quem é e o que quer dizer. Não quer ver ninguém, principalmente o seu irmão mais velho que acha que pode cuidar de tudo e de todos. Mas o seu irmão não sabe. É um mortal, como ele também é. O seu irmão não pode fazer nada neste momento.
Quando mais novos ele sempre lhe tirava das brigas, o defendia a todo custo, mas agora ele já não pode fazer isso, os seus passos escolheram outros caminhos aos quais se afastam dos caminhos mais estáveis que o seu irmão escolhera.

Ele ouve a voz do irmão do outro lado da porta, parece exausto, pede para entrar. Ele não responde, apenas encara a porta fechada.
- Não foi sua culpa. – a voz soa enfraquecida. Ele cerra os olhos como se essas palavras o perfurassem. Porque na verdade ele pensava exatamente o oposto. Era sim sua culpa. O seu pai não morreria naquela noite se não precisasse ir até a delegacia para tirá-lo de mais uma encrenca.

 Ultimamente ele andava fazendo muito disso, se envolvendo em confusões dais quais não conseguia sair por si próprio. Ultimamente lê-se a vida toda. Dezoito anos de problemas densos demais para a sua fuga. E era assim por que... Por que... Por que mesmo?
Ah, quase já não conseguia se lembrar. Foi a sua mãe que morreu quando ele ainda era muito pequeno, e crescer sem a mãe e sobe os olhos críticos de um pai de poucas palavras nunca fora fácil, mas nada disso justifica seus erros. Muita gente sabia como viver mesmo quando tudo parecia conspirar contra suas vontades. Não, a culpa não fora de sua mãe ou de seu pai. A culpa sempre foi sua. E agora, ouvindo a voz cansada do irmão do outro lado da porta, sabia que mais uma vez havia errado, e mais uma vez a culpa estava deitada sobre si.

- Abre a porta, João! – insistiu. Era impressionante o quanto o seu irmão podia ser insistente, ele nunca havia desistido dele, e já tivera incontáveis motivos para isso. Ele se levantou arrancando a lágrima que escorria pelo rosto como se tivesse raiva daquele ato. Abriu a porta e encarou o irmão sentado no chão. Os olhos em brasa, de ambos.

Seu irmão ainda estava vestido com a roupa do funeral, ele parecia extremamente cansado, afinal, passara os últimos dias resolvendo tudo sobre o acidente de carro que matara o seu pai. Por um momento pensou o quanto era difícil ser ele, e que jamais poderia ser assim.
Sentou-se do lado dele no chão, e encarou a parede clara do corredor mal iluminado.

- Escute João... – suspirou pesado – O que houve não foi culpa sua. Você não tinha como saber que isso iria acontecer, e sei que se soubesse jamais entraria em confusão naquela noite. – ele o encarava proferindo as palavras com sinceridade.
- Por que você sempre é assim? Não vê que não sou como você? Não vê que tudo o que tenho feito é estragar tudo? Eu sou destrutivo Tadeu, sempre fui. E está longe do seu alcance fazer alguma coisa para mudar isso.
- Sabe... – virou os olhos para a parede para onde João olhava. – eu não posso fazer nada a respeito, quem pode fazer é você. Você só precisa entender que o passado não pode mais ser mudado, mas que de hoje em diante tudo só depende de você. Você não é destrutivo; você escolheu ser. E eu insisto em você por que sei quem você é realmente. O menino confuso que nunca soube como crescer longe dos pais. Sei que se sentia longe do pai mesmo quando ele estava ao seu lado. Ele não sabia como lhe dar com você, João, eu nunca soube, mas eu sempre insisti em fingir saber. E sabe de onde eu tirei toda essa vontade? De nossa mãe, ela me pediu para cuidar de você, e é o que tenho feito desde então. E se ela não pedisse, eu o faria mesmo assim, você é o meu irmão, temos que cuidar um do outro.
- Mas eu não cuido de você, não há troca, eu só sei tirar e tirar. – a voz soou envergonhada. E foi a primeira vez que Tadeu viu o real arrependimento grudado no rosto do irmão.
- Pare de se culpar, as pessoas erram o tempo todo. Você pode reparar.
- Eu posso trazer o pai de volta Tadeu? Como eu posso fazer isso?
- Não... – sua voz sumiu. Estava cansado, muito cansado. Olhou para o irmão que agora chorava como o menino de oito anos que cairia da bicicleta em um dia pouco ensolarado. O abraçou sem saber o que deveria ser dito. João ficou soluçando em seu paletó preto, molhando-o com lágrimas pesadas.
- Eu sei que o pai não o culpa, ele nunca o culpou, João. E onde ele estiver agora, sei que ainda acredita em você. Nós sempre acreditamos em você. A culpa não é sua. Acredite. Mude.
Naquele momento João queria ser exatamente como o irmão. Sabia que não poderia ser como ele, mas também sabia que poderia tentar ser diferente do que andou sendo.

