terça-feira, 6 de novembro de 2012

Dance comigo


Ela me encarou com aqueles olhos ocos e tão sedentos de vida e me pediu que eu lhe contasse tudo.
- Mas me diga apenas o que for bom – seus lábios se moveram e as palavras escorreram tão puras que trouxeram uma onda de tristeza. E eu a contei tudo. Tudo o que era bom.


A rua estava molhada, o céu estava molhado e até mesmo a noite não conseguira ser imune ao intenso banho que a chuva derramou. As gotas de água cristalinas e geladas se atiravam em queda livre e borrifavam o mundo numa cascata prateada. Não havia lua naquela noite, apenas o breu e o véu da escuridão na face da cidade.
Eu dirigia cautelosamente devido ao asfalto molhado e quando enveredei por uma rua de fácil acesso, me deparei com um carro parado no acostamento. As luzes piscavam animadamente, como se estivessem felizes pela chuva que caía. Eu estacionei ao lado do veículo e tentei enxergar através do vidro embaçado e através da cortina de chuva, mas não consegui.
Saí do carro e lá na rua estava uma moça. Ela não notou minha presença de imediato. Ela tinha o rosto voltado para o céu, os olhos fechados e os braços abertos e girava... Girava feito uma bailarina, dançando ao som das gotas que deslizavam por seu corpo e penetravam em suas roupas.
- Com licença – eu disse com certa insegurança e ela lançou-me um olhar maroto e saltitou para perto de mim.
- Não é mágico? – ela perguntou e abriu os braços outra vez, girando ao redor de si mesma.
- Você está bem? Quer que eu chame alguém?
- Estou ótima – ela me respondeu e um sorriso desabrochou em seu rosto – Dance comigo.
Eu recuei intrigado e ela me puxou. Não sei por quanto tempo relutei até deixar-me levar pelo leve balanço de seus movimentos e pelo ritmo cadenciado da chuva, que continuava a cair,  tocando a melodia para nossa dança.
- É mágico – eu respondi finalmente e ela sorriu outra vez. E era bom ver o seu sorriso.

Ela piscou assim que eu terminei de contar, como se estivesse presa nas imagens que visualizava em sua mente.
- Eles ficaram juntos? – ela perguntou e seus olhos me encararam. Tão vazios de lembranças e aquilo me apunhalava na alma e me fazia chorar por dentro.
- Sim, eles ficaram juntos por muito tempo e foram tão felizes que tal felicidade não se cabe em palavras – eu contei.
Ela sorriu ternamente e fechou os olhos para se entregar ao sono.
Enquanto eu a observava dormir, eu sentia a dor cavar mais fundo dentro de mim, forjando uma toca para se alojar e permanecer definitivamente.
Ela não se lembrava mais das coisas. Ela não se lembrava de ser a moça na chuva, com o sorriso, com a alegria e espontaneidade, mas ela se lembrava de mim, pelos menos isso a doença não lhe tirou e todas as noites, antes que ela adormeça, eu lhe conto a história de quando nós nos conhecemos e ainda tenho a esperança de que talvez um dia ela se lembre e de que seu sorriso doce daquela noite possa chover em mim outra vez. 

2 comentários:

Lívea Colares disse...

Lindo conto, me fez lembrar o livro "O diário de uma paixão". Adoro histórias que envolvem a chuva, acho que tem algo de fascinante nela, inclusive tbm já escrevi um conto em meu blog que tem chuva como um dos panos de fundo.

Ana Carolina disse...

Lindo!
Rolou aqui uma identificação com os personagens.