quarta-feira, 21 de março de 2012

Do que repousa na luz



A maioria das pessoas não acredita no amor, elas apenas pensam que sim e no fundo desejam descobrir na própria vivência o que ele é.
Assim como a maioria das pessoas, ela acordava pela manhã e suspirava diante do espelho na esperança de que aquele dia pudesse lhe entregar o amor embrulhado numa embalagem dourada e amarrada com uma fita azul de cetim, mas em todos os fins de tarde ela tornava a suspirar consternada e dizia a si mesma que coisas desse tipo não são dadas ao acaso. O amor que todos exaltam, que os poetas idealizam e que passeia em canções apaixonadas e melancólicas é um amor raro. Ele está em extinção, é inseguro e arisco. Quem se arrisca a amar num mundo conturbado e totalmente adverso a esse sentimento?

A moça lembra-se de momentos felizes que o tempo tragou e sorri tristemente pela nostalgia adocicada. Seus olhos percorrem uma fita cinematográfica de capítulos passados e enchem-se de uma esperança abatida de que os próximos também serão tão ou mais encantados. A magia pode existir na vida real, basta estar atento para compreender quando ela se manifesta, então não espere por varinhas de condão ou feitiços de purpurina. O filme para. O tempo continua. Ele sempre continua a dar seus passos inconstantes rumo a um lugar que pode muito bem não fazer parte do mundo ainda.
Já disseram a ela que viver à sombra do passado a impedirá a ver as luzes do presente e seus ecos coloridos no futuro, mas algumas pessoas precisam aprender a ouvir além daquilo que querem escutar.

Outra manhã, outro suspiro, outro olhar rápido para seu reflexo incompleto e o rufar das asas da fé batendo alegremente. O dia certo. O dia que o amor lhe será entregue feito flecha certeira de um cupido que aprendeu que juntar casais errados não funciona muito bem. Ela então espera. Afinal o que há de se fazer? O amor, contrariamente, ao que muitos pensam, não se busca. Esbarra-se nele. Encontra-o aleatoriamente enquanto se procura por outra coisa. A vida é, ao mesmo tempo, uma crônica sem graça e engraçada. Uma fusão de contradições impossíveis, mas que acontecem. Uma montanha-russa cheia de subidas íngremes e descidas vertiginosas, portanto possuir uma boa dose de coragem é necessário para viver.
A noite veio embalada por uma ciranda de estrelas e por uma lua solitária, bela e impassível que dizia “hoje não foi o dia, moça do desamor. Não hoje. Hoje não” .
E ela se atira em meio aos lençóis revoltos e sente-se presa numa frustração irredutível feito areia movediça. E o tempo, como já é do conhecimento geral, apenas continua.

Estirada na cama ela assistiu a dança de despedida da noite e o espetáculo do alvorecer. Pela janela de vidro ela viu as cores do dia se desvendarem gradualmente. E um sussurro irrompeu no ar, feito a voz do vento – e dizia “dê um passo e venha para a luz do sol”.  Ela finalmente resolveu dar ouvidos ao que as palavras invisíveis aconselhavam e então se levantou da cama e mergulhou nos raios de sol.

Lá do outro lado da rua, ela o viu. Simples assim, um sorriso de bom dia. Nada de embrulhos nem de fitas. Inesperado – como ele sempre é.
Ela tornou-se minoria, pois ao invés de acreditar em algo que é vendido através de versos doces, ela o conheceu.

Se existe a tal de felicidade eterna? Quem sabe? Talvez ela esteja só esperando um esbarrão. 

Pauta para Bloínquês 

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