Ficaram em silêncio por um longo tempo, até Tadeu levantar-se e estender a mão para João.
- Eu acredito em você, agora você precisa fazer o mesmo. Você consegue?
João o olhou com admiração, lágrimas ainda escorreram por seu rosto quando ele pegou a mão do irmão e a apertou com vontade; vontade de fazer diferente; vontade de dar razão a crença que o seu irmão tem nele, e que os seus pais sempre tiveram.


* 88ª Edição conto/história - Proj. Bloínquês

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Liberdade chuvosa

A chuva que molhava o seu rosto naquele dia nunca pareceu tão libertadora. Ela estava sentada do lado de fora de uma casa praieira, o vento forte balançava seu cabelo pesado pela água gélida que já havia encharcado-a, mas ela não se importava, mantinha uma expressão serena, os olhos fechados, e uma paz indescritível. Aquilo sempre a lembrava da noite de sua libertação.
...
O café estava derramando no fogão, um homem bêbado entrou na cozinha e caiu antes de alcançar o interruptor da lâmpada, a menina o espreitava por detrás do sofá da sala. Ela abraçava os joelhos e balançava o corpo para frente e para trás enquanto tentava controlar os soluços. Em uma das mãos ela apertava uma fotografia antiga, o rosto da mulher estava desfigurado, manchado pelas lágrimas da menina em prantos. Na outra ela segurava o aparelho celular, com olhos culpados e temerosos.
O homem se levantou como conseguiu, desligou o fogão e queimou-se com o café, bradou voltando-se para a menina que escondia o rosto rapidamente atrás do estofado sujo.
- Você é igual a sua mãe! Igual! – berrou cambaleando até a sala.
- Você está se escondendo de mim? Quer fugir também? Você é igual a ela! – tropeçou no tapete enquanto ia em direção ao sofá, a menina escondeu o celular embaixo do estofado, e a fotografia dentro do vestido surrado.
- O que você está escondendo aí sua imunda? – disse segurando a menina pelos braços. Ela se remexia, e o encarava com olhos de desespero.
Ia começar tudo de novo, ela já não aguentava aquelas surras, já não suportava ter que mentir para os amigos na escola, já não sabia como esconder aqueles hematomas por todo o seu corpo, e o pior de tudo é que por dentro doía muito mais.
Os cabelos claros foram puxados, ela foi jogada contra a parede. Suas lágrimas misturaram-se com o sangue que escorria do lábio recém partido. O homem se desequilibrou e caiu em cima da mesa de centro, alguém bateu na porta.
- Não tem ninguém aqui! – ele berrou. A menina estava em um canto da sala, chorando, limpando o sangue no vestido já tão cansado daquelas manchas.
- É claro que não! – foi o que se ouviu quando a porta foi derrubada. A menina estava assustada, mas sabia do que se tratava. O homem bêbado tentava se levantar, ainda tentou acertar um soco no policial, mas esse o colocou com o rosto no assoalho.
- Eu não sou uma garotinha, seu cretino. – disse o algemando. A menina assistia a tudo sem ao menos piscar.
- Você é muito inteligente, filha. Venha conosco agora, sim? – disse outro policial enquanto a  segurava com cuidado.
- Sua imunda! – o homem berrou enquanto era levado. 

A menina foi para um orfanato, era uma noite chuvosa, mas a chuva jamais a tinha a agradado tanto. Ela passou uma semana naquele lugar, até que encontraram uma tia distante que a criou como se fosse uma filha.
Hoje, depois de dez anos, as lembranças ainda permanecem vividas, mas a tranquilidade por essas terem feito parte de um passado distante a acompanha. As noites de chuva sempre a faz lembrar da primeira noite que se sentiu livre de verdade, e agora, ali do lado de fora daquela casa ela absorve a chuva com toda a alma exposta.

