quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O moço perfumado


O céu daquele dia estava desprovido de cor, como um enorme manto branco, no qual o sol resolvera se esconder atrás. O vento soprava levemente, apenas um suspiro curto que falhava em movimentar as folhas das árvores.
A moça caminhava lentamente em direção ao ponto de encontro, estabelecido anteriormente em uma ligação. Ela chegou ao local, sentou-se e checou o relógio. Aquele era um dia em que os ponteiros trabalhavam sem disposição e cada volta parecia durar o dobro do tempo que realmente levava.
Os pensamentos dela vagavam em lembranças boas e em problemas que requeriam sua intervenção, ela tinha algumas decisões a tomar, assim como todo mundo sempre tem, mas acaba deixando de lado só pelo prazer de saborear a nostalgia que flui na memória.
Apoiando a cabeça no braço, ela fechou os olhos e sentiu um torpor tomar conta de seu corpo, que cedia sem muita relutância. Foi nessa hora que ele passou.
Ela ouviu os passos abafados se aproximando, sentiu sua presença e, acima de tudo, sentiu seu cheiro. O cheiro almiscarado flutuava pelo ar parado, dançava em rodopios e ia em sua direção. Um cheiro suave e ao mesmo tempo envolvente.
O perfume que exalava em toda direção, dava voltas em sua cabeça, saltitava pelas imperceptíveis correntes de ar, subia ao céu pálido e retornava ao chão ainda quente e penetrante. Um cheiro capaz de acalmar e despertar, em uma mistura abrangente de sensações.
O rapaz passou indiferente à moça que estava sentada ali, em passos largos deixando seu cheiro para trás, ela ainda encarava as costas dele, lutando contra um desejo de correr atrás daquele estranho e juntar os fragmentos de odor que ficavam pelo caminho. Ela não vira seu rosto, nunca saberia seu nome, mas tinha certeza que reconheceria aquele cheiro em meio a centenas de outras fragrâncias. O aroma proveniente do homem sem rosto grudara em suas roupas e se fixara em cada mínimo grão de poeira que vagava pelo ar.
- Quem é ele? – uma voz perguntou, tirando-a de seu transe perfumado.
- Eu não sei, não conheço – ela respondeu, levantou-se e beijou seu namorado.
Ela voltou a olhar para o relógio e percebeu que não tinha esperado muito tempo.
- Vamos, então – ele disse, colocando um braço envolta dela.
Ela balançou a cabeça positivamente, deu uma última olhada para trás, mas o estranho já havia sumido de vista.
- Tem algum problema? – ele perguntou, olhando na mesma direção que ela e dando de cara com o nada.
- Não, está tudo certo – ela respondeu e o abraçou. Ela cabia perfeitamente em seu abraço e seu rosto se encaixou no pescoço dele, seu nariz roçou a pele lisa e cheirosa. Ela respirou profundamente e então percebeu que aquele cheiro, grudado em seu namorado era muito melhor do que um cheiro solto pelo ar, sem dono e sem direção. Um cheiro singular que ninguém mais possuía. Um aroma apaixonante que pertencia só aos dois.
- Eu gosto do seu cheiro – ela disse e absorveu mais um pouco daquele cheiro num rápido suspiro.
Ele apenas sorriu, deu-lhe um beijo no rosto e começou a contar como tinha sido seu dia, à medida que caminhavam para longe dali e para longe de um certo perfume que começava a se dissipar pelo ar.

Um comentário:

renatocinema disse...

Amei o início: Céu desprovido de cor, vento que suspirava movimentando as folhas.

Adorei