segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A vida e morte de Christine Bent



Talvez a coisa mais ousada que Christine Bent tenha feito em toda a sua vida foi morrer.

Ela acordou e sentiu instantaneamente a dor tomar conta de seu corpo, não conseguia abrir o olho esquerdo, que latejava e quando tentou gritar percebeu que estava amordaçada. Suas mãos estavam amarradas atrás das costas, presas a uma cadeira velha de madeira rude que arranhava suas pernas desnudas.
A luz tentava atravessar uma cortina de um tecido grosseiro e encardido, mas falhava em cada tentativa, deixando o cômodo inebriado em uma meia-luz aterrorizante. Sobre a mesa a alguns metros de distância, Christine viu uma arma e algumas facas enferrujadas e sentiu o rosto molhar com as lágrimas que começaram a escorrer, aquecendo sua pele e lavando o sangue seco.
Ela engasgou-se com um soluço de susto quando a porta escancarou-se de repente e ele entrou.

Christine nunca foi nem desejou ser o tipo popular de garota, ela preferia conduzir sua vida à margem de qualquer problema, lutando ao máximo para se tornar invisível, exatamente pelo prazer de poder viver sem ser notada e, portanto, não ser julgada por ninguém. É uma ironia dizer que ela atingiu seu objetivo, pois se alguém houvesse sentido sua falta, as coisas poderiam ter acabado de uma maneira totalmente diferente.
Ela caminhava pelos corredores do colégio, atada à sua solidão particular e com a cabeça afundada em uma nuvem cinza de pensamentos mirabolantes e sonhadores de mais para sua realidade pacata.
Em casa estava sempre trancada em seu quarto, ora escutando alguma música estranha, ora divagando em seu diário secreto com uma caneta preta de ponta fina. Os pais não a incomodavam, aquela era só uma fase, os outros pais costumavam dizer.

O homem de rosto quadrado e a barba por fazer encarou a garota amordaçada com seus olhos profundos e hostis. Ele aproximou-se dela arrastando a bota no chão empoeirado e parou a alguns centímetros de seu rosto. Sussurrou uma ameaça obscena em seu ouvido e arreganhou a boca num sorriso maléfico cheio de dentes amarelados. Escarrou e cuspiu ao lado da cadeira e analisou os objetos sobre a mesa como uma criança escolhendo qual brinquedo levar em uma loja.

Christine quase nunca encarava as pessoas nos olhos quando trocava poucas palavras com algumas delas, sendo na maior parte balconistas da doceria que frequentava regularmente.
Ela tentara certa vez ter um animal de estimação, mas cães não se adequavam a seu estilo despreocupado em excesso, gatos a faziam espirrar e peixes a entediavam. Ela decidira por fim, de forma displicente, que viveria sozinha.
E foi também dessa maneira que seu corpo foi encontrado uma semana após seu desaparecimento no meio da floresta que circundava a cidade. Ela fora brutalmente assassinada e nunca souberam por quem e nem qual o motivo.

No dia de seu funeral e a todos os outros que se seguiram depois daquele, a pergunta que mais intrigava as pessoas era “Quem, afinal de contas, foi Christine Bent?”

5 comentários:

Letícia Wilhelm disse...

Conto muito bom. Bem escrito e reflexivo... quem nós somos e o que fazemos para sermos notados...?

Me fez pensar, adorei.

Luzia Medeiros disse...

Quem afinal de contas somos nós?
A vida nos leva, nos faz reféns de tantas coisas, as vezes, nos perdemos em algumas esquinas.

Abraço.

Marina disse...

Que tristeza, viver desse jeito. Talvez ela tenha sido feliz assim... Ou talvez tenha ficado feliz em morrer.

Ótimo conto.

Fernanda Pessanha disse...

Fiquei pensativa com o texto e até postei no meu mural do face: "Nossa vida é feita de escolhas: caminhos, comida, animais, cores, pessoas. Você tem feito as melhores escolhas para você hoje? E se você se for, alguém vai saber quem realmente foi você?"

Gabriela Furtado disse...

Como sempre, seus contos são magníficos. Esse, não diferente dos outros, nos fazem refletir e questionar muitas coisas em nossas vidas.
Beeeeijooos