- O jantar está pronto, querida! – disse a senhora que a esperava na porta com uma toalha nas mãos. Ela já conhecia aquele ritual, sabia que a chuva representava a alforria da menina que um dia fora escrava de um pai que nunca mereceu esse título. Mas no fim as coisas se ajeitam, é o que sempre disse para si mesma; é o que sempre diz para a menina de cabelos claros, que sorri enquanto a abraça ainda molhada, a tia a aperta contra si, e a menina percebe que ali foi o lugar onde sempre quis estar. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Te vejo logo mais

Meus olhos seguiam cada cena com atenção, me sentia extasiada com cada abraço de reencontro, mas logo o coração ficava pequeno, e se fazia buraco negro que sugava com força o meu êxtase enquanto a minha visão contemplava aquela despedida ali no canto. Um jovem casal com mãos que não queriam mais se soltar. Depois o choro da menina que mantinha a mão erguida firmando aquele adeus. Foi triste, e eu disse que havia caído um cisco no meu olho  para uma menininha que me encarava curiosa. Dei algumas fungadas e ouvi o apito do trem soar, estava me chamando. Andei em passos preguiçosos, e senti uns tapinhas em minhas costas.
- Bem na hora. - disse eu.
- Desculpe o atraso, querida. A sua avó estava me empurrando aqueles biscoitinhos de manteiga com amendoim, e você sabe que eu não consigo resistir.
- Ah, claro vovô, o senhor ainda vai me trocar por esses biscoitos... - arqueei uma sobrancelha o encarando.
- Ah Liz, não seja tão dura com o seu avô, você sabe que eu não faria isso. - me abraçou afagando o meu cabelo como quem afaga o pelo de um gato manso.
- Vovô?
- Sim?!
- O senhor passa muito tempo com aquele gato preguiçoso.
- Não fale isso do Sr. Bigodes, ele é tão bom com você...
- Ele só me procura quando tem fome.
- Ah, isso não é verdade.
- Ta bom, quando quer carinho também. - sorri. E ele me fez uma careta. Mais um apito soou anunciando a despedfida.

Eu nunca gostei de despedidas, e já estava falando até do Sr. Bigodes para evitar aquelas palavras que nos arrancam lágrimas de saudade.
Eu olhei para o meu avô, e ele me lançava aquele olhar esperançoso, de quem sempre vê o lado bom das coisas. Ah, eu queria ser mais como ele.
- Querida, não precisa olhar para trás, os calcanhares estão no lugar de sempre. - sorriu docemente. Tão sábio...
- Vou sentir saudades... - não pude evitar a voz falha. O abracei com força em seguida. Ele retribuiu o abraço caloroso.
- Não é um adeus, é um te vejo logo mais. - disse em voz rouca. Pigarreou e me manteve ainda firme nos braços, ele não queria que o visse chorar. Eu o entendo, porque sou como ele nesse aspecto.
O último apito soou cansado e exigente, me obrigando a desvincular-me daqueles braços firmes. Limpei a voz e tentei sorri para ele.
- Te vejo logo mais. - beijei a sua testa. E ele sorriu satisfeito. E sei que ele acredita nisso; sei que ele acredita que cinco anos podem caber em um logo mais. E eu também acredito, porque estou tentando aprender com ele sobre o lado bom das coisas.

Ele aperta a minha mão e beija o topo da minha cabeça.
- Diz a vovó para moderar na manteiga. - eu brinco.
- Digo sim. Mas ela vai ter que exagerar nos amendoins. - pisca para mim. E nós rimos alto. Viro as costas, tentando não olhar para trás. Porque os calcanhares estão lá, sempre estão.
Entro no trem, e passo a manga do suéter no vidro da janela. Ainda vejo o homem em postura invejável chorar. Ele acena e finge que tira um cisco dos olhos. Eu solto uma risada abafada enquanto o trem se distancia e o meu coração começa a apertar. A saudade chega faceira e se instala em algum lugar do meu peito. Mas atino a memória e lembro do te vejo logo mais, isso me conforta de alguma maneira. E enquanto eu estiver naquela universidade eu irei me lembrar dessas palavras.
- Sim vovô, te vejo logo mais... - repito baixinho para ninguém.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Semana especial: 1 ano de Franquia #Dia01

A História

Exatamente hoje, faz um ano que as portas da Franquia foram abertas. Para comemorar, montamos uma semana inteira de postagens especiais. Justo começar no primeiro dia com uma retrospectiva.

