sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Meu primeiro (mal de) amor


Era um daqueles dias de sol. É, um dia claro, gostoso. Daqueles que temos vontade de ficar fora de casa só para sentir o ar passar pelo nosso corpo e o vento bagunçar o nosso cabelo. Um dia sem nuvens traiçoeiras e sem pressa, como se o próprio tempo tivesse decidido que precisava de uma folga e então apenas caminharia descalço pelas horas, em passos lentos e despreocupados.
Nós estávamos debaixo da velha árvore do campo, os galhos dela se estendiam sobre nossas cabeças como vários braços retorcidos se espreguiçando e nos presenteavam com uma sombra fresca e refúgio do sol. É claro que duas crianças, como éramos, não deveriam estar ali desacompanhadas dos pais, mas sempre fomos violadores das regras paternas e vez ou outra nos embrenhávamos no meio da mata apenas por diversão e para passar o tempo.
Nós costumávamos levar frutas nas cestas das bicicletas para fazer piquenique ou livros para colorir e ler. Eu ainda não aprendera a entender aquele monte de palavras de mãos dadas que se esparramavam no papel, mas ele, sabido como era, já compreendia esse mundo que parecia pertencer somente à gente grande. Então ele lia para mim.
Tenho que admitir que sua leitura, embora bastante esforçada, me encantava. Era mágico vê-lo decifrar aquele emaranhado de letras com os olhos e traduzi-lo para mim através de sua voz aguda e pueril. E eu sempre me deixava levar pelo som das palavras, cada sílaba pronunciada de forma cadenciada me fisgava pelos ouvidos e me guiava por trilhas desconhecidas e inusitadas.
Eu não sei em que momento eu me apaixonei por ele. Não me lembro do dia em que aquele garoto que sempre fizera parte da minha vida, passara a ter um valor diferente. Não me recordo da noite que fui me deitar e sonhei com seu sorriso de lado e com o som da sua voz melodiosa a me ler histórias de emoção. Eu não sei de nada disso, pois eu era apenas uma garotinha na época. Como é que podemos descobrir o que é amor antes de aprender a ler? Isso não parece natural, tudo tem que acontecer no seu devido tempo, não é mesmo?
Ah, eu custei a acreditar que meu pequeno coração havia se entregado aos braços da paixão, aquele bobo e estúpido ser vermelho e latente, eu deveria conhecer as palavras primeiro. Eu me recusava a sentir aquela pontada de ciúmes quando o via com outra garotinha e se ele dividisse o lanche ou sorrisse de um jeito diferente, como aquilo me incomodava.
Com muito medo daquela coisa estranha e nova que eu sentia eu contei à mamãe que estava doente, claro, só poderia ser isso. Lembro-me que ela sorriu ao ouvir o que eu dizia e disse:
- Isso não é doença coisa nenhuma, isso aí é mal de amor.
Aquelas palavras me deixaram ainda mais confusa, pois eu sempre ouvira dizer que o amor era uma coisa boa, mas o tempo foi passando e eu realmente me dei conta de que era mesmo mal de amor. Eu sempre queria tê-lo por perto, arrumava desculpas desajeitadas para tocar seu cabelo ou seu braço, quando toquei em sua mão por acaso quase senti que fosse flutuar e um rubor desinibido me entregou. Ele apenas sorria, meninos são tão imaturos, não é? Eles acham graça em tudo, o amor não é engraçado, ele é apenas amor.
Meu eterno leitor de dias ensolarados se tornou meu primeiro amor, ele me ensinou a arte de traduzir as palavras dos livros enquanto meu mundinho parecia vazio quando ele não estava comigo. Aos olhos de uma criança tudo é tão inocente que até mesmo a palavra amor tem um sentido mais sutil e puro.
Sim, eu o amei naquela época, sem mesmo saber o que era amar. Aprendi com isso a verdade dos sentimentos, eles são todos intrínsecos, ninguém pode te ensinar a senti-los, ou você sente por si só ou jamais vai saber.
Eu queria poder dizer que nossa história foi tão feliz quanto em meus pensamentos, mas nada aconteceu. Eu continuei amando sozinha, até o amor desvanecer. Ele continuou achando graça nas coisas, até que um dia cresceu.
Passamos por tanta coisa nessa vida que as menores parecem patéticas e sem sentido, mas são essas que realmente têm algo a nos ensinar.
Nem toda história de amor acontece, mas isso não faz com que ela não mereça ser contada.

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