quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O menino que acreditou




Londres – meados de 1800

O destino é cruel se você é pobre e a vida não dá a mínima para isso, aprendi essa lição da pior maneira possível, acredite. As pessoas têm fachadas e tantos lados quanto a soma de vários dados, algumas tendem a ser boas, generosas e, até certo ponto, altruístas, ao passo que outras desenvolvem sentimentos amargos e se tornam más, de qualquer forma, não devo julgar. Aliás, julgar é o que menos faço, pois aprendi também que quando se trata do ser humano, podemos nos surpreender. Sempre.
Nasci em um berço qualquer, fui abandonado em uma viela qualquer e levado para um orfanato qualquer. Hoje ajudo a comandar o lugar, mas não estou aqui para falar de mim.

Na primavera passada – época do desabrochar das flores e de temperaturas amenas com gosto de família e abraço de mãe – acolhemos Oscar. Franzino, pequeno para a idade e extremamente curioso e falador. Durante suas primeiras semanas aqui ele não teve problemas em se enturmar, mas nunca falava de sua origem.
O verão expulsou a primavera e iluminou a casa velha em que moramos, as janelas foram abertas para o vento entrar e percorrer os quartos e brincar com as crianças – assim a temporada de visitas começou. Sorrisos foram ensinados, cumprimentos e boas maneiras foram mais cobrados, tudo na mais pura intenção de deixar aquelas portas em rumo de um novo lar, ou talvez o primeiro lugar que pudesse verdadeiramente receber esse nome.
Lembro-me do empenho de Oscar para ajudar todos os outros meninos, enquanto se escondia quando uma família tentava conversar com ele.
- Ainda não chegou a minha vez – ele me disse sem rodeios quando perguntei o motivo.
As visitas diminuíram até cessarem por completo. Três crianças encontraram quem chamar de mãe e pai.
Assim que o outono começou a varrer as folhas das árvores e abaixar a temperatura, começamos a nos preparar para o inverno. A mais devastadora das estações. O inverno é impiedoso e seu frio espalha-se pelas veias, tentando nos congelar de dentro para fora.
Vivemos da ajuda das pessoas boas e infelizmente elas parecem estar deixando de existir.
Quando dezembro deu as caras, avistei o sorriso mais exuberante no rosto de Oscar, que passou a correr pelos corredores berrando que o Natal estava próximo e quando não lhe davam atenção, ele atirava um bola de neve para se fazer notar.
- O Natal é minha época preferida – ele comentou muito sugestivamente – Pedi uma família para o Papai Noel – e seu sorriso tímido surgiu outra vez. Eu não soube o que dizer, apenas afaguei seus cabelos bagunçados e voltei para meus afazeres.
Na semana do Natal, numa manhã criteriosamente gelada, acordei pelos murmúrios alvoroçados das crianças no pátio. Caminhei até lá, esfregando os olhos para afastar o sono e me deparei com Oscar, na calçada, segurando o que parecia ser um pequeno pinheiro em frangalhos.
- Não é assim que as coisas funcionam aqui – eu lhe disse severamente, tomado pelo mau humor de ter sido acordado –, o Natal não existe dessa porta para dentro.
- Só porque você perdeu a fé no Natal, não significa que o Natal perdeu a fé em você – ele rebateu muito sabiamente e entrou com o pinheiro. As outras crianças o abraçaram e trataram de ajudá-lo a enfeitar a árvore.

O Natal chegou e passou, os pedidos feitos rapidamente foram esquecidos na manhã seguinte. Esgueirei-me para o quarto de Oscar, para ver como ele estava.
- Não foi dessa vez – ele me disse e seu sorriso não apareceu –, mas eu sei que um dia meu pedido vai se realizar, como sei que depois desse inverno virá a primavera.

Vários invernos se passaram e ainda muitos tornarão a passar e todo Natal, aquele garotinho de olhar sorridente, que agora se tornou um homem quase feito busca uma árvore e a enfeita para aquecer a magia da esperança dentro de cada criança que tenha um pedido semelhante ao seu. 

Um comentário:

Erica Ferro disse...

Queria que existissem mais 'Oscares' por aí.
Tantas pessoas que, na primeira derrota e frustração, já perdem a fé e não a encontram jamais. É algo triste de se ver. Acho que a gente precisa preservar a fé e a esperança em dias melhores. Acho que a gente precisa, realmente, preservar a capacidade de sonhar e de acreditar que eles podem se realizar. Mesmo que demore. Mesmo que, talvez, nunca cheguem a realizar. Mas, se há fé, há acalento no coração, há uma força enorme que move o corpo todos os dias pra viver.

Belíssimo conto, Rodolpho.

Sacudindo Palavras