A Franquia nasceu com o seguinte motivo: um espaço a mais para contar histórias. A criatividade anda morrendo, todos sabemos, e com ela a boa literatura, a leitura, esse amor pelas palavras. O intuito da Franquia sempre foi: que periodicamente um história fosse contada, ainda que curta, para que o entretenimento e o prazer de ler se propagassem. Os contos são essenciais, sempre foram. Nos contos surgem personagens, que podem ou não personalizar alguma coisa na gente, esse poder de relativizar as situações da vida, e a moral que sempre reside como fundamento.

Gerada a ideia do projeto, Cristiano G. convida Rodolpho P. e Nini C. para fazerem parte do time inicial. Prontamente aceitaram. As bases do Contos Franqueados foram lançadas assim, com a ideia de um e a boa vontade de dois blogueiros.

Infelizmente, não passado muito tempo, Nini C. teve de se afastar do projeto por motivos pessoais. Deixando um legado pequeno, de apenas 3 contos. Mas que a pouca quantidade não lhe tire o valor.
Nini será sempre lembrada pela genialidade dos seus contos, pelo modo surpreendente e quase concreto com que suas histórias se assemelham a vida. A radicalidade que explicita a alma.

Com um lugar vago, Letícia R. é convidada a juntar-se a casa. E aceita prontamente. Por longo tempo a Franquia prospera naturalmente. A cada três dias, um conto novo, e acompanhando os contos novos, mais e mais pessoas fantásticas foram surgindo e seguindo. Uma nova fase começou na nossa comemoração de 6 meses.

Os então franqueados, Cristiano G., Rodolpho P. e Letícia R. resolvem fazer um evento que ficou chamado de A expansão. O lay-out da Franquia tornou-se esse atual, os contos passaram a figurar nesses projetos da blogosfera, um feedback dos melhores contos foi feito e dois novos blogueiros foram convidados. Entram para a casa, Carolyne M. e Vinícius R..

Não muito tempo depois, Carolyne M. não pôde continuar conosco. Motivos pessoais a fizeram sair. Deixa conosco a lembrança de quão brilhante foi pelos 3 contos que publicou aqui. Apesar de pouco, foi essencial.
Carol trouxe com maestria um romântismo, um feminismo, uma suavidade sem igual. O que ela provou é que ainda há sensibilidade quando se procura, há. Basta escolher sentir.

Uma vaga aberta, e logo é anunciada a franqueada que veio a ocupá-la: Maiara B. E com ela, chega um tempo de produção maravilhosa na franquia. Quase 5 meses ininterruptos, o blog crescendo, acumulando prêmios e nossos tão essenciais leitores. Devemos agradecê-los sempre: escrevemos para aqueles que leem. Vocês são o motivo e a recompensa. Muito obrigado.

Mas sim, se são quase ininterruptos, é porque houve uma interrupção. Por razões pessoais, Vinícius R. teve de sair. Mas aqui permaneceram 10 contos dele. Um legado sem igual para a Franquia. Vinícius, em sua essência, um poeta na prosa, nos faz lembrar que o rigor sintático e bom gosto semântico são ferramentas primorosas. Que ninguém se esqueça: a precisão também sabe contar histórias.

A saída de Vinícius foi aproximadamente há 1 mês. Para completar a atual configuração atual, chegou Naty A. E assim completa os 5 franqueados.

Comentando um pouco desses 5, temos:

Cristiano, um fundador, o que fala mais do amor mais do que qualquer outra coisa. Se vale do drama, das tragédias humanas, do sentimento de cada situação. Mas não é que ele tenha perdido a esperança; ao contrário. Fala no desamor, porque o amor é sua crença.

Rodolpho, também fundador. Seu talento é o imaginário: a capacidade de construção de tantos personagens distintos, de tantos temas distintos, de tantos cenários e tantos eventos e tantos finais distintos. Nele reside a criatividade, e o brilho da escrita.

