sábado, 18 de dezembro de 2010

Tenho flores para você




















Diz-se que eles se conheceram assim, num parque qualquer. Luíza sempre teve ses longos cabelos castanhos desde moça, e Flávio sempre fora educado. Ela rica, ele pobre; um pequeno empecilho já no início dessa história. Flávio era jardineiro, muito bom jardineiro, cuidava de todas as plantas do parque onde todas as manhas Luíza passeava. Sempre se viam, nunca se falavam. Foi necessária uma queda num péssimo dia, para eles, pela primeira, conversarem.
- Não é costumeiro que moças já na sua idade venham a cair. - ajudando-a a levantar-se.
- Não é costumeiro que eu dê satisfações ou não quando caiu. - disse Luíza ríspida e envergonhada
- Mas se eu trouxer-lhe uma flor, você promete não mais ficar irritada.
- Provavelmente não, mas tente. Ninguém sabe.
Então com seu macacão verde e sujo, Flávio correu por entre folhagens, e pouco empo depois, ressurge com um enorme crisântemo laranja nas mãos.
- Trouxe para você, espero que ao caminhar, não olhe muito para ele, ou poderá distrair-se e cair novamente.
- Você é muito debochado! Pensei que foste pegar a flor para me descontrair, e não me irritar mais ainda.
- Mas porque estais irritada, moça? Até agora não entendi.
- Tive problemas em casa, os quais não lhe interessam. E ainda tomo uma belíssima queda em um parque cheio de gente.
- Ah! Nesse caso vou continuar-lhe insultando.
- E por que você faria isso?
- Porque eu sempre te observo, e vejo que hoje, irritada você fica mais bonita.
E ela sorriu involuntariamente.
- Muito obrigada pela flor. Mas se me permitir, preciso voltar para casa.
- Só permito som uma condição - falou Flávio prontamente.
- Muito abuso de sua parte exigir-me qualquer coisa. O que é?
- Que todas as vezes que eu te ver aqui, eu possa te trazer outra.
- Como quiser.
E então, ela saiu.
Como todos os dias Luíza, e como fora prometido, Flávio sempre trazia-lhe flores puxando assunto sempre que podia. Dias foram passando, semanas foram passando, e entre tamanha gentileza, havia uma amizade pontual. Todos os dias havia sorrisos e flores. Mas, porém, entretanto e toda via, belas histórias às vezes terminam supreendentemente. Tudo desandou, quando finalmente, Flávio tocou, mesmo que de leve, no amor.
- A senhorita tem namorado?
- Não. Tenho um noivo.
- Um noivo? Não entendo. Porque todos os dias caminha por aqui sozinha?
- Ele é bastante indisposto pela manhã. Então, prefiro sair sozinha a ficar em casa.
- Entendo, ele deve ser um homem bastante feliz.
- Não sei se é, acontece que é um casamento arranjado.
- Para quando?
- Daqui a dois dias.
Flávio gelou. Pois sabia que sua condição social nada lhe permitia.
- Quando você casar, ainda poderei continuar dando-lhe flores?
- Não acho uma boa ideia. Estarei casada, e esse comportamento seria, no mínimo, inadequado.
- Então permita-me fazer seu buquê, senhorita. Poderei?
- Só se utilizar das melhores flores que possuir. - Ela sorriu.
- Farei com todo o meu amor. - Os dois se olharam sérios.
- Muito obrigada. - Apressada, ela saiu.
No dia do casamento, na soleira da porta de Luíza estava, um maravilhoso buquê de lírios, jasmins, copos-de-leite e orquídeas brancas. Ela o usou no casamento, em respeito ao cordial rapaz, que sempre fazia-lhe companhia no parque. Embora, para ela, não passasse disso. E por esse motivo, somente por esse motivo, deixou de ir ao parque. Mas todos os dias encontrava uma flor na sua porta.
Dias foram passando, semanas foram passando. Meses e anos, e as flores nunca desistiram de estarem à sua porta. Numa noite qualquer ela deixou um bilhete na soleira, perguntando o porquê de ainda após anos, encontrar flores ali. No dia seguinte ela encontrou a resposta.

Eu sei como suas manhãs são tristes. 
Então se eu não posso fazer-lhe companhia, espero que minhas flores o façam.


6 comentários:

Lua Nova disse...

Um conto de amor, mas de um amor triste...
Pena que condições completamente alheias ao amor selem o seu destino... que pena que as pessoas ainda valem pelo que têm e não pelo que são... será que algum dia será diferente? Pura utopia...
Beijokas, moço, e um bom domingo.

renatocinema disse...

Adorei. Sou fã de Nelson Rodrigues.

Como foi dito no comentário acima: um conto de amor, mas de um amor triste.......

Rome e Julieta foram felizes para sempre?

Em Love Story tivemos final feliz?

kkk.

A arte é feita para sentirmos dor.........as vezes.

Adorei.

Jéssica Trabuco disse...

Que cara fofo!
Muito lindo o texto viu, mesmo não tendo o final normal de contos de amores.
Acho que estes ensinam ainda mais.

Rodolpho Padovani disse...

Lindo demais e o final me arrancou um sorriso.
Um amor diferente, não recíproco, mas que nem por isso deixou de ser belo.
Muito bom.

Luana disse...

Liiiiiiiindo *-*
Eu me apaixono por personagens as vezes...

Letícia R. disse...

Ai que liiindo. *-*
Me tirou sorrisos e me emocionou.
Como a Luana, parece que acabei de me apaixonar por um personagem.
Amo esses textos de amor triste. Incrível como eles sempre são os melhores.