domingo, 23 de outubro de 2011

Sob o sol de verão



♪ (...) They don't know how long it takes
Waiting for a love like this
Every time we say goodbye
I wish we had one more kiss
I'll wait for you, I promise you I will... ♫
Lucky - Jason Mraz e Colbie Cailat

Final de novembro

Ele é o primeiro a me abraçar e beijar quando o dia começa, seus raios sorridentes atravessam as cortinas e me envolvem e acariciam com aquele toque morno que possui a cada manhã. Sempre adorei o sol e os prazeres que ele proporciona.
Olho o calendário e conto os dias para o início do verão, minha estação favorita. Depois de ter passado pela secura do outono, pela frieza do inverno e ter dançado nos jardins coloridos da primavera, anseio pelo momento de saudar a gloriosa estação das chuvas ligeiras e dos mergulhos no lago.
O lago. Da janela vejo a luz bailar em sua superfície em cortinas diáfanas derramadas pelo céu. Sinto o seu cheiro puro e convidativo. Aprendi a nadar ali mesmo, naquele lago, quando tinha cinco anos, dizem que fui o garoto mais novo a mergulhar naquelas águas sem a companhia de adultos, mas não sei dizer se isso é verdade.

21 de dezembro

Acordei logo cedo, saudei o sol, o ar e o dia. Corri para fora para sentir o frescor daquela manhã que se aquecia aos poucos. Desci descalço pela ladeira que leva ao píer e sentei com os pés dentro d’água. O lago espelhado me sorria como se me reconhecesse. O vento sacudia e despenteava as árvores ao fundo, que pareciam encenar uma coreografia sincronizada.
Com o sol do meio-dia a pico, várias pessoas desciam a encosta em direção ao lago que recebia a todos com suas águas mansas. Eu observava os casais de mãos dadas, os pais gritando tentando controlar a euforia das crianças, as solteironas de olho nos rapazes e as garotas deslumbrantes em seus trajes de banho.
De repente minha visão foi coberta por uma canga amarela que o vento atirou em meu rosto e sua dona veio correndo se desculpar e pegá-la de volta. Seu sorriso receoso e escondido no canto da boca me fisgou como os peixes que os quarentões puxavam para os seus barcos.
- Me desculpe, foi o vento, ah... - ela falou meio sem jeito.
- Não tem problema - eu disse - Você não é daqui, é?
Como se fosse uma velha amiga, ela se sentou ao meu lado, afundou os pés nas águas brandas e respondeu que não.
Conversamos por um longo tempo, ela esbanjava simpatia e bom humor e seu jeito me cativava a cada minuto que passava.
No fim da tarde, a convidei para dar um mergulho e ela prontamente jogou a canga no píer e saltou na água.
- Vamos ver quem chega primeiro até a outra margem? - ela me desafiou e começou a nadar.
Tirei a camiseta e pulei em seguida, tentando alcançá-la. A moça sorridente se mostrou uma exímia nadadora, mas paramos antes de chegar ao outro lado.
- Acho que encontrei um motivo para voltar sempre aqui no verão - ela me confidenciou.
- O lago é maravilhoso mesmo - eu respondi ingenuamente.
- Não é o lago, seu bobo - ela retrucou rindo-se e jogou água em mim - É você.
Eu não soube o que responder e antes que pudesse fazer isso ela se aproximou, feito uma sereia encantadora e me deu um beijo molhado.

Passamos o resto das férias juntos, até o dia em que ela teve que ir embora. No último dia, nadamos até perto das árvores e juramos esperar o próximo verão para nos reencontrarmos.

Por isso eu amo o verão, porque ele traz amores inesperados e surpresas magníficas. Agora percebo como as outras estações são sem graça.
Enquanto espero por ela, começo a contar os dias outra vez.

2 comentários:

Rafael Alvim disse...

Conto lindo! Não há lugar melhor do que as águas para se começar um amor ou qualquer outra coisa.

renatocinema disse...

Apesar de particularmente preferir o inverno, apreciei seu conto e essa linda poesia de amor.


O sol sempre tem seu charme.