Letícia e sua bússola moral. Seus contos carregam os sentimentos, aquela coisa bonita de ter a moral da história acessiva à nossa vida. Até porque, a Letícia provou escrever das coisas da vida como ninguém; garantindo essa leveza, garantindo essa esperança. Há esperança para todos nós.

Maiara, e a genialidade. A complexidade é um artifício, o alto nível de escrita, o apuro temático, o valor do raro. Seus contos trazem o que em muitos já está perdido, o clássico ainda é capaz de surpreender, de prender, de nos ensinar. O clássico sempre será bonito.

Naty, a moça dos contos acessíveis. Seu talento é bastante conhecido e sua bagagem como contadora de histórias é admirável. Porque contos simples também são fantásticos, e a literatura que ela traz pode chegar a todos os lugares. A simplicidade não tem limites.

. . .

Por fim, para completar nossa história, pedimos a Renato Alves, do blog Cinema, a arte da emoção, seguidor desde quase a fundação da Franquia para nos avaliarmos; obtivemos o seguinte:

"Contos Franqueados possui uma junção entre o que é de vocês (autores) e de do que é nosso (leitores).
Acredito que o site funciona como uma ótima fonte de contos que misturam conteúdo, qualidade e poesia. Isso sem sair do mundo cotidiano e de histórias reais e relevantes. Algo como uma mistura de Nelson Rodrigues (meu ídolo máximo) e Machado de Assis. No mundo de hoje onde 90% dos textos são descartáveis e vão para a lata do lixo, Contos Franqueados está, de forma coesa e rica, conseguindo marcar seu espaço e deixar sua marca para um público cativo e fiel."

Muito obrigado, Renato. E com essas palavras voltamos a dizer: sem leitores, nosso projeto não teria de ser, nem o porquê de ser. O que está escrito, nossos contos, nossas palavras, na esperança daqueles que sempre virão a ler, e na esperança de que no mundo continue existindo pessoas assim: capazes de sentir a beleza das histórias. Somos gratos, muito obrigado.

A Semana especial

Pensamos sobre o seguinte: contamos histórias sempre separados. Por que não contarmos uma história juntos? Nós, os 5 franqueados atuais, construímos um parágrafo juntos. O preâmbulo de um conto que, cada um de nós, continuaremos sob nossos modos pessoais de escrever. No dia 07, o encerramento e uma surpresa ainda mais especial. Em resumo, criamos uma introdução juntos, e nos próximos dias, a cada dia, um de nós publicará a continuação da história. Começaremos amanhã e convidamos a vocês para acompanharem conosco. Abaixo, a introdução:


Estavam ali mais uma vez, João e Maria, com seus corações ardendo. Apesar de se esforçarem, de se empenharem, de tentar entender, o amor é muito maior que a gente. Achamos que podemos controlá-lo, até que ele aparece de vez e prega a peça. E aqueles corações ardiam. Mas não era de dor ainda. Era de amor. E mesmo sem saber ao certo o que estava por vir, ambos os corações estavam dispostos a entregar-se, a embaraçar-se em uma única batida sincronizada pelo ritmo veemente abrigado naqueles músculos recém apresentados a pureza de tal sentimento.O coração de João, incontido, sentia intermitentemente o de Maria pulsar, querendo mais, pedindo mais e ambos ansiavam por aquela entrega, pois não importava o depois, era o agora que eles pensavam, que eles sentiam e cediam. O olhar dos dois se encontrou, transmitindo muito mais que simples palavras. Os corações bombearam amor pelas artérias e então souberam que seus destinos estavam entrelaçados, não apenas no presente, mas talvez para sempre.


(...)

sábado, 20 de agosto de 2011

Sede de mundo


Debruçou-se na janela com aquela sede de mundo, os olhos movimentavam-se ligeiro acompanhando o movimento lá fora. Tudo era convidativo; tudo sugeria uma dança, mesmo que essa fosse breve. Ela queria, era isso, e mais nada.

A menina de pouca idade e mochila de carga leve, carrega na face os traços inexperientes da vontade de desbravar continentes. E o rosto sonhador pregado no horizonte que acaba de mudar de cor, só faz o outro constatar que o entendimento é pouco, ou quase nenhum.

Ele já tem as rugas presas, e uma bengala torta. Diz que o tempo o arrasta para onde vai dentro de uma sacola. A menina ri, diz que o avô é engraçado, e que um dia quer ser arrastada assim, pelo menos guardada dentro de uma sacola sem furo. Pois ficar para trás é triste – ela constata.

