sexta-feira, 31 de maio de 2013

Gestos e sorrisos

Eu sempre acreditei que romances fossem feitos para pessoas perfeitas, para aquelas que não têm nada em falta e que até possuem atributos sobrando, mas quando meu coração começou a dar sinais diferentes eu percebi o quão equivocado eu sempre estivera.


Ela era aquele tipo de garota que está sempre apressada ou distraída demais, portanto eu jamais seria alvo de sua atenção. Jamais.
Todas as manhãs pegamos o mesmo ônibus para ir à escola. O sono que paira sobre mim rapidamente se dispersa quando ela sobe os degraus e procura um assento vazio. Meus olhos se abrem avidamente e eu me ponho a observar de longe... Os cabelos castanhos esvoaçantes, o tecido do vestido liso sacudindo pelo rufar do vento, os braços alvos carregando os materiais e os lábios curvados em um sorriso que parece eterno e até mágico.
Eu não aceno, claro. Sou um estranho para ela. Apenas me resumo a assistir seu desfilar pelo corredor até a porta de saída quando chega sua vez de descer e um dia desses, eu posso jurar que um fiapo de seu sorriso escorregou e sacudiu-se no ar em minha direção feito folha seca no outono, tão singelo. Não me contive de emoção.
Numa manhã tocada pela cálida luz do sol, ela entrou no ônibus e caminhou... meu coração deu um salto triplo e agarrou-se nas cordas vocais silenciosas enquanto ela se aproximava. E ela sentou-se exatamente no assento livre ao lado do meu. Com tantos outros lugares ela resolveu sentar-se ali. Respirei profundamente e olhei desinteressado para a janela. De esguelha pude ver que ela sorria. Sim, ela sempre sorria, não é?
Desgrudei os olhos do vidro pouco antes de ela descer e congelei-me quando ela acenou um tímido adeus. Ela acenou? Eu não estava sonhando.
Na manhã seguinte ela disse um “oi” tão sonoro que parecia música. Vi as notas pairarem no ar por uma fração de segundos. Levantei a mão num rápido aceno e ela sorriu, como eu esperava que fizesse. Desta vez aquele sorriso foi todo para mim, quase despenquei do banco, nocauteado pela sua beleza.
Eu tive medo de contar a ela que eu era uma pessoa defeituosa, tive medo de espantá-la e de nunca mais poder ter porções de sorrisos matinais. Então eu escrevi um bilhete e deixei-o cair convenientemente no meio de seus livros quando ela saía e me deixava seu sorriso comigo. Eu sempre o guardava, na minha mais recente memória, para contemplá-lo por horas até mesmo de olhos abertos.
Para minha surpresa ela voltou a sentar-se comigo no outro dia e fez um gesto de que me compreendia. Aquele foi o golpe que tirou todo meu fôlego e meu coração atirou-se em pulsares desenfreados. Ela me entendia. Melhor do que isso, ela aceitava minha condição.
Eu tinha tanto para falar para ela, tinha tantos sorrisos para compartilhar e gestos para mostrar. Ela era paciente. Perguntava quando não entendia e aprendia rápido. E seu interior era lindo, carinhoso e puro. Ela era uma em um milhão. Que sorte a minha.
Em casa escrevi linhas e mais linhas do que eu queria que ela soubesse. 

Quando ela entrou no ônibus, cabelos caídos e sedosos, vestido de tom claro, caminhando até mim, tudo que eu gastara horas decorando no dia anterior, simplesmente desapareceu. Eu me vi perdido numa sala escura, sozinho e sem saber o que fazer.
Então meu coração tomou-se de uma coragem que eu nunca vira e controlou meus movimentos. Ela sentou-se perto de mim com seu sorriso a tiracolo.
Eu ergui minha mão. Estendi o polegar, o indicador e o mindinho.
O sorriso dela se alargou e eu afundei nele, inebriado. Ela sabia que aquele gesto significava “eu te amo” em libras. Ela fez um gesto semelhante e então meu sorriso abriu-se tão bobo que eu achei que mais parecia uma careta.
Ela nunca se importou de conversar com um mudo e eu adorava o som da voz dela e de sua risada quando ela se perdia nos sinais. Ela tinha voz e eu não, de certo modo, completávamos um ao outro.

Romances não foram feitos somente para quem é perfeito, pois ninguém é perfeito até que aprenda a amar e perfeição é ponto de vista. De onde eu olho, aquela garota que agora é parte constante de minha vida, é perfeita para mim e de onde ela olha, eu, tão incompleto, também sou perfeito para ela.
Ela sorri. Um sorriso assim, perfeito demais para descrever, não existem palavras nem sinais que possam explicar como ele é. E ela o entregou a mim. Só a mim.

Um comentário:

Andressa Pereira disse...

Meu Deus, que final mais lindo! Nunca imaginei que este seria o fim, mas sinceramente, além de surpreendedor, foi lindo. Incrivelmente lindo.
Os amores são bem assim, completos uns nos outros, como o sol e a lua são diferentes, mas sem um deles, não se faria dia ou noite. São perfeitos na medida de suas imperfeições!

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