sábado, 6 de agosto de 2011

Ainda que invisível


Era aquele dia especial de comemorar a união amorosa entre casais. O qual chamavam de dia dos namorados e, trocavam presentes um com o outro, como uma celebração. Dia de passar o tempo todo ao lado daquela pessoa. E com Henrique não poderia ser diferente. Mas...
Ele acordou cedo. Esfregou as costas das mãos nos olhos para desembaçar a vista. Olhou para o lado e viu os ponteiros do pequeno relógio que havia no criado mudo marcando oito horas da manhã. Descobriu-se. Não era inverno ainda, mas o vento do outono já estava mais fresco, como a preparar todo o ambiente para o frio que viria no final do mês que vem. Então era normal dormir coberto.
Sentia-se cheio de amor. A quantidade era tão grande, – se é que amor pode ser contável – que ele poderia passar o resto da vida com sua garota, e ainda sim haveria sentimento de sobra para mais uma vida toda. Mais uma vida toda para amá-la. Todos os dias, a semana toda, um ano inteiro e quantos mais anos a vida permitisse.
Lavou o rosto e vestiu-se. Pegou uma foto dele com sua namorada, que estava sobre a escrivaninha de seu quarto, e saiu de casa sem ao menos comer algo. Precisava encontrar Raquel. Ah, tinha tanto amor para dar a ela!
Andando pela rua, a cada passo, seu coração martelava mais forte. Batia intensamente. Contudo, descompassado. Parecia bombear algo mais, além de sangue, pelo seu corpo. Ele a amava. E essa era a força que mantinha seu coração pulsante. Mas existia uma inquietação. Era como se tivesse um pano preso verticalmente no estômago, que ia se torcendo, torcendo, até cansar de se torcer e dar um nó na garganta. Isso o deixava com a respiração funda e pesada.
Chegou então onde estava Raquel. Olhou para os portões abertos do cemitério. E adentrou. Quando chegou em sua garota, deixou cair-se de joelhos na grama, logo sentou-se, afundando um dos cotovelos na perna, enquanto a outra mão segurava a foto dos dois. Encostou a testa na lápide que havia no local onde jazia o corpo de Raquel, colocando a mão livre com o punho cerrado ao lado da face. Aquela sensação ruim que ele estava tendo enquanto caminhava parecia ainda maior agora. Chamava-se vazio.
Henrique estava pleno de amor sim. Mas faltava algo. E ali sentado diante da lápide, observava nostalgicamente a foto que haviam tirado exatamente há um ano, no último dia dos namorados que passaram juntos. Faltava ela ao seu lado para que pudesse se sentir completo definitivamente. Queria poder abraçá-la, tocá-la, beijá-la e dizer que a amava tanto, que nem saberia fazer uma média do quanto. Mas ela vivia apenas dentro dele. Nas memórias dos momentos que não se apagaram e naquele coração que batia forte e sem rumo.
Sentiu uma pequena gota fazer-lhe uma leve cócega na face, enquanto esta escorria em direção ao queixo. É... Havia mesmo amor de sobra para amá-la por mais uma vida toda. Mas nem uma eternidade seria suficiente para matar tanta saudade.
Vinha-lhe na mente cenas em que ela sorria para ele. Ah, como ele adorava aquele sorriso. E até mesmo os bicos que ela fazia quando resolvia fazer charminhos, fossem por ciúmes ou por algo que ela ouviu e não gostou.
Mais gotas saíram de seus olhos. Mas de repente, um arrepio o fez sair de seu devaneio e, naquele instante, até o vazio o deixou livre. Era Raquel atrás dele, lhe fazendo companhia. Ela o tocava e ele nem sabia. Porém desconfiava de uma presença invisível ali. Estava em paz.
Sentiu uma brisa bater em uma de suas orelhas. Era Raquel que estava dizendo em seu ouvido que o amava.
- Eu não sei se está por aqui, meu anjo. Mas saiba que sinto sua falta a cada hora do meu dia, que já não é mais o mesmo desde que você partiu. O que me salva são esses instantes em que sinto uma paz e um silêncio encantador dentro de mim. Dói não ter você, mas eu sei que de alguma forma eu ainda a tenho. De onde estiver, meu amor, saiba que eu te amo. E saiba também que eu sou o cara mais feliz do mundo porque a melhor namorada que eu podia encontrar nele, despencou na minha vida. Feliz dia dos namorados.
- Henrique, meu amor. Me dói vê-lo da maneira como estava um tempo antes de eu chegar. Não sabe que alívio sinto quando minha presença cala seu vazio. Você sempre me terá. E eu estou aqui te dando forças para continuar sempre. Saiba que não importa onde eu esteja, estarei te amando. Eu sou a namorada mais feliz do mundo, porque o namorado mais incrível de todos, fez dos meus momentos na terra, os melhores que eu poderia passar em uma vida. Deixe-me dizer que você era meu tudo. Mas agora fique ciente que é mais do que isso, MINHA VIDA! – literalmente. – Feliz dia dos namorados. – Ela falou sem que ele nada ouvisse.
E nem precisava. Porque palavras assim às vezes são coisas inexplicáveis, tipo o vazio que sentimos por falta de algo às vezes. Não precisamos dizer para sabermos que estamos sentindo. E na maioria das vezes, também nem precisamos ouvir para entender o que está sendo sentido pelas pessoas. Porque a percepção e a sensibilidade se encarregam de fazer seus trabalhos perfeitamente bem.
Assim que ela acabou de falar, Henrique esboçou um sorriso que transformava suas lágrimas tristes em lágrimas de conforto e alegria. Não a via, não a ouvia. Mas sabia que ela estava perto. E podia sentir o amor que vinha dela. Porque ela ainda existia nele. E sempre reconhecemos de alguma maneira o que é de certa forma... Da gente.

Um comentário:

Lua Nova disse...

Bonito... mas tão triste. Não há nada mais triste do que a saudade que corrói o coração e a alegria. Inda mais uma saudade que sabemos, jamais terá solução. O amor precisa de presença, de olhar e de toque. O amor precisa de amor.
Bem, seu texto foi bem escrito pois me colocou dentro da cena, participando dos sentimentos descritos.
Parabéns.
Beijokas.