sexta-feira, 3 de maio de 2013

Despedida



Ninguém entendia porque ele era o único ali que rejeitava a companhia de uma cortesã. Meio estranho ir a um salão de festas não convencional e não aproveitar do melhor produto. Ele apenas pedia a companhia de uma cerveja, que nos últimos dias havia se tornado, também, sua melhor amiga. Não era tão normal, mas o deixaram entrar com um cachorro dentro do salão e o cachorro ficava ali, ao lado dele, olhando na mesma direção, o palco.
No palco dançava a estrela da noite: madame Catrina. Linda mulher de cabelos pretos enormes, corpo estonteante. E em trajes tão curtos e bem delineados ao seu corpo sua áurea de bailarina se tornava esplendorosíssima. Mesmo ela tendo aprendido a tão pouco tempo a arte dança. Movimentos sensuais, olhares provocantes para o público, uma meia luz que deixava o ambiente ainda mais hipnotizante... e ele ali, a olhando como quem olha seu tesouro. Seu cão quieto e estático. Se alguém conseguisse visualizar bem a cena perceberia que seus olhares pareciam iguais, como se fossem dois em um, a mesma pessoa, ou mesmo cão; é bem possível que seus sentimentos fossem iguais também, bem possível que dentro de seus corações estivessem batendo as mesmas sensações. Ele pediu a conta, pouco depois de recusar mais uma cortesã que se oferecera pra ele, como se ele fosse alguém de quem a vida dela dependesse. Antes de o garçom que o serviu a noite inteira chegar com a conta ele sentiu um pesar enorme, junto com a tristeza de tomar consciência do que ela havia se tornado. Dançando ali para outros homens ela parecia, enfim, estar feliz. Sim, aquela era de fato sua esposa, ele precisava ver por ele mesmo. Não gostava de dar atenções a boatos. Ele ainda a considerava esposa... ela já havia saído de casa a meses por reclamar da desatenção dele. Sabia que aquilo era uma desculpa dela. Já sabia que acabou naturalmente o casamento deles, pois o amor permanecia. Ao menos o dele por ela. 
E ali, vendo aquele show, a vendo tão linda e feliz, ele percebeu que qualquer sentimento que ela tivesse por ele já não existia mais. Pagou a conta assim que o garçom chegou com o bloquinho de notas. Ele sabia muito bem que já havia pagado suas contas. As que tinha consigo mesmo. Deixou um valor a mais para o garçom sorrir um pouco, pois ele mesmo já não tinha vontade disso. Aliás, sabia que aquilo era muito para aquele garçom que o serviu tão mal. Se levantou e o cão o acompanhou, ele também sentia falta de sua dona, mas talvez tenha sabido lidar melhor com a situação de se separar de alguém que se ama. Perto da porta olhou para o palco mais uma vez. Seus olhares se cruzaram e ele notou que não guardava mágoa daquela mulher, não poderia, ela não havia feito nada contra ele. Sabia que naquele olhar não havia marca nenhuma de amor. E aceitou aquilo. Sabia que aquele olhar era o último. Quando percebeu que a atenção de outros homens haviam se voltado a ele, se virou, foi embora. Ela olhou rapidamente para o cachorro que, além de um olhar, ganhou, também, um sorriso. Voltou a dançar normalmente e por um segundo pensou que aquilo poderia ser uma distração qualquer, que talvez não fosse ele, que tinha se confundido. Ele seguiu andando, com um último olhar de consolo no coração.

2 comentários:

C@urosa disse...

Um belo conto meu caro Fernando, gostei!

forte abraço

c@urosa

Dilly Monnete disse...

A vida continua.