quarta-feira, 4 de abril de 2012

O garoto que roubou o mar



Há quem concorde que a paixão se sacode tanto dentro de um coração que o pobre coitado não tem outra alternativa a não ser cometer insanidades.

Vou lhes contar a história de um rapaz que sofria desse mal sacolejante.
 A paixão, toda vestida de inocência e despretensiosa, surgiu em sua vida aos poucos. Ela percorreu várias manhãs de domingos cor-de-rosa e entardeceres arroxeados na esperança de laçar o coração desse menino. E em certa noite enluarada cor de tempestade ela conseguiu.
Ele viu-se apaixonado por uma moça que conhecera há poucas semanas. Eles frequentavam a mesma biblioteca e convenhamos que um romance entre livros é um clichê extremamente delicioso. Entre marcas-páginas deitados no papel e olhares furtivos eles se conectaram.
O som abafado, porém, incontido da risada da moça o desprendeu da história que o livro contava e ele quis desvendar os capítulos que ela escondia.
Logo os dois começaram a trocar palavras e recomendações de títulos e autores, digamos que por mera coincidência ambos tinham o gosto parecido.
Devido a uma terrível chuva, em um anoitecer qualquer, eles ficaram presos entre as estantes recheadas de livros e houve então mais sorrisos, mais palavras e um toque ocasional de dedos. Os livros observavam curiosamente o casal que estava em seu meio.
Ele a contou que gostava de música e xadrez e ela lhe confidenciou que amava o mar e era viciada em chá. A paixão é um despertar, ela abre os olhos das pessoas para detalhes mínimos que poderiam passar despercebidos. Ele viu um brilho fulgurante no olhar dela quando ela mencionou o mar.
O mar. Eu quero dar o mar a ela e torná-la a garota mais feliz do mundo – ele pensou estupidamente e logo franziu a testa ao perceber que o mar não era seu para que o desse de livre e espontânea vontade. Então ele teve outro pensamento – vou roubá-lo.

Parado no alto das rochas que se erguiam entre as ondas mansas do mar, ele analisava toda a sua vastidão e tentava encontrar uma maneira de furtá-lo e entregar à sua garota.

Foi na biblioteca, aplaudido silenciosamente pelos livros eufóricos, que o primeiro beijo aconteceu. A garota com beijo de chá. Doce.
Aquela cena se repetiu em vários outros cenários e a paixão dos dois crescia a cada dia que passava; a cada página que era virada.

Ele arquitetou um plano e logo tratou de colocá-lo em prática.
- Feche os olhos – ele pediu a ela no dia seguinte, ela sorriu com ansiedade e o fez – Estique sua mão – ela esticou.
Ele depositou uma gota salgada de mar na palma dela e observou seu olhar intrigado flutuando da gota para ele.
- Por você eu roubarei o mar com um conta-gotas só para passar o resto dos meus dias te presenteando – ele explicou.
O sorriso dela transbordou de alegria e ela se atirou em seus braços numa onda de paixão. Ele mergulhou em seu beijo.
Até os dias de hoje ele cumpre sua promessa, roubando o mar dia após dia e roubando doses de paixão.

Um coração apaixonado é capaz de cometer loucuras, contudo viver de loucuras é a melhor maneira que há.

8 comentários:

Lívea Colares disse...

Um texto sútil, delicado e lindo! Fiquei encantada!

Erica Ferro disse...

Que conto lindo! Muito, mas muito lindo!
Fiquei encantada com esse casal, a mocinha que amava o mar e o rapaz que roubava, dia a dia, gotinhas desse mar pra ela.
Lindo, lindo!

Lucas Reis disse...

Não sou de me entregar em romances de amor, mas esse me cativou, Rodolpho. Fiquei arrepiado e quase chorei aqui.

Que coisa linda!

Quando eu li as três primeiras linhas pensei em te dar a ideia de escrever esse texto em cordel, mas assim tá perfeito.

Adorei *.*

Babi Farias disse...

Você não gotejou um pouquinho de mar em nossas mãos, mas nos entregou o amor de maneira tão simples e pura que deu vontade de me re-apaixonar todos os dias pela mesma pessoa.

Conto lindo, Rod!

Gessy disse...

Que coisa linda de ser ler, e sentir, e viver...
Os clichês de romances nesses ambientes são 'deliciosamente saborosos'.

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Que conto emocionante meu amigo. você é um exímio contista mesmo. Eu fico abismado na maneira como escreves tão bem de sentimento. O amor neste conto exala em pura doçura. É sutil, leve e causa um conforto sem precedentes no coração de quem lê. que lindo. O rapaz é um doce, um romântico pleno. E a garota só seria feliz mesmo tendo ao lado um rapaz tão verdadeiro e que se importa com o que é essencial, o que de bom palpita no peito.

Dar o mar... Lindo a forma como ele tornou isso possível. Adorei a forma como expressaste o amor neste conto.

Abração!

Tamara Furlan disse...

Há quanto tempo nao visito esse blog, está surpreendente, maravilhoso. adorei o conto.

Ana Carolina disse...

Estou sem palavras para esse conto! Ele está incrível, perfeito, lindo, delicioso e sereno. Incrivelmente delicioso de se ler.

Parabéns pela criatividade!

Sigo A Arte de um Sorriso e vou passar a seguir esse também.

Ana Carolina,
http://realezacontemporanea.blogspot.com.br/