quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A história que ninguém quis contar


(...) “Aqui está o fruto para os corvos arrancarem,
Para a chuva recolher, para o vento sugar,
Para o sol apodrecer, para as árvores fazer cair,
Eis aqui uma estranha e amarga colheita.”

Decáda de 50.

Apelidada de Cidade da Música dos Estados Unidos, Nashville, a capital de Tennessee, adotara a política de segregação racial, assim como várias outras cidades daquele e de outros estados.
Michael era um jovem de 16 anos, afro-americano, de porte atlético como o dos irmãos e de um talento incrível com o violão, sem mencionar sua voz grave e arrastada que embalava a família com country music nas noites de sexta-feira.
Sua mãe era empregada na casa de uma senhora branca que, vez ou outra, insistia que se ela se lavasse de modo mais adequado, conseguiria limpar a pele.
- Ela que lave aquela boca murcha dela antes de falar de mim – ela resmungava na reunião de família e todos gargalhavam ruidosamente.
Seu pai trabalhava na mesma casa, era o chofer da velha branca da boca murcha e escutava calado as ofensas que ela lhe dizia.
- Você tem que dizer a seus filhos para deixarem a escola – ela dizia a ele – Eles têm que entender que no futuro não serão nada além de empregados, você não acha? – ele sacudia a cabeça em resposta.
O fato é que Michael e os três irmãos estudavam, estavam no ensino médio e iam à escola todos os dias, apesar do preconceito que sofriam e da separação que era feita em classe. Brancos de um lado e negros do outro.

Certa noite quando caminhava pelas ruas da cidade, um homem parou o carro ao seu lado e lhe atirou um insulto. Ele o ignorou.
- Estou falando com você, seu negrinho de merda - o homem saiu do carro, correu em sua direção e deu-lhe um soco na cabeça. Ele tentou se defender, mas outros dois homens saíram do carro e o agrediram violentamente.
Sem poder fazer nada, ele recebeu vários socos e pontapés e foi deixado sangrando no meio da rua. Conseguiu arrastar-se até sua casa, onde sua família ficou horrorizada por vê-lo naquele estado.
Por acaso um dos agressores era filho da patroa de seus pais e sua mãe jurou que aquilo não ficaria barato.
No dia seguinte, ela ateou fogo nas roupas da velha e deixou a casa berrando que nunca mais voltaria a por os pés naquela casa, o marido repreendeu-a e disse que ela havia agido por impulso.
A velha observou, da janela de seu quarto no segundo andar, sua empregada afastar-se da casa e sibilou cheia de ódio:
- Você vai se arrepender, sua bruxa maldita.

Michael não soube como tudo aconteceu. Ele acordara no meio da noite, sufocado e tossindo. Lá fora um carro cantou o pneu e a fumaça se espalhava por todo canto. Alguém havia incendiado sua casa. Ele correu para os outros quartos para se certificar de todos tinham saído, mas seus olhos começaram a arder e a garganta se fechava. Gritos ecoavam pelos cômodos e o fogo consumia tudo ao redor.
Ele não percebeu exatamente quando perdeu a consciência e nunca soube se alguém de sua família tinha sobrevivido. A fumaça penetrou em seus pulmões e, pouco a pouco, roubou-lhe a vida.

Na manhã seguinte, todos os corpos foram recolhidos e a cidade chocou-se com o crime bárbaro, foi então que as pessoas começaram a perceber que o tom da pele não torna alguém melhor que o outro e que palavras como respeito e igualdade não diferenciam cor.

A imagem faz alusão à música, que foi escrita por Abel Meeropol na forma de poema para protestar sobre os linchamentos de afro-americanos que ocorria nos sul dos Estados Unidos.

2 comentários:

Leo Wizy disse...

"southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze..."

lewis Allen

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Triste história. Reflexo da mentalidade tão pequena e limitada do ser humano que teima em dividir-se em cores, em raças. Ser humano é um só. Preconceito assim só é capaz de destruir famílias.

Belo 'conto'. Mas todos sabemos que muitos fatos parecidos, se não piores, aconteceram e ainda acontecem na vida real. Lamentável.

Abraço!