sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A conveniência e a cegueira
















Era uma menina como todas as outras. Cabelos escovados, calça skinny e músicas do Paramore no celular. Acostumada a jogar os cabelos para o lado direito antes de pedir qualquer coisa, e a colocar a mão na cintura e apontar com a outra mão quando queria brigar. Filha de pais separados, uma cama forrada com lençol rosa e uma boneca esquecida na prateleira. Sim, e também tinha alguns sonhos tão comuns quanto o all star preto que sempre usava. Mas tinha olhos furtivos. Castanhos e rápidos, sua única divergência de todo o resto do mundo.

Raquel era seu nome, vou dar-lhe nome, para que ela não seja tão geral assim. Contando mais sobre Raquel, convenientemente, estava acostumada a atender sempre te chamavam, cuidar do filho de sua vizinha quando solicitada e doar seus sorrisos pontuais sem que recebesse outros em troca. Ah, ela nunca recebia nada em troca, nem mesmo valor, nem mesmo respeito, muito menos carinho. Coitada de Raquel, se não fosse pelo fato de sempre perceber as coisas mais rápido que as pessoas, estaria fadada a somente isso. Então, eram seu olhos, que fazia com que ela observasse melhor o mundo. Conveniência nunca foi algo tão conveniente assim. Raquel sabia perceber as coisas. E são poucos os que sabem perceber as coisas.

Enfim, belo dia tempestuoso - vamos tirar o dia de sol porque não é pra ser tão feliz assim -, Raquel estava olhando algumas fotos no Flicker ou Orkut, tanto faz, de uma amiga sua. Também de calça skinny e  cabelos escovados, na mesma pose sorridente que costumava fazer. Raquel percebeu que ela estava nos mesmos lugares em que gostava de ir, com a descrição das fotos iguais às que ela colocava. Os mesmos amigos, com as mesmas risadas. Raquel se levantou, foi até o banheiro e se olhou no espelho. Realmente Mariana era igual a ela. Assim como Joana, como Ana e como Carol. Ou como qualquer outra que ela quisesse comparar. Assim como Pedro, seu namorado, era igual a Tiago, o cara ao lado de Mariana em uma das fotos. E igual a Gabriel, e igual a Marcos e igual a todos os meninos com que ela namorou e com os milhares com os quais ela já tinha ficado. No dia seguinte Raquel foi para o colégio com uma trança. E essa foi a maior revolta de sua vida.

Uma trança no cabelo. A revolta de Raquel diante o mundo. Assim como você chega em casa chateado, e decide que vai passar o resto da tarde sem fazer nada. Como se alguém entendesse, como se alguém se importasse. No dia seguinte após o dia seguinte, Raquel já estava novamente com os cabelos escovados. E passou o dia conversando com Mariana, ou com a Joana, e beijando Pedro. Novas fotos, novos comentários, a vida não mudou em nada. Não posso dizer que ela deixou de observar as coisas, sempre quando tudo parecia errado. Afinal, ela nunca ficou cega. Melhor dizendo, o pior cego é aquele que não quer ver. Então ela estava cega, cegou-se para ignorar tudo. Raquel continuou a mesma, que pena.

6 comentários:

Rodolpho Padovani disse...

Ela não sabe o quanto está errando, ser conformista num mundo onde a gente deve ser diferente não é legal, o comum não chama atenção, seguir padrões não é ter personalidade própria. Espero que a Raquel veja isso um dia, assim como todos os outros iguais a ela.
Ótimo texto e ótima lição que passou.

BlackRabbit disse...

"Era uma menina como todas as outras. Cabelos escovados, calça skinny e músicas do Paramore no celular."

que bom q eu não conheço muita gente assim...
na verdade, acho q conheço duas moças assim...
o resto eh normal e legal...
*-*

e sobre o comentario acima: "ser conformista num mundo onde a gente deve ser diferente não é legal, o comum não chama atenção, seguir padrões não é ter personalidade própria."

infelizmente, hj em dia, ser "diferente" jah eh normal...
=p

qr coisa mais diferente q os coloridos???
e hj em dia, jah virou comum...
o dificil eh vc sair na rua sem ver uma dessas aberrações de "diferentes"...
=/

mas neh...
acho q o importante eh se sentir bem...
eu ando com uma camisa de manga longa preta, minha toca de coelho, umas pulseiras de reggae no tornozelo e as vezes nos braços, uma bermuda jeans...
naum vejo ngm igual a mim...
xD
mas não estou tentando dizer que sou "o diferente"...
só estou tentando falar q tanto faz oq vc veste, ou como vc se penteia, acho q as pessoas devem ligar mais pro interior...
e nós nos damos melhor com pessoas q tem os mesmos gostos q nós, ou seja, interiormente são parecidas conosco...
então, ser "igual" não tem nada de errado... contanto q vc não se deixe levar por todos os pensamentos das pessoas só pq vcs tem coisas em comum...
acho q já estou esticando demais meu comentário, e viajando demais aki...

mesmo assim, bom texto...
=D

Jυℓyαnα ツ disse...

Pobre é aquele que se priva de ver =/





;*

Bell Souza disse...

Que pena que somos tão medíocres!

Nini C . disse...

Nuss, não tenho nada contra esse tipo de pessoa. E eu bem que queria ser uma colorida :x
Mas cada um tem seu estilo, e eu acho isso legal. Gostei do texto. Beijos...

Camila Mancio. disse...

As pessoas só enxergam elas mesmas.

Talvez esse seja o mal da humanidade.