quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O distribuidor de sorrisos

Eu estava quase dormindo no banco do ônibus quando senti que ele fez uma parada na estrada e duas pessoas entraram. Estava escuro lá fora, era de noite e o céu ameaçava mandar chuva. Relampejava.
Quando a porta que dava aos bancos do ônibus se abriu, vi que era um homem não muito novo, nem muito velho. Tinha expressões de cansaço no rosto, mas estava alegre. Ele usava uma roupa muito simples. Aparentemente, era de família bem humilde. Enquanto ele andava até alguma poltrona, vi que ele trazia consigo uma garotinha. Ela andava na frente dele e ele a guiava, segurando sua mãozinha. O homem era bem magro. Mas a garotinha era forte. Pequenina e forte. Tinha o cabelo na altura dos ombros. Este era castanho escuro e lisinho.

Ele andava pelo corredor estreito do ônibus, com a menina na frente. Olhava para ela e transferia o olhar para os outros passageiros já sentados, sorrindo. Ah, ele sorriu pra mim também. Vi a garotinha, tão humilde e alegrinha sendo guiada por uma mão do pai.
A cena era comovente. Pessoas pobres, humildes adentrando um ônibus. Fazia frio, o tempo estava feio lá fora e eles estavam na beira da estrada antes do ônibus parar. Estavam com roupas de verão, apesar do clima. E não eram roupas lá muito boas. Mas eles sorriam. Para todos. O homem olhava da filha para os passageiros. Queria ele dizer que amava a filha? Que se orgulhava dela, ou algo do tipo? O que significava aqueles olhares e os sorrisos?
Devolvi o sorriso juntamente com um olhar contente quando ele olhou para a menina e olhou para meu rosto sorrindo. Eles foram andando devagar e se sentaram no fundo do ônibus. Olhei discretamente para trás e ele estava com ela no colo, afagando o cabelinho dela.
- Olha papai, dá pra ver tanta coisa daqui. – Disse ela, olhando pela janela.
Era incrível o sorriso que se estampava no rosto dele quando ele a olhava e a ouvia dizendo algo.
- Está gostando, filha?
- Muito! É tão diferente de andar a pé. Às vezes você me carrega no colo, mas ah... Dá pra ver muito mais coisas daqui do ônibus.
O pai riu.
- É que o ônibus é mais alto que o papai. Muito mais alto.
- Ah, mas gosto de colinho.
- Não está gostando de andar de ônibus?
- To sim. Nunca enxerguei nada assim antes. – Falou, maravilhada com a paisagem lá fora, apesar da escuridão e dos clarões que se abriam no céu.

Passou uns cinco minutos, e o ônibus parou novamente. Ele se levantou com a filha, e caminhava, olhando adiante, sempre sorrindo. A garotinha, maravilhada. Ele viu que eu observava atentamente, e falou direcionando-se a mim:
- É o presente de aniversário dela essa voltinha. – As palavras saíram de sua boca, que se esticava num sorriso. – Ela me pediu pra entrar no ônibus para ver como era andar nele.
Eu olhava para ele e depois para a menina. Não sabia o que sentir.
A porta se abriu e eles saíram. Como levou uns dois minutos para o ônibus voltar a seguir seu trajeto, acredito que o homem estava agradecendo o motorista. Então os avistei sair do ônibus, e se colocarem a caminhar. Andavam na direção oposta ao que o ônibus ia. Estavam voltando para trás.
O tempo estava horripilante, trovejava e começava a chover. O pai dava pulinhos junto com a filha enquanto corriam. Segurava a mãozinha dela como quando entrou no ônibus. Sorriam, parecendo nem perceber que chovia, trovejava e relampejava. Pareciam não sentir frio também.
Borrei minha maquiagem. Meu rímel e meu lápis de olho escorreram por minha face junto com minhas lágrimas. Os perdi de vista logo. O ônibus andava devagar devido a chuva, mas seguia seu caminho.
Aquela foi a primeira e única vez na minha vida que vi um dia ensolarado lindo em meio a uma noite de tempo horrível de chuva e frio.
Dinheiro não tem nada a ver mesmo com felicidade quando sabemos como nos divertir. Mesmo que por pouco tempo.
Passaram poucos minutos dentro do ônibus. Mas tenho certeza que serão sempre um longo momento de alegria na vida dos dois. Afinal, cada um se diverte como pode. Aquela foi a maneira deles.
Nunca vi tanta simplicidade antes. Nada dói e emociona mais do que um sorriso no rosto de humildes. Porque muitas vezes temos tudo, mas não somos capazes de sorrir. Por isso que sorrisos sinceros como aquele doem, ensinam e emociona quem vê.
Toda aquela felicidade, aquele orgulho de estar dando um presente para a filha, mesmo que rápido... A transferência de olhares...
Eu voltava naqueles rápidos momentos, me comovia, chorando e ao mesmo tempo sorrindo. Assim como os dois, jamais vou me esquecer daquele momento. Do pai humilde que distribuía sorrisos para as pessoas no ônibus porque estava dando um presente de aniversário à filha.
Por fim passei os dedos em minhas lágrimas. Me virei de lado na poltrona, olhei pela última vez para a paisagem lá fora e fechei os olhos para dormir um pouco. Sorri. E acredito que não fui a única a fazer isso no ônibus naquela noite.

5 comentários:

Rodolpho Padovani disse...

É, quem disse que dinheiro é tudo? Muito bom e uma lição para quem não sorri com tudo o que tem e fica sempre reclamando da vida.

Por que você faz poema? disse...

O ônibus que invade a noite guarda histórias.

renatocinema disse...

depois de uma imagem tão linda quanto essa.....só lerei o texto a noite. em casa.

Ótima foto.

renatocinema disse...

A vida são momentos..nada mais. Seja um sorriso espontâneo, um beijo, um abraço ou um andar de ônibus carinhoso.

Da vida só levamos as boas sensações....eu penso assim.

Belo texto, bela mensagem e bela imagem.

BlackRabbit disse...

que texto heim!!!
não sei nem o que dizer...
perfeito...
sou teu fã moça!!!
e adoro banho de chuva...
se eu pudesse, tomaria banho de chuva sempre que chovesse...
*-*
=***
se cuida...