terça-feira, 3 de maio de 2011

Os vizinhos do 310


O calendário mantinha sua corrida desembestada e eu me desesperava com cada cavalgada que os malditos cavalos dos ponteiros davam. Não dormia bem há dias, já não comia direito e pra terminar minha vizinha do 310 continuava a me tirar do foco. Ouvia os gritos da pobrezinha que vinham do apartamento de cima. Às vezes, sentia que algum animal a erguia no alto e a jogava com toda a força contra o chão, o que me fazia crer que ela acabaria quebrando o teto e caindo em cima do meu computador, destruindo todo o trabalho que eu tinha tido no último ano com minha tese.
Diariamente, assiduamente às sete da noite; a vizinha de quarenta e poucos anos começava sua ópera desafinada de choros, palavrões e gritos em resposta às agressões do animal que não conseguira domesticar em vinte anos de casamento. Nessa hora, eu tentava me esgueirar na minha sacada, olhando pra cima, caçando algum punho no ar, alguma cabeça rolando ou até o corpo da coitada sendo lançada sobre o asfalto quente do fim da tarde. Mas meus vizinhos tinham instalado uma grade trançada em largos vãos que impediam qualquer ser com mais de dez centímetros se lançar lá de cima.
O máximo que eu conseguia ver era a grade sendo estufada, como se estivesse pronta para explodir enquanto o marido da vizinha segurava firme o pescoço dela e a erguia, comprimindo-a contra a grade, arrastando por alguns minutos os gritos contidos.
Minhas apostas eram que eu sempre estava ouvindo a  última surra. Me incomodavam os palavrões criativos que eram ditos na harmonia da briga. Cortavam meu raciocínio, me faziam perder as páginas que eu usava como bibliografias. Eu misturava o nome dos autores que eu usava como referências até que um dia eu percebi que o casal brigava a mais de um dia seguido, com pausas leves de somente choro e quebra de móveis.
Eu estava praticamente terminando a tese. Faltavam apenas alguns parágrafos. Mas já estavam gritando tanto que não resisti entrar no elevador e subir até o apartamento 310. Bati à porta e ouvi o homem mandá-la parar de chorar. Soltou um palavrão enquanto girava a maçaneta para abrir a porta, reclamando da hora.
“Estou tentando estudar. Podem brigar enquanto eu estiver fora?”
Acho que foi a primeira vez que vi a mulher. Estava como um pano de fundo pregado ao fundo da fresta da porta que o desgraçado tinha aberto. O filho da mãe bateu a porta e voltei pro meu apartamento. Sei que ele a mandou ir pra sacada, obrigou-a a se sentar no chão, no cantinho. Sutilmente me coloquei abaixo da sacada dos meus vizinhos de cima e comecei a ouvir os chutes violentos que o desgraçado dava na pobre mulher. Pude senti-la colocando a cabeça entre os joelhos, tentando privar o pouco de sanidade que lhe restara dentro de sua mente.
Olhei para o telefone pela porta transparente da sacada. Pensei em ligar pra polícia. Mas eu teria perda de tempo a fazer o boletim de ocorrência, servir de testemunha, quem sabe até dar depoimento. Eu não tinha tempo pra isso e tão violento estava o aproximar da data de entrega da minha tese quanto a surra que a mulher levava lá em cima. Entrei para dentro, fechei a porta para abafar o choro e me sentei à mesa cheia de livros espalhados. Adormeci.
Quase sete da manhã, a vizinha bateu à minha porta.
“Me desculpe por ontem”.
Somente assenti. Notei o rosto machucado, as canelas e os braços cheios de hematomas. Uma pena extrema se despertou em mim e, então, olhei para baixo fixamente esperando que ela se despedisse.
Na hora do almoço, minha tese tinha progredido. Faltava o último parágrafo da conclusão. Fui pra sacada descansar a mente um pouco, olhar a paisagem fatigada da vizinhança quando ouvi um grito que era dado fora de hora. O homem reclamava da comida.
Eu nunca fazia almoço, só comprava comida. Se eu soubesse que o filho da mãe ia jogar o prato dele cheio de comida além das grades, tinha me preparado. Teria aberto a boca pra cima esperando um pouco de comida caseira cair na minha boca. Mas eu já a tinha perdido pro asfalto lá embaixo.
E a briga se estendeu. O último parágrafo da minha tese travou. Fiquei tão irado pelo calor, pela briga que fui até a sacada e gritei mandando eles pararem. O desgraçado me xingou de alguma coisa, mas achei ter ouvido a mulher pedindo minha ajuda. Olhei para o telefone.
“Vou chamar a polícia”. Entre para dentro e olhei minhas coisas espalhadas. Me senti um idiota pelo pensamento anterior. “Tenho que cuidar das minhas coisas! Eu ainda tenho uma última coisa pra fazer. Termino minha conclusão e depois, só depois, ligo para a polícia”.
Voltei para a sacada, gritei um palavrão como resposta. Voltei para dentro, fechei a porta, liguei o som. A data de entrega da minha tese está próxima demais pra eu me preocupar com a minha péssima vizinhança.


#Pauta para Bloinquês.

Um comentário:

damiaoaraujo disse...

esse conto realmente retrata uma realidade dura, escondida, em que as mulheres sofrem a violência diária e, por tantos motivos - e o medo- nao denunciam, ou tentam, em vão...merecestes o primeiro lugar com louvores e justiça, que eu nao consegui parar de ler! ganhei o 2º gular com AMOR FATAL: http://damiaoaraujo.blogspot.com/2011/05/amor-fatal.html