terça-feira, 28 de setembro de 2010

Carta para você






















Gabriel,

Eu poderia começar essa carta dizendo que te amo muito. Mas você sempre soube disso, nós sempre soubemos disso. Sei que você também me ama, não há mais espaço para a gente se esconder. Eu sempre soube que era você, começou quando você entrou na minha sala procurando já não lembro quem. As vezes que nos encontramos na fila da cantina e todas as vezes que nos olhamos pelos corredores. Lembra a primeira vez que conversamos? Você estava tão nervoso! A primeira coisa que disse foi que eu possuía os cabelos pretos mais longos que você já tinha visto, e que eu era linda. Lembro dos teus olhos verdes, tão verdes que não havia como parar de te olhar. Fiquei vermelha, lembra? E só concordei com a primeira parte. Cética que sou, não costumo acreditar em coisas assim. Não acreditava em contos de fada, não acreditava em amor , não acreditei quando você disse que queria ficar comigo. Achei que fosse mais uma de suas brincadeiras, afinal, de cada dez palavras que você fala, oito são de brincadeira. Como você queria que eu interpretasse um "Tô muito afim de você"? Respondi com um "Tsc" e mais nada. Foi a primeira vez que demos errado.

A segunda foi quando logo depois disso você começou a namorar Marta. Como assim logo depois disso você começou a namorar Marta? Foi a pergunta que me fiz. A verdade é que achei você um filho-da-puta. Desci para a quadra e agarrei Luís. Sempre soube que aquele blusão jeans dele te irritava. Devo confessar que a mim também. Mas se te irritava, valia à pena. É óbvio que nessa hora já estava totalmente apaixonada por você. A gente só faz um sacrifício desse tipo por amor. O Luís? Ah, tudo bem, ele é bonitinho. Mas no lugar dele, eu queria você. Mas você estava com a Marta. O que é que eu podia fazer? Ciúme, é claro. Não aguentava te ver de mãos dadas com ela, aos beijos com ela, na fila do banheiro com ela. Pouco a pouco, deixamos de nos falar. Cheguei até a brigar com meu coração. Depois veio aquela festa, lembra? Em que você foi com a Marta e eu com Luís, e eu vi você praticamente transando naquele beco. Ali meu coração doeu, sinceramente. Poxa, não sei porque estou escrevendo isso aqui, desse jeito, tão confessional, mas no fundo eu quero que você saiba como eu me senti. Imagina se fosse você quem tivesse visto Luís me agarrando em um beco, com a mão na minha bunda e meu vestido desamarrado? Tudo bem que não sou vagabunda pra chegar a esse ponto, mas da forma que seja, fiquei arrasada. Fui pra casa e chorei. Chorei muito. Terminei com Luís no dia seguinte. Não podia continuar com ele. Mas você continuou com a Marta, e o pior de tudo foi o anel de compromisso que eu vi no dedo dela, na segunda-feira seguinte.

A essa altura você não conversava mais comigo. Só me restou as vezes em que fomos ao parque passar a tarde conversando, os cachorros quentes na loja de conveniência, aquelas ligações de madrugada. Você faz falta na minha vida, Gabriel. Muita falta. Então veio o dia em que quando passei por você no corredor, você me olhou tão fundo, que eu senti meu sangue correr. Você me queria, eu senti isso. Mas o que é que eu ia fazer? Não fiz nada, segui em frente desejando que você me seguisse. e você me seguiu. Fomos caminhando e você me puxou para aquela sala vazia. E me beijou, só você sabe a forma como me beijou, não tem como ter esquecido. Foi naquele curto espaço de tempo que sem falar nada você me entendeu. Tive sua pele pegando fogo na minha, seus braços me apertando, minha mão arranhando teu pescoço. Até que a sirene tocou.

Foi a última vez que te vi nesses últimos três meses que se passaram. Ainda caminho sozinha nos corredores pra ver se te encontro, as vezes fico parada só esperando você passar.  Quero suas conversas sobre todas as coisas, seu sorriso, suas brincadeiras, seu cabelo bagunçado de sempre. Eu te amo, entenda bem isso. Soube que seu namoro com Marta acabou, resolvi te escrever essa carta. Vou colocá-la na sua mochila. Assim que você ler, eu não quero que você me ligue, que você me ache estúpida, que me mande mensagem, nem nada disso. Me procure. E quando me achar você sabe que não vai ser necessário dizer nada. Tô cansada de escrever, acho que já escrevi demais. Pro meu temperamento, você sabe que isso é um milagre. Vem pra cá, Gabriel. Tô te esperando.


Com amor,
Luana.

5 comentários:

BlackRabbit disse...

cara...
texto muito bom...
muito bom mesmo...
tem uma hora q chega dar pena da Luana...
acho q soh quem passa por essas coisas entende...
o_O
mas enfim...
continue assim...
\o

Nini C . disse...

Caramba, isso me lembrou uma garota. Uma garota que eu fui a muito tempo atrás...
Mto bom Cristiano, voc escreve cada vez melhor.
Beijo.

Jυℓyαnα ツ disse...

Sei exatamente como ela se sente cara!
É terrível quando tudo que você deseja depende de outra pessoa...





;*

Rodolpho Padovani disse...

Poxa, que dó da Luana, mas vou torcer para que ele receba a carta e que as coisas entre eles possam se acertar, hehe... e eu meu otimismo.
Muito bom o conto, deu pra assistir todas as cenas em minha mente enquanto lia.

Déborah Simões disse...

Amei esse texto... Lindo, lindo, lindo...
Bjok