segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Segredo circense



O homem sentava-se sozinho, de olhos baixos e sobrancelhas franzidas, como se sustentasse o peso de um céu cinzento no olhar. Suas mãos inquietas esfregavam-se uma na outra enquanto ele esperava. Todos esperavam junto a ele, mas ele era sozinho.
O cheiro de poeira e gosto de terra preenchiam o espaço sob a lona. Vendedores circulavam pela arquibancada oferecendo algodão-doce, pipoca e churros. As crianças sorriam ansiosas. Os adultos esperavam impacientes. O homem encarava o picadeiro com um misto de temor e reverência.
A primeira atração foi a dança de uma poodle vestida de bailarina. A cadelinha girava e girava, as crianças gritavam, os adultos sorriam e o homem segurava uma lágrima. Em seguida os palhaços se apresentaram, o mágico, o domador de leão, os malabaristas e antes do fim do espetáculo o homem levantou-se suando frio, caminhou o mais rápido que pôde pelas fileiras de assentos, esbarrando em todo mundo e saiu do circo. Lá fora ele retomou o fôlego e sentiu o peito arder, por falta de ar e pela dor da culpa que o corroía por dentro e o fazia martirizar-se dia após dia. Show após show.

A moça olhava atentamente ao redor por trás das lentes retangulares de seus óculos. Ela era uma observadora. Em suas mãos segurava um caderninho de anotações e uma caneta que deslizava pela folha em branco, criando palavras. Sua função era escrever e descobrir histórias interessantes o bastante para serem publicadas.
A repórter escrevia sobre o circo. Aquela já era a quinta vez que assistia ao mesmo espetáculo. Já sabia de cor o que aconteceria, quais eram as piadas dos palhaços e as deixas do mágico. Ela sabia quando leão soltaria um rugido feroz e ensaiado. E sabia também qual seria a reação da plateia, ora apreensiva, ora encantada.
Observadora como era, ela não deixou de notar desde o primeiro dia que havia um homem que se sentava sozinho. Ela não o notou por causa de sua feição fechada nem pelo fato de ele não dividir um sorriso. Ela o notou, pois ele estivera ali todos os cinco dias e deixara a arquibancada exatamente na mesma hora. Antes da apresentação dos acrobatas.

No sexto dia de apresentação o homem sentou-se em seu lugar de sempre, mas desta vez não foi a solidão quem lhe fez companhia. Uma moça, de olhos rápidos e mãos ainda mais rápidas, sentou-se ao seu lado.
- Eu sei quem é você – ela disse sem preâmbulos e o encarou. Seu olhar não deixava pistas de que se tratava de uma brincadeira.
- E eu não sei quem você é – ele retrucou, sua voz era baixa, mais carregada de melancolia do que seu olhar.
Ela deu de ombros sem se importar e pregou os olhos no espetáculo que começava e permaneceu calada o tempo todo. Assim como esperava o homem levantou-se antes da última apresentação.
- Não é educado deixar uma mulher sozinha – ela finalmente falou.
- Você não está sozinha.
- Nem você.

Do lado de fora ele observou um céu estrelado e deixou uma lágrima escorregar para fora e atirar-se na grama. A moça aproximou-se e disse:
- Eu percebi que havia algo de diferente em você quando você deixou o circo no primeiro dia. Quando isto se repetiu eu tive a confirmação de que havia algum segredo. Eu sou curiosa e fui buscar o que poderia ser. Encontrei isso – ela lhe entregou um recorte velho de jornal. Ele apanhou o papel amarelado e leu o título da manchete.
“Acidente em circo causa a morte de malabarista”
- Eu não consegui segurar a mão dele – o homem declarou e deixou que outras lágrimas vissem a luz do luar – Seus dedos roçaram os meus e o vi despencar lá do alto, tínhamos tirado a rede de proteção. O silêncio que encheu o picadeiro quando o som abafado de sua queda cessou foi como uma faca rasgando minha pele. Todos os olhares me julgando, dedos apontando em minha direção e sussurros percorrendo a arquibancada. Como você acha que eu me senti?
- Foi um acidente – ela disse.
- Não, foi um erro. Meu erro. E nada vai mudar o que aconteceu.
- Você precisa de paz. Venha – ela tocou sua mão e o conduziu de volta ao circo.
O homem assistiu ao espetáculo dos acrobatas e se viu aplaudindo energeticamente quando eles saudaram o público. Então ele sorriu. Um sorriso tímido de quem passou muito tempo sem sorrir e se esqueceu de como se faz. Um sorriso vitorioso de quem percebe que ventos do passado não movem folhas de árvores do presente.
- Obrigado – ele conseguiu dizer.
A moça fez um gesto com as mãos de quem não fez nada e deu-lhe um sorriso.

No outro dia os dois assistiram ao espetáculo até o fim e deste dia em diante ele não foi mais sozinho e seu olhar desanuviou-se. E ela não deixou de buscar a história perfeita para o jornal.
- Dizem que o domador tem um caso com a mulher barbada – ela disse entre risos – Acho que essa seria uma boa história para minha coluna.
Ele soltou uma risada, meneou a cabeça e voltou sua atenção para o mágico que estava prestes a serrar uma mulher ao meio.

4 comentários:

Renata Angra disse...

Sempre palavras muito bem colocadas, que trazem exatamente a sensação do momento imaginário real.... encantador...

Paty Oliveira disse...

Conheci o blog pelo projeto bloinques,e tipo,aqui é muito lindo. Textos muito bem feitos!!
Parabéns!
http://blogmundoimperfeito.blogspot.com

Babi Farias disse...

Personagens são isso o que cada artista de circo é frente à plateia. Nunca sabemos suas verdadeiras histórias, quais são suas perdas, dores e aflições e se, realmente, há motivo para sorri sempre no picadeiro.
Você traça seus contos com tanta vivacidade mesmo retratando tristezas que acho que sejam reais.

Beijos, Rod.

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Você tem uma maestria com as letras meu amigo. A história se intercala com tamanha naturalidade que fica evidente o encanto sutil, mas primoroso no enredo que emociona. Tocas em assunto com sensibilidade sem igual...

Adoro seus contos...

Abração!