domingo, 19 de setembro de 2010

Pijama verde




















- Você sabe que eu morrerei, sim?
- Não espero isso, senhor.
- Mas há um distanciamento brutal entre saber e esperar. O segundo verbo é só questão de tempo, e você sabe que eu morrerei, sim?
- Senhor, não sei o que responder.
- Sabe?
- Sabe, porra!?
- Sim, senhor.
- Justamente. Você passou esses 6.. 7 ou 6 anos, não sei bem, cuidando de minha pessoa. Conhece-me o suficiente e o obviamente para saber isso.
- Sim, senhor.
- Eu nunca pedi nada a ti além do que me é basicamente necessário. Por favor, escuta-me essa noite?
- Mas é claro, senhor.
- Pra começar hoje esqueça-se de ser meu enfermeiro e passe a ser meu amigo. Chame-me somente de  Inácio. Posso começar, Daniel?
- Por favor, coronel Inácio. Desculpe, digo Inácio.
- Os jovens de hoje parecem não prestar atenção no que falamos. Tem quantos anos?
- 26.
- Limpa minha merda desde os 19. Que interessante, mas o assunto não é esse. Antes de morrer, você sabe, 89 anos torna-se difícil para um velho carregar, queria contar a alguém como foi minha vida. Como te pago por isso,  sinto-me agradecido por você estar escutando.
- Disponha, coronel Inácio.
- Inácio.
- Inácio.
- Minha vida foi uma merda. Não construí nada. Nada mesmo. Tenho 3 ou 4 velhos cagões como eu, nos tempos atuais. Esta casa que caminha para uma hipoteca que não hei de poder pagar e uma mulher que me deixou sem antes de ter um filho. Fui o ilustre Coronel Inácio Matarapi. Não havia que andasse por essas bandas e não pedia- me licença. Hoje nem o filho da prostituta da casa 17 respeita-me. Ninguém lembra quem fui.
- O senhor é o ilustre coronel Inácio Matarapi.
- Boa observação, não morri ainda, não é? Entretanto, quero que escute-me, não que fale.
- Desculpe-me.
- Depois que ela foi embora, vendi as terras todas, guardei fortuna, construí esta casa. Papai ensinou que poderia transar com a mulher que fosse, mas casar-me e amar apenas uma. A que escolhi foi embora
- Isso é triste.
- Não, isso não é triste. Triste foi meu o jogo. Triste foi a minha bebida. Triste é que ninguém mais será Matarapi, não tive filho e não tenho mais parentes. Nem sei pra onde minha mulher foi. Triste é passar todos os dias numa cadeira que vai para frente e para trás, vendo televisão. Muito triste. Mas enfim.
- Posso fazer alguma coisa por você, Inácio?
- Não, obrigado. Aliás, muito obrigado por esses anos de sua vida. Obrigado, filho, somente isso. Agora vista-me naquele pijama velho de seda verde. Quero lembrar-me da sensação de como tudo era nos tempos bons. Cansei de conversar.

Daniel fez exatamente como pedido.

- Obrigado, Daniel. Boa noite.
- Precisando, chame-me, coronel Inácio.
- Inácio.
- Inácio.

Daniel sorriu, apagou a luz e saiu do quarto. Coronel Inácio nunca mais o chamou, morreu naquela noite mesmo, como mais um velho qualquer em uma cidade pequena qualquer de interior. Uma cidade tão pequena em que até os sonhos são pequenos.

6 comentários:

Jυℓyαnα ツ disse...

Não importa o tamanho do sonho e sim o significado que ele tem para quem o sonha...




;*

Nini C . disse...

Cristiano, amei. Fiquei presa no teu conto do início ao fim. Com certeza o melhor que já lí essa semana, não, esse mês. Teve uma hora que pensei estar lendo um dos livros do Jostein Gaarder. Muito bom mesmo.

BlackRabbit disse...

a melhor frase q eu achei foi "Papai ensinou que poderia transar com a mulher que fosse, mas casar-me e amar apenas uma."...

texto muito bom...
e concordo com oq a julyana disse...
\o

Rodolpho Padovani disse...

É, são poucos os que passam por essa vida e realmente deixam um legado digno ou sequer uma história para contar, são tantos sonhos perdidos, sejam eles pequenos ou grandes.
Pude ver a lição que seu texto mostrou, tá de parabéns...

Natália disse...

Adorei, parabéns :D beijo

Nina disse...

Nossa! Que lindo o texto. Vc leva jeito pra essas coisa. Parabéns! Fiquei com um pouco depena do coronel Inácio...

Beijos

Nina