domingo, 23 de setembro de 2012

A primeira vez a gente nunca esquece


Lembro que eu fui até o local de trabalho dela, eu havia juntado algum dinheiro e finalmente realizaria aquilo que sempre tive vontade de fazer. Ela me atendeu com profissionalismo enquanto eu tentava não demonstrar que estava nervoso.
- É a minha primeira vez – eu confessei a ela e senti minha pele enrubescer. Se ela me julgou, eu não sei, mas sua feição permaneceu a mesma e logo em seguida um sorriso se abriu em seu rosto.
- Eu já atendi vários inexperientes, não se preocupe – ela disse, com o riso contido por saber que tinha nas mãos mais um leigo sobre o assunto.
Eu sempre vira isso em filmes, novelas e sabia quase tudo na teoria, mas eu nunca havia praticado, então imagine como eu estava me sentindo naquele momento.
Ela me guiou até o local onde faríamos tudo.
- Em qual posição eu devo ficar? – perguntei e me senti estúpido por isso.
- A que você se sentir mais confortável, não vou exigir muito de você na sua primeira vez. – ela respondeu e me lançou novamente aquele olhar zombeteiro.
Quando me dei conta eu já estava com as mãos afoitas e apanhei o instrumento.
- Calma aí, garotão – ela falou – Primeiro você tem que usar as mãos.
Ela me mostrou como eu deveria fazer, suas mãos levaram as minhas até aquela superfície lisa e molhada. Passei os dedos com cuidado, ainda inseguro de como proceder.
- Isso, vai apalpando com suavidade – ela orientou, enquanto eu alisava a “peça”. – Não, assim não, você não pode apertar demais – ela advertiu quando não controlei a força dos meus dedos que entravam e saiam. 
- Há quanto tempo você faz isso? – perguntei para quebrar a tensão.
- Bastante tempo – ela respondeu evasiva e continuamos.
- Agora pegue aqui – ela agarrou minhas mãos e guiou os movimentos – Pra cima e pra baixo, isso, desse jeito.
Todo o processo não demorou muito tempo e quando terminamos estávamos sujos e melados.
- Você pode se limpar antes de ir – ela falou metodicamente. Certamente eu era mais um na contagem dela e provavelmente eu seria esquecido tão logo eu saísse dali.
Limpei-me, paguei pelo serviço e atirei um “até a próxima”.
- Ei, garoto, você não foi tão mal para um marinheiro de primeira viagem – ela disse e me deu uma piscadela.

Quando cheguei em casa meu pai me perguntou como tinha sido e eu respondi que fora melhor do que eu imaginara. Quem diria que aulas de cerâmica pudessem ser tão fascinantes, você vê a sua criação tomando forma na sua frente, enquanto a argila gira na máquina de rodar da olaria.
Quero fazer isso mais vezes, vou criar os vasos mais bonitos que todo mundo já viu, só preciso de um pouco mais de prática.
Mal posso esperar pela minha segunda vez.

Um comentário:

Cynthia Brito disse...

kkkkkkkkk... adorei! Mas não consegui imaginar que fosse aula de cerâmica!

Genial!