quarta-feira, 4 de julho de 2012

Encanto Desfeito Com Tanto Tormento


O céu está cinzento. Puxando mais para o negro, eu diria. Coberto por nuvens tempestuosas em toda a sua extensão. A chuva tinha acabado de começar, me fazendo ter de levantar da grama mal cuidada na qual eu havia me deitado. É belo como o céu determina a beleza do que está aqui na terra. Em um dia ensolarado de céu azul é fácil ver pessoas alegres, cores vibrantes nas matas e o apaixonante mar azulado. Em um crepúsculo, o laranja do sol pinta de dourado as nuvens e o oceano. Já em um dia tão nublado que parece o início da noite como o de hoje, a vegetação perde o seu brilho, o mar fica exaurido de sua cor e ganha uma aparência hostil. Só o que se vê é o cinza. Cinza até onde a minha vista pode alcançar.

E particularmente hoje, a tempestade trouxe o cinza para a minha vida pessoal também. Até um tempo atrás havia o escarlate da paixão em mim, o púrpura da dignidade que eu ainda possuía, o anil da alegria que irradiava e o branco dos sorrisos constantes. Mas isso era quando eu tinha você. Isso era antes de ires embora. Agora que fostes, o reflexo no espelho mostra olheiras e olhos vermelhos e inchados, cabelos bagunçados e sem vida. Uma mulher feia foi o que eu me tornara. Feia por causa da ira de ser trocada que tomava conta de mim. O homem que amo e que passara tanto tempo amando se fora e não havia nada que eu pudesse fazer. Não importava o quanto eu implorasse ou gritasse. O amor que ele sentira por mim fora substituído. Lady Day tocando no iPod e as lágrimas não hesitam em cair sobre nossas fotos. 

Nada um dia irá se comparar à dor que eu senti ao descobrir que ele estava apaixonado por outra. Quer dizer, talvez a dor que eu senti ao vê-lo partir para ficar com ela se compare. As músicas já não são tristes o suficiente e eu já não posso mais. Já não posso mais viver com o pensamento de que eu apenas não fui boa o bastante. Que o tanto que eu me doei apenas não foi o suficiente. E que o tanto que eu o amei apenas não foi tanto amor. Agora eu já não o tenho mais e não tenho pretensão de ter, tampouco. Todas as minhas energias estão agora focadas em me acostumar com a minha vida sem o que fora meu farol.

Mas eu logo percebo que não dá para se acostumar a viver sem alma. Não dá para voltar a viver normalmente quando um pedaço de ti tão significativo foi arrancado. É sem pensar duas vezes que pego a faca mais amolada da cozinha e me corto o pulso direito. A fraqueza vem quase que instantaneamente e eu me deito no chão. Apesar da dor intensa no meu pulso, a sensação é quase boa. Como se eu estivesse varrendo os meus problemas apenas por tirar uma soneca. O cheiro metálico do sangue irrompe as minhas narinas e eu percebo que eu já deveria ter feito isso há muito tempo. Pouparia-me muito sofrimento e muitas lágrimas. Há muito o encanto que eu vivia fora desfeito. E o tormento que me foi trazido usurpou o que havia de bom e vivo em mim. Aos poucos foi-me embora todo o pensamento. Deixando, com efeito, apenas o contentamento. Pois os meus outros sentimentos haviam jorrado do meu pulso como o sangue naquele momento.

2 comentários:

renatocinema disse...

A ideia final eu assino embaixo: "não dá para voltar a viver normalmente quando um pedaço de ti tão significativo foi arrancado". Perfeito

Dilly Monnete' disse...

Apaixonei-me pelo último parágrafo *-* Ao menos ela teve paz, no fim das contas. Uma vida de sofrimento não é vida.
Linda forma de narrar ! Parabéns !