Então já vai, abre a porta sem virar para trás porque nunca gostou de despedidas. A promessa de volta é irregular, ela já avisou, só volta se o mundo permitir. O avô entorta a cara, fala manso, e bate na barriga, avisa sobre as marcas que ela vai tatuar no corpo, e que a porta vai ficar aberta, porque no final o que se quer é voltar pra casa.

Ela ajeita a mochila, fecha a porta devagar, coloca seus dezessete anos no bolso que é para ninguém querer julgá-la.
E para os seus sentidos a rua nunca esteve tão viva, e o asfalto nunca esteve tão quente. Ao parar numa esquina percebe que as coisas às vezes desandam, e que nem tudo é só sonho. Ela chora, alimenta aquele jogado no chão, mas sabe que o alimento não é a solução, ainda é pequena, não entende muito de mundo – foi o que o avô sempre disse. Teve vontade de voltar, ainda mais quando a chuva começou a molhar os seus sonhos, encharcando-os até ficarem pesados demais para planarem. Mas viu que atrás duma nuvem um raiozinho persistente sobressaia-se, era o Sol, ele nunca desistia.

Em passos pesados voltou a andar, tirou os sonhos do chão para não serem pisoteados, os espremeu com vontade, até sentir que eles já estavam prontos outra vez. Teriam de voltar para o lugar onde sempre estiveram, lá no alto, além das nuvens carregadas. Ela observou enquanto eles subiam. Fez um sorriso abrigar o rosto, e a coragem dançar no peito. E depois foi a vez dos passos ritmados, um na frente do outro, sem pressa e sempre em frente.

domingo, 7 de agosto de 2011

A coragem do menino


Ela estava à margem do rio com as pernas balançando dentro d’água. Ele se aproximou sem jeito, sentou-se ao lado e a cumprimentou com um sorriso meio bambo. Ela riu despreocupada, e quis saber o que ele segurava. A pergunta fez o rosto do outro corar e os olhos desencontrarem os dela. Ela tentou tomar o segredo a todo o custo, e ele se afastou dizendo que ela iria saber de todo o jeito, mas que antes deveria o responder primeiro. Ela aceitou a condição de bom grado, sentou-se outra vez e ajeitou o vestido.
E ele a olhou fundo nos olhos com pouca segurança e muita timidez. Pigarreou algumas vezes e a perguntou o que ela tinha feito de mais corajoso até aquele dia. Ela arqueou uma sobrancelha, mas logo fez cara de quem está revirando o passado mentalmente. Seu rosto se iluminou, e então ela disse em seguida que foi quando subiu no telhado para salvar um gato arisco, quase caiu - enfatizou -, o gato e ela. Ele aquiesceu enquanto ela ainda sustentava uma expressão distante e orgulhosa.
Em seguida ela se inquietou querendo saber o que ele tinha feito de mais corajoso também. Ele disse em voz baixa que ainda não o fez, mas que estava prestes a fazer. A menina o encarou confusa, meio perdida nas palavras sem muito sentido do menino. E enfim ele estendeu a mão, deixou que ela visse um papelzinho amassado. Ela o pegou rapidamente, abrindo-o enquanto mantinha os olhos acesos. Ele a observava atento, não queria perder um só de seus movimentos.

Na margem da folha amassada tinha uma caligrafia pueril, meio bamba como o sorriso daquele que agora tinha a mãos escondidas nos bolsos de seu jeans velho. E ela leu em voz baixa:

Não sei como dizer, mas acho que tenho gostado de gostar de você.

Ela o encarou em seguida.  Tinha uma expressão séria, e ele se assustou, nunca tinha visto aquele rosto tão sem sorrisos como naquele instante. Ela se aproximou beijando a bochecha corada do menino, e dizendo em tom doce que por sua parte ela já tem certeza de que tem gostado de gostar dele. Ele a olhou sem jeito, com um sorriso pequeno de lado. Ficou ali sentando enquanto ela dizia que já tinha de ir. Ele acenou, ela sorriu o chamando de bobalhão já ao longe, assumindo que salvar um gato de cima do telhado foi muito bom, mas não tão bom quanto aquilo - a coragem do menino.