terça-feira, 31 de julho de 2012

Mares que lavam males

                                     
"Você me levou perto da loucura
Enquanto você nunca compartilhou uma lágrima
Lembre-se, eu lembro de tudo que você disse
Você me disse que amor era muito plebeu
Disse-me que estava farta de mim"
- Cry me a river (Ella Fitzgerald)

Minha cabeça abaixada termina de ler a carta que me escrevestes e um sorriso de deboche é a primeira reação que tenho ao terminar a leitura. Preciso que entendas que a tua solidão e a tua lamúria não mais me concerne e que as tuas lágrimas, que turvavam as vistas minhas, já não me causam emoção. Hoje a minha voz tem a força e a superioridade dos violoncelos e não mais o lamento agudo dos violinos. Os momentos meus nos quais a tua pessoa estava eram como degustações de pedaços inteiros dos Campos Elísios, em meio a momentos de purgatório, pois purgatório era a vida sem ti. O Pacífico nasceu no dia em que tu me virastes as costas e deixaste para trás a tua aliança. O mais caudaloso dos oceanos nascido das minhas lágrimas salgadas que queimavam os cílios e a pele, deixando para trás apenas as cicatrizes da tua saída. Não me digas que tu estás exausta ou que choras intensamente, pois o que choras é água com sal, e isso há até nas mais vulgares cozinhas. Não me digas que teu mundo inteiro desabou, pois há muito eu vivo das ruínas daquele que era o meu universo, você. E mais do que tudo não me digas que tu me amas, pois se esse teu amor fosse verdadeiro, as minhas lágrimas derramadas seriam de alegria, e não de desespero.

Eu chorei, eu suei, eu sangrei e apenas quando eu parei de sentir tu percebestes que ainda sentes algo por mim. E agora ages como se eu fosse pedir-te para usar-me, pôr seus braços em torno da minha cintura e seus lábios tépidos nos meus. E nesse esplendor cegante de agonia tu ainda me pedes que eu te ame como tu nunca me amaste. Não percebes que isso só poderá terminar em tragédia? Não percebes que o meu coração trincado já não aguenta mais a mais suave brisa? Fostes como a água que tira a minha sede ou a comida que me nutre. Fostes um solo de sax a me arrancar lágrimas. Um céu estrelado a me roubar a atenção. Mas agora não passas da sombra de um amor que putrefez o meu âmago. Um amor que hoje eu tenho orgulho de chamar de findo.

Não vou ceder. Nem muito menos te amar. Afastar-me-ei, de uma vez por todas, do teu ego que me esmaga. Deixar-te-ei apenas com o ar que respiras ou com a água que bebes. Apenas com aquilo que é essencial para a tua existência. Ou melhor, limitar-te-ei a uma vida onde falte o essencial. Apenas para que sabias como levo a minha sem a tua presença morna. Por mais que meu coração arda, por mais que o meu sangue vire lava, o único pedido que tenho é que tu me chores um rio de lágrimas. Pois foi nessas lágrimas que eu me lavei de ti. Mas, querida, se tu fores me abraçar, aquele derradeiro abraço, faça-o lentamente para que eu tenha tempo de enxugar as minhas lágrimas antes que vejas os meus olhos.

2 comentários:

Thuan Carvalho disse...

muito bom.

final espetacular.

=]

Mariana de Paula disse...

Arrepiante. Adorei :)