terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Do tempo que escorre pelos dedos


♪ (...) I don't know where
Confused about how as well
Just know that these things will never change for us at all... 


Passeei pelo parque – o ar fresco sob a copa das árvores, antecipando o crepúsculo, refrescou minha memória e sacudiu a poeira das lembranças, levando-me diretamente até ela, até o passado que há muito se foi e até as pegadas de um caminho que jamais existiu – finalmente encontrei aquela velha mesa de madeira bruta e sentei-me. A esperar.
Os minutos pareciam brincar de sentar nos ponteiros e não deixá-los se mover, assim o tempo suspirava placidamente e esperava seu próprio tempo acontecer. Um vento manso abraçou cada árvore do parque e por fim se enroscou em meu suéter surrado e pôs-se a me fazer companhia. E eu continuei a esperar.
Eu podia jurar que ouvia os sussurros das pessoas, distantes, indagando uma para as outras os motivos de um velho sentado sozinho, mas não havia ninguém ao redor. Estávamos somente eu e a brisa correndo atrás das folhas caídas, como uma criança travessa.
Meu discurso estava perfeitamente montado em minha cabeça – eu só esperava tê-lo decorado para não engasgar com nenhuma palavra, não posso me dar ao luxo de nenhum vexame – assim que ela chegasse, valsando em sua vigorosa altivez eu lhe diria:
- O tempo foi cruel com nossas vidas, o destino arquitetou estradas separadas para duas almas solitárias que aprenderam a se conectar. Nossos corações se encontraram e vestidos na ignorância levaram muito tempo para perceber que pertenciam um ao outro – nesse momento eu a visualizo abrindo a boca para pontilhar algum argumento, mas eu ergo a mão de imediato e continuo – Fomos vivendo nossas vidas, cada um mergulhado na própria dúvida do que poderia ser e na incerteza do que não poderia. Fizemos planos, sonhamos tão alto quanto pudemos e dentre tantas coisas, negligenciamos nossos sentimentos, abafando-os com falsas desculpas e fingimentos. Mentimos descaradamente para nós mesmos e o mais doloroso foi a crença que depositamos naquelas mentiras. Em algum momento do caminho você soltou a minha mão e decidiu que era hora de voar sozinha ou em busca de um aperto mais forte que te fizesse ficar e eu passei muito tempo encarando o vazio de minhas mãos e me esqueci de que ainda havia uma vida para viver.
As lágrimas dela estariam caindo a essa altura, mas eu estaria por perto para secá-las e assim preencheria a lacuna dos meus dedos.
O crepúsculo abriu a porta para a noite entrar e eu fui arrebatado pela realidade. Eu havia esperado em vão, ela não viria. Seus pés ainda não estavam preparados para aterrissar e a outra mão que a segura é realmente forte. Tão forte que roubou de mim aquilo que nunca me pertenceu.
Talvez em algum universo paralelo nossas vidas não se desencontrem e talvez lá as estrelas se alinhem para dar forma ao nosso amor.
É hora de encontrar meu caminho de volta para casa, um parque escuro não é o lugar ideal para um velho solitário e o sereno também pode ser incrivelmente perigoso. 

Pauta para Bloínquês

2 comentários:

renatocinema disse...

Uma fotografia triste.....para um texto triste.

Ou seja, adorei.


Cada vez que leio o site sinto o crescimento dos textos.

Parabéns

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Cheira a melancolia. Realmente triste o que se sucede às vezes por conta do destino, digo, das escolhas. Porque no fundo são nossas escolhas que regem o destino. O destino é apenas um rascunho pelo qual nós é quem pintamos.

Que pena que não souberam escolher. E acabou assim...

Abraço!