quarta-feira, 3 de abril de 2013

O homem do farol



Todo dia encaro a insípida rotina que minha vida tem sido desde quando posso me lembrar. Meus pés afoitos e não mais interessados nos caminhos, seguem pela trilha de pedra até o meu local de trabalho. O contínuo vai e vem das ondas do mar lambem o chão de areia e os respingos de água salgada temperam o ar.
A torre do farol se ergue majestosa em minha frente, engrandecendo à medida que me direciono até ela. A escada de ferro da entrada, maltratada pelo tempo e desgastada pela corrosão, me saúda indiferente. As paredes de tijolo batido se tornaram meu refúgio.
No topo do farol, acompanhado do potente refletor giratório, eu brindo minha solidão comigo mesmo e converso com o vento.
Aprendi com o tempo que vivemos a vida que fazemos, que cada pedra recolhida nos caminhos e cada escolha diante de uma encruzilhada constroem os alicerces do futuro, feito peças de um quebra-cabeça que nunca se completa. Hoje visto a solidão como um sobretudo velho e inestimável, sua companhia me conforta. Gosto do sabor agridoce do nada e dos sussurros mudos de ninguém. Admiro o indomável mar na minha frente, ignoro sua calmaria e me deleito em seus momentos de revolta, pois esses me mostram sua verdadeira face.
Sou feito de cacos de trevas e de retalhos de luz, assim como todo mundo é.
Meu trabalho desprezível e desvalorizado é o que traz a alegria de muitos homens cansados da solidão, que esperam ardentemente sentir a terra firme sob seus pés mais uma vez. A luz do meu farol que os guia para fora da garganta da escuridão é a mesma luz fria irrelevante em minha vida.
Os pesares do meu passado ficaram para trás, não sou do tipo de homem que remói lembranças nem que regurgita remorsos, mantenho o olhar voltado para frente. O dia que me importa é o hoje, nada de grandes planos atirados no horizonte, detesto a frustração de não completá-los. Idealizo apenas os sonhos, pois uma pessoa que se esquece de sonhar perde a razão de viver.
Por vezes o som da minha própria voz se desentende com meus ouvidos, pois não há diálogos entre mim e eu mesmo. Deixo minhas palavras soltas e elas correm pela escada em espiral, brincam com a luz forte que gira sem parar ou se escondem nas sombras da noite. Há resquícios de caligrafia gravados nas paredes e em folhas abandonadas.
Não vou deixar a minha história para trás quando eu me for, minha vida contraditoriamente insossa não agradaria o paladar apurado de ninguém. Eu me acostumei com o que não tenho, aprendi a valorizar meus pertences e me desarmei de utopias há muito tempo.
A pequena trilha da minha casa até o farol é a estrada que percorrerei até meus últimos dias e você se engana ao pensar que sou um pobre resignado. Eu não fui sufocado pelo conformismo, eu o aceitei. Há algumas lutas que valem a pena ser lutadas, outras, independentemente de quanto você treina, o resultado jamais vai se alterar. Eu escolhi minhas lutas e por isso venci todas elas. Não estou falando de desistir diante de obstáculos, estou falando de ter coerência para distinguir qual deles realmente te priva de ir a algum lugar. 
A vida é como apanhar pedras no breu da noite, só saberemos se apanhamos algum diamante quando a luz do sol chegar, portanto há de ter coragem para deixar algumas pedras para trás e fé enquanto segura as que restaram.
A luz do farol gira constantemente em seu propósito de resgatar esperanças perdidas e minha essência se resume na arquitetura de um farol. Ora iluminado, ora banhado de escuridão.

2 comentários:

Milene Cristina disse...

Muitos de nós com o mesmo farol, o sentir e a falta dele. Bom demais passar por aqui. Um abraço!

Aleatoriamente disse...

Tantas coisas a deliciar aqui.
Esse Farol, presente bom para refletir.
Sigo com o meu, tentando entende-lo melhor.

Abraço