segunda-feira, 7 de novembro de 2011

No aeroporto

Por ser piloto de avião, eu vivia mais nas nuvens, literalmente, do que com os pés no chão. Eu passava muito tempo longe de casa e levava a saudade sempre como co-piloto. Eu ía de um país ao outro, ficava dias por lá até retornar e esse é o preço que se paga por um sonho. Sempre quis ser piloto, sempre quis ter a sensação de que o céu era o limite, mas isso foi antes de eu me apaixonar. O amor, às vezes, chega em horas inconvenientes, devo confessar.
Eu estava no aeroporto, comendo um croissant intragável e tomando um café amargo quando ela passou por mim, lutando com a bagagem de mão. Me ofereci para ajudá-la e assim que nossos olhos se encontraram foi... normal. É, não acredito nisso de amor à primeira vista. Mas eis que outro dia, no meu horário de descanso eu topo com ela de novo, mesmo problema, a bagagem. A ajudei novamente e dessa vez nossa olhar cruzado, meio de esguelha, teve um brilho diferente. E na terceira vez (sim houve uma terceira vez, e por incrível que pareça eu desejei que essa vez chegasse, pois ela sempre estava nas alturas em meu pensamento), eu a convidei para um café. Ela aceitou e começamos a falar da vida.
Ela era professora e uma daquelas mulheres desastradas capazes de quebrar alguma coisa só de tocar. E ela estava me falando sobre isso.
- Eu costumava ser muito mais desastrada, sabe? Mas mudei muito, por exemplo, já consigo colocar os ovos na geladeira sem quebrá-los. - ela contou rindo e prosseguiu - Uma vez fui ao dentista e enquanto ele estava fora, esbarrei em um aparelho que se ligou e fez um estrago enorme no estofamento da cadeira odontológica, tive que arcar com a despesa, é claro - ela riu e derrubou a xícara de café. E nós rimos. Fazia muito tempo que eu não ria daquela maneira e depois desse dia marcamos de sair mais vezes.
Toda vez que nos encontrávamos, eu falava sobre minhas viagens e ela contava suas trapalhadas.
- ... e os pacotes de gelatina caíram da prateleira enquanto eu tentava apanhar a garrafa de refrigerante que eu atirei para cima, sem querer. Queria que você estivesse lá, sinto muito a sua falta e nosso tempo juntos não é o suficiente - ela relatava sorrindo um desastre no supermercado e emendou outra sentença que mal percebi. Ela falava rápido e juntava um assunto ao outro.
- Sinto a sua falta também e o tempo que temos, se estamos atentos, será sempre exato - eu disse e ela sorriu concordando com a cabeça.

Eu ainda continuo viajando, ela continua com suas aventuras cômicas, mas uma aliança em nosso dedo nos une, não importa onde estamos. Adoro voltar para casa e ter que arrumar alguma cadeira quebrada e comer bife queimado enquanto ouço as histórias de minha mulher. Estamos felizes juntos. A gente meio que se completa, sabe? Ela quebra e eu conserto, coisas assim.
E nosso amor é o que importa, pois esse é inquebrável.

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