terça-feira, 17 de maio de 2011

A mentira das pedras

Maria Aurora tinha espalhado cartazes nos postes, paredes e nas línguas das mulheres da cidade. Uma amiga veio dizer que a tal o ajudaria a entender. Entender o que ele ainda não sabia, mas não teimou em ir. Se valesse uma noite de sono, atenderia ao pedido sincero da colega.

Fugiu do trabalho depois do almoço e se deitou no sofá pra dar um cochilo. Maria Aurora o atenderia às quatro da tarde. Em vão permaneceu suando de olhos fechados. Ficou um pouco irritado, correu pro chuveiro e decidiu pegar as chaves do carro. Disseram-lhe que a mulher era muito requisitada por pessoas de toda a região. Se ele conseguira uma hora com ela, ele deveria visitá-la e não se atrasar, pois uma hora com Maria Aurora era uma hora de libertação e compreensão da vida.

Não era fã das filosofias populares, das mulheres cheias de drama. Essas deviam concorrer por vagas em teatros e televisão - talvez até novela de rádio - mas não tentar bancar a sabichona das conspirações do universo.

Entrou descrente na casa onde Maria Aurora atendia seus fregueses. Pensara uma coisa, mas se enganou, não era coisa de mulher. Tinha muito macho lá. Não perguntou nada a respeito do que faziam ali, mas dois começaram a conversar e expuseram a própria situação. Um falou que estava ali pelos negócios, o outro porque a namorada morrera e queria um contato espiritual. E se sentiu um idiota por estar ali. Ele não ligava pro futuro, não ligava pra essas mulheres que vão e vêm; só ligava pro próprio sono. Então, por que diabos ele não procurara um médico pra isso?

Uma assistente de Maria Aurora convidou-o a entrar. Havia pedras dessas que se acham na rua sobre a mesa de trabalho da velha - sim, Aurora era uma mulher velha e não uma quarentona que tentara ser perua e fracassara. O esperava sentada numa velha cadeira de plástico trançado e o olhou tão profundamente que fez com que o rapaz se sentisse nu. Permaneceu em silêncio e ela iniciou.

"Fale-me sobre seus sonhos, garotinho". Seus olhos se arregalaram. Como aquele demônio enrugado sabia sobre seus sonhos? Acreditou ter sido tiro de sorte e cogitou até mesmo que a colega contara à velha sobre as coisas pelas quais tinha passado.

"Tenho um sonho", e acomodou-se melhor na cadeira. "Desses que nos faz pular da cama, que faz com que sintamos uma gota gelada correr pelas costas quentes. Há um garoto sentado. Ele está brincando com um baralho de cartas e um senhor já de idade está sentado num poltrona o observando."

Maria Aurora sacudiu a cabeça e jogou as pedrinhas sobre a mesa.

"Não quer falar sobre os relógios?"

O rapaz expressou terror e engasgou. "Relógios?", perguntou tímido. A mulher nada respondeu. Abaixou a cabeça, pigarreou e terminou: "Há relógios sim. Muitos deles sobre as paredes de madeira. Cuckoos eu acho."

A velha franziu a testa, bateu as palmas das mãos sobre a mesa. O rapaz se manteve de cabeça baixa.

"Olha", começou, "acredito que você queira entender isso. Há uma lógica. Hoje, por exemplo, progredimos muito em pouco tempo; digo o que acho. Você entende e se vai e ponto. Se precisar vemos uma consulta. Mas isso você vê com a assistente", em um tom de voz até ensurdecedor. "Procure a Suzana, Suzana cuidará de você."

Balançou a cabeça, olhou para baixo e não ousou erguer-se por mais de dez segundos.

"E sobre meu sonho?"

Maria Aurora ergueu a cabeça em ar de superioridade e bradou feliz:

"Você é o menino e o velho. Você nasceu e você morrerá. Não que isso seja novidade, não é mesmo?", falou tentando brincar para descontrair. O rapaz não respondeu com um sorriso. "Enfim", voltou ela séria ao exercício de seu trabalho, "você chegará à terceira idade. Terá uma vida longa e no trajeto dela se lembrará da sua infância. As coisas que você fazia serão o guia do que deve ser feito agora e...", a velha olhou o relógio e viu que não dava mais tempo. Marcara uma consulta meia hora antes do que devia. Avisou o rapaz, mas este nem se importou. Lembrara-se do que fazia quando era criança e tinha medo do escuro. De quando não conseguia dormir.

"Dê o dinheiro à Suzana", falou Maria Aurora praticamente o expulsando do consultório. Saiu procurando pela moça que o puxou pelo braço. O fez assinar um termo de responsabilidade, a pegar o dinheiro, cobrou uma taxa pelo café que nem bebera - mas que Suzana deixou claro que se quisesse o tinha disponível - e tentou dar adeus. A moça o pegou pelo braço e falou:

"Moço, cuidado na rua. Sua próxima consulta está marcada. Mas sinto que você não vai vir. Talvez não precise mais, não é mesmo? Mas nunca se esqueça de madame Maria Aurora."

Sentiu uma paz dentro do peito e manifestou a vontade de ter com a mulher de novo, só pra explorar mais a vida. Tentou se lembrar de mais coisas que fazia quando criança. Pulou uma amarelinha imaginária na calçada, fez de conta que trazia um carrinho em suas mãos e brincou no paralelepípedo.

Desequilibrou-se e caiu no asfalto. Quando tentou levantar-se, um carro se chocou contra ele, o fazendo voar praticamente de volta pro passeio de Maria Aurora. O motorista acelerou e fugiu. O rapaz ficou olhando pro alto, pro alto, esperando que alguma mãe o viesse socorrer. Era o que teria feito como criança.

Por fim, desequilibrou-se no paralelepípedo e nunca, nunca, mais voltou a viver. Nem mesmo pra conhecer sua terceira idade ou contar ponteiros dos relógios que anunciavam não haver mais tempo.

3 comentários:

renatocinema disse...

Trágico.......como Nelson Rodrigues.

Any disse...

nossa, ficou muito bom, parabéns

damiaoaraujo disse...

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