sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Respirando arco-íris


 (...) Somewhere over the rainbow blue birds fly
And the dream that you dare to, why, oh why can't I? 

Era ela que eu via através do vidro de minha janela. A comedora de nuvens.
Eu sempre a admirei por seu entusiasmo e disposição de se atirar ao vento sem medo de cair, quanta imprudência para uma garota de pensamentos flutuantes, mas é claro que ela deveria ser leve feito pluma e planaria no ar graciosamente antes de atingir o chão.
Toda manhã ela corria até o balanço e corajosamente dosava a impulsão perfeita para uma decolagem digna de um pássaro pomposo e então a gravidade, insistentemente, a puxava de volta e ambas brincavam. Nesse vai-e-vem os sorrisos dela refletiam a luz do sol, como se cada raio do grande rei se curvasse diante a magnífica curvatura dos lábios finos da garota no balanço.
O vento dançava ao redor dela, tentando agarrá-la vez ou outra, mas ela sempre escapava de seus dedos instáveis e invisíveis, desistindo de sua missão nada secreta, o soprador de brisa se tornava mais ameno e acariciava os cabelos dela que saltavam de emoção de um lado para o outro.
Eu nunca cheguei a ouvir a sua voz, mas podia imaginá-la nos mínimos timbres. Ela deveria soar como notas musicais fugitivas das teclas de um grande piano de cauda, assim como uma melodia suave que escutamos em dias nublados. E também seria delicada como a pétala de uma rosa, que lhe pesa as pálpebras ao deslizar pela pele.
Os olhos da garota no balanço são carregados de potes de esperança que jamais se esvaziam ou ficam meio cheios. Eles pulsam vida, talvez até demais, uma sede que ao invés de saciada se derrama pela grama verde. Não sei quais suas cores, mas imagino que contenha um emaranhado de matizes vivas.
A doce garota que sobe alto entre o céu e a terra e depois se prende ao mundo terreno emana um tipo de sensação que contagia a todos ao seu redor.
Entretanto eu não deixava de ficar triste a cada noite quando minha mente vagava nas lembranças grudadas no vidro, pois assim como eu, ela corria desenfreadamente rumo a um beco sem saída. Se ela estava ali, naquele mesmo prédio branco, impessoal e ladrão de almas juvenis, era porque não havia mais o que fazer. Aquela era nossa última parada, a estação final de nossa viagem que durou menos do que deveria.
Eu sempre a vi pela janela, pois nunca pude sair de meu leito, nunca pude caminhar com minhas próprias pernas, pois meus movimentos foram tomados de mim antes mesmo que eu soubesse que os possuía e minha consistência frágil não me permitia contato com as pessoas de fora.
Apesar dos encantos das manhãs ensolaradas, o que eu mais gostava ali era dos dias de chuva. Enquanto as gotas finais eram espremidas das nuvens, um grande pincel desenhava no céu as linhas de um arco-íris opaco que se intensificava lentamente. Nesses dias, eu via a garota sair pelo campo, olhar para o alto, empinar o nariz e respirar os tons que vertiam do imenso quadro.
Se ela podia respirar arco-íris, eu poderia então respirar sonhos. Embora metade de mim seja preto e branco, a outra metade transborda cores.
Toda noite pergunto à lua se aquela será a noite de meu último suspiro e ela lá de cima, silenciosamente bela, finge-se de desentendida e nunca me responde. Um dia essa noite chegará. Um dia a garota do balanço também recolherá os grãos de vida que lhe foram tirados e os colocará numa mala para uma nova viagem. Não posso dizer quem de nós partirá primeiro, enquanto isso eu verei a cortina noturna se abrir para o dia subir ao palco e assistirei a estrela maior da peça brilhar no teatro da vida.
Subindo e descendo. A inventora de risos.

Um comentário:

Lívea Colares disse...

Muito lindo mesmo! Adoro seus textos!