domingo, 18 de agosto de 2013

Alma de escritor


Já ouvi dizer que as palavras têm vida, que possuem poderes inimagináveis e que podem criar pontes entre mundos distintos. Acredito que tudo isso seja verdade, as palavras são vivas, mas são apenas corpos vazios até que alguém as dê alma e uma razão para existir e é aqui que eu entro: o escritor.
Enquanto contorno alfabetos, costuro letras, remendo palavras e uno sentenças, eu estou dando vida a algo além da minha própria imaginação, algo grandioso que ultrapassa os limites de minha própria essência, eu me traduzo em palavras. Eu transmito em escrita o que o coração grita em pulsares de sentimentos. Eu alimento o espaço vazio com meros caracteres separados que se tornam uma obra quando colocados juntos. Eu construo um quebra-cabeça de palavras.
Sendo eu o mestre disso tudo, até que ponto eu dou vida? E à partir de qual ponto a vida se cria por si só? Chega um momento em que o escritor e a obra se tornam um, uma fusão de existências compartilhando da mesma alma. A obra alimenta o autor enquanto este a nutre com criatividade e singularidade que apenas ele possui.
O jogo de palavras, a formação de expressões e o toque de personalidade tornam a escrita algo mágico, intenso e capaz de atingir cada leitor de uma maneira diferente. Há maneiras sutis de destilar sensações ao espremer singelas frases. Há modos bruscos de tornar o irreal verídico. Meios e meios de assombrar, encantar e de expor.
Eu, homem escritor, menino autor, co-produtor de uma obra que escorre de minha alma, observo as conexões se formando em blocos de texto que estavam escondidos em minha mente, muitas vezes tão bem escondidos que eu nem mesmo sabia que existiam e tudo vem à tona num piscar de olhos, sussurrado por uma melodia, fotografado por um relance ou atirado por uma explosão de sentimentos. Um jorro de palavras se esparrama, desordenadas, desajustadas, cabe a mim, o garoto criador, escolher uma a uma, usando a pinça da coerência para apanhá-las e colocá-las na ordem certa.
Quando saberei onde o final começa ou onde o começo termina? As palavras vão dizer, elas sempre dizem... elas sempre apontam a direção. Basta estar atento aos ajustes e retoques. As pinceladas finais colorem a escrita que deixou de ser cinza e virou arco-íris.
Eu, ingênuo sonhador, laço o vento, agarro nuvens e desenho aquarelas. Eu, maluco inventor, atiço engrenagens, desenferrujo as poesias e conserto métricas quebradas. Eu, sádico tirano, arquiteto planos, cuspo veneno e me deleito no caos. Eu, santo pecador, mascaro intenções, rabisco sorrisos maliciosos e visto olhares fatais. Eu, poeta cantor, rimo liras, conto versos e marco ritmos. Eu, em palavras de um autor, sou apenas um escritor perdido no mundo das letras, percorrendo labirintos de palavras, deitado em estrofes de canções. Eu não sei aonde a escrita vai me levar, apenas sei onde ela me trouxe.
Aqui é onde eu quero estar, no sublime mundo encantado da minha mente, onde reino com soberania e a escrita se faz minha refém ou talvez eu apenas tenha sido seduzido por seu encanto, mas disso nunca vou saber.
Eu, soprador de letras, sei por onde começar, mas a alma que dou à minha obra me guia até o final.

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