sábado, 7 de julho de 2012

Loucura ou dom paranormal


Precisava fazer casinhas com as cartas do baralho que trazia de casa para que pudesse conversar. E não fazia isso de qualquer jeito – tinha que ser deitada no chão, de barriga para baixo, apoiada em um cotovelo.
_ Eu vejo sombras como áureas nas pessoas. – Começou a dizer sem tirar os olhos e a atenção das cartas - Algumas são negras, outras vermelhas ou brancas. Não consigo andar nas ruas cheias de gente, e a escola me perturba completamente... As negras me dão medo, elas são o perigo. São sombras agressivas e eu as vejo agindo. Estão sempre querendo capturar, mastigar e engolir as brancas e as vermelhas, como monstros malignos que saem debaixo das camas para atormentar criancinhas, mas muito piores e infinitas vezes mais aterrorizantes, porque essas não são coisas da cabeça.
O psiquiatra que fora chamado na escola a ouvia atentamente e sabia que era isso mesmo que ela contava à mãe, que já lhe informara da história e que achava até hilário a menina dizer que os monstros que via nas sombras não eram surreais como os monstros que as criancinhas viam.
_ Também vejo sombras nas pessoas, mas são de outras cores. – Disse o psiquiatra para instigá-la – As que você vê dizem algo? Possuem nome? O que mais há nelas?
_ Minha mãe me acha louca. Todos acham. Mas vejo que nos entenderemos bem, já que até o senhor que é médico de loucura as vê. – Comentou brevemente e sorriu furtivamente, sem perceber que concordar com um paciente é o que um psiquiatra deve fazer para ajudá-lo – As negras são o ódio, a inveja, a raiva e tudo que há de ruim; As vermelhas andam com pessoas apaixonadas, amorosas; as brancas, com as inocentes, em paz.
O médico sentado numa cadeira de frente com a menina deitada no chão com as cartas espalhadas coçou o queixo, interessado. Talvez aquilo começava a não lhe parecer uma loucura mental.
_ As negras, como bichos famintos tentam de toda forma cair por cima das outras duas. A inveja tenta destruir o amor de alguém. A raiva tenta atormentar a paz do bom e inocente. O ciclo é como um oito que nunca termina suas voltas. Não sei descrever a forma horrível como as negras tentam exterminar tudo que não é seu semelhante, e ficam cada vez mais sedentas. Não é porque eu vejo direto que não posso ter medo, porque eu tenho. E é por isso que eu tampo os ouvidos com força, fecho os olhos agoniadamente e grito, ajoelhada no chão, indo para frente e para trás com o corpo. Não quero ouvi-las, nem vê-las. Eu grito porque tapar os ouvidos não é suficiente para calá-las em minha mente. E me movimento para frente e para trás ajoelhada, porque fico desesperada.
_ E as cartas? Por que nunca anda sem elas?
_ Uno o que amo fazer desde pequena com uma forma de me distrair. As sombras, eu só as ouço quando as vejo. Se eu mantiver os olhos nas cartas e não olhar para elas, elas ainda estarão todas ali, mas sem as ver, não me atormentam. É depois que as vejo que tudo começa. Eu as vi na sala de aula hoje por descuido meu. A professora se assustou demais comigo. Ela deveria era agradecer por não ver o que eu vi.
Curiosa ouvindo por trás da porta e espiando pelo buraco da fechadura estava a professora que tinha medo da menina. Mas agora não sabia o que ter. Não sabia se julgava loucura mental, ou... Um dom paranormal. Porque fossem sombras externas ou almas invisíveis, cada pessoa tem mesmo uma daquelas áureas em si.

3 comentários:

Déborah Simões disse...

Adoro o blog, adoro os textos..
Fazia um tempo que não vinha por aqui!!
Bjok.

Dilly Monnete' disse...

"A incompreensão gera a desconfiança" (Robert Langdon, personagem do livro O Código Da Vinci).
Ao contrário da professora, agradeço por não ver o que ela viu.
Adorei *-*
Voltarei, com certeza!

Angélica Lins disse...

Escrita incrível.
Sou das que prefere ver, sentindo. E aqui eu vi.

Sempre bom passar aqui.
Beijo