sexta-feira, 27 de julho de 2012

O Chamado de Alícia




Entardecia.
   As folhas secas das árvores ao redor estalavam sob meus pés a cada passo. O outono não as poupara: estavam mortas, estendendo-se inertes pelo caminho. A paz da inconsciência que agora conheciam, causava-me inveja, afinal, diferentemente delas, eu vivia em corpo e morrera em alma.
   A morte do corpo culminava em ausência de idéias e percepções. A morte da alma, ao contrário, era a constante tortura daquilo que dói. Em meu caso, a falta de Alícia.
   Ela, tão jovem e bela, morrera por meu próprio descuido. Há sete dias, pretendendo comemorar nosso noivado, saíramos de Paris, nossa cidade natal, rumo à Nice, sul da França. Seus cabelos, negros e lisos, brincavam ao vento, acariciando-lhe a tez branca. Um sorriso de contentamento casava-se divinamente com o par de olhos verdes. Embevecido por tal imagem, distrai-me, não percebendo a caminhonete que vinha em contramão. Alícia, ao vê-la, gritou assustada, advertindo-me.
   Já era tarde!
  Girei rapidamente o volante para a direção contrária, perdendo o controle do veículo e atirando-o em uma colina íngreme. Alícia morreu instantaneamente. Eu, milagrosamente, sofri apenas alguns arranhões.
   Hoje, não suportando mais a dor e perdendo completamente a esperança de felicidade, corri ao bosque próximo de minha casa e segui a primeira trilha que encontrei. Por uma hora ou mais acompanhei as dezenas de curvas do caminho até que, inesperadamente, ele terminou, exibindo, à minha frente, um abismo vigoroso e convidativo, cercado por mares de montanhas.
   Vislumbrar a morte daqueles que amamos, é vislumbrar a personificação de nossos piores dissabores.
   “Como aquilo me ocorrera?” indagava-me inconformado. Fitei o firmamento, e em derradeiro ato de fé, supliquei:
   _ Traga-me Alícia novamente?!
   Não houve resposta. Em desespero, urrei:
  _ Onde está você, amor?
  _ Onde está você, amor? Onde está você, amor? Onde está você, amor?... – contestou-me o eco.
  Ele possuía a voz de Alícia.
  Não! Aquela era a própria Alícia. Procurava-me. Esperava-me.
  _ Acalme-se – repliquei. – Estou chegando!
  Fechei os olhos.
  Caminhei adiante.
  No fundo do abismo, ficaríamos juntos. Recomeçaríamos.

2 comentários:

Deise Lima disse...

Precisei de alguns instantes para me recompor depois do ultimo ponto. A vida muitas vezes pode ser bem cruel. Eu torcia para que o personagem desse um passo para trás lá no abismo e buscasse Alícia nas folhas que renascerão na próxima primavera, mas nem tudo é como a gente quer.
Ainda preciso dizer que gostei muito do conto? São tantas sensações que nem sei descrever.
Abraço,
http://decifrandopordeiselima.blogspot.com.br/

Rafael Alvim disse...

Obrigado pelos elogios e, também, por nos passar seu Blog. Vou lê-lo ;-)

Abraços