quinta-feira, 19 de abril de 2012

Intermitência luminosa


O relógio marcava 5:00h, o dia ainda não havia acordado, assim como a maioria das pessoas. O céu ainda estava pontilhado de estrelas e a escuridão se espalhava pela cidade.
No ponto de ônibus havia um rapaz. Ele observava a rua mudar de cor conforme era banhada pelas luzes intermitentes do semáforo. As cores saltavam em intervalos curtos de minutos, marcando o tempo de espera.
O rapaz estava sozinho como sempre estivera. A brisa da manhã iminente soprava delicadamente as folhas das árvores do outro lado da rua. O silêncio murmurava pensamentos inquietantes em sua cabeça.

Vermelho.

Ele é um rapaz camuflado em sua consternação, assombrado por suas frustrações e vítima de um egoísmo mascarado de caráter. Mas, ele não é uma má pessoa. Bem, talvez não para os outros.
Sua vida passeia por vales de incertezas e avenidas de solidão. Ele quis assim. Assim ele aprendeu a ser, não há que se julgar e apontar os defeitos alheios quando os próprios podem ser iguais ou piores. Ele é comum, aquela pessoa que cruza com você pela calçada, que espera na fila da padaria ou que se senta ao lado de ninguém para tomar um sorvete na praça.
Por vezes ele se dá ao prazer de sorrir e balbuciar algumas palavras, pois algumas palavras vão morrendo aos poucos se a gente não as usa e ele sabe disso.
Ele está parado no ponto.

Amarelo.

Ele carrega um celular no bolso, cheio de músicas, vazio de nomes. Ele não é do tipo que coleciona pessoas, ele apenas recolhe memórias e as guarda em um potinho debaixo da cama, receoso de que elas fujam e já não lhe pertençam mais.
Ele vaga por estradas desconhecidas em busca de algo que não sabe dizer o que é. Ele todo é um não saber doloroso só de ver. Alguns até dizem que ele não está à procura de coisa alguma, dizem que ele esta à espera.
Ao olhar para os lados ele constata que ainda está sozinho, todos ainda estão mergulhados na ebriedade do sono e estão esperando o despertar.
Ele está esperando no ponto.

Verde.

A vida é uma rodovia de mão dupla, cheia de idas e vindas. Cheia de “olá” e “até logo”.
Aqueles que agem são aqueles que vivem. Certas coisas não permitem espera. Certos momentos não acontecem com frequência.
As árvores do outro lado estão paradas. Elas sempre estiveram paradas, pois são enraizadas. Não é justo que uma pessoa crie raízes profundas. Existe a necessidade de movimento. Estar parado é estar condenado à mesmice. O tempo anuncia que nem ele mesmo para, jamais.
O ronco do motor denuncia que o ônibus vem chegando. O rapaz suspira profundamente, olha para a luz brilhante do sinal e esquece-se dos pensamentos que lhe martelavam há um minuto.

Ele ainda não entende que crescer requer o mínimo de paciência e responsabilidade, talvez um dia ele venha a descobrir isso e então perceberá que passou muito tempo parado no vermelho enquanto a luz verde indicava que era hora de prosseguir.

3 comentários:

Jessica disse...

"A vida é uma rodovia de mão dupla.."

Muito bom!
:)

Mary disse...

Bem assim!
Bom voltar aqui :)
beijoooos

Ana Carolina disse...

Esse texto do Rodolpho, como sempre está incrível! Gosto da forma como ele escolhe as palavras, como se fossem pedras preciosas.

Ana Carolina,
http://realezacontemporanea.blogspot.com.br/