sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Pedaço de tempo

- Talvez as pessoas devessem olhar para trás de vez em quando ao invés de se importarem tanto com o que tem pela frente – eu disse a vovó um dia.



Minha avó tem uma casa grande e antiga, dos velhos tempos em que o verde era uma cor conhecida pelas pessoas e das palavras perdidas. O futuro tratou de afugentar muita coisa durante seu caminho ininterrupto e sinto que muitas delas eram valiosas.
A casa de minha avó tem um baú de madeira, daqueles que foram montados quando ainda existiam árvores e toda uma fauna que hoje só se vê em fotografias e chamamos aquele baú de "pedaço de tempo", pois vovó guarda nele várias coisas antigas que deveriam ter sido preservadas.
- O que é isso? – eu perguntei certa vez segurando um objeto estranhamente familiar.
Ela sorriu com seu jeito amável e cansado e falou:
- É um diário.
- As pessoas escreviam em papéis no seu tempo, vovó?
- Sim, era uma prática muito comum – ela respondeu. – A maioria das palavras se perderam quando as pessoas deixaram de lado seu contato com elas.
- Mas você se lembra de todas, não é?
- Pelo menos das mais importantes, sim – ela sorriu enquanto eu folheava o tal diário, tão obsoleto e ao mesmo tempo tão singelo. – Você já ouviu falar em nostalgia?
Pensei por um momento e percebi que estava diante de uma das fantásticas palavras perdidas, sem me demorar sacudi a cabeça.
- Nostalgia é um sentimento ameno que te cutuca o peito e dá uma saudade gostosa de tempos que já se foram.
- Saudade? – eu perguntei intrigado.
- A saudade é a falta de um pedacinho de seu coração que se perdeu pelo caminho – ela contou com os olhos brilhando. Sempre gostei de conversar com ela e vê-la trazendo as palavras de volta à vida, mesmo que muitas vezes suas descrições não fizessem o menor sentido para mim, eu sei que as pessoas de seu tempo sabiam exatamente o que ela queria dizer.
- Eu queria ter nascido naquele tempo – eu confessei.
- Foi uma época boa para se nascer – ela comentou. – Apesar de haver muita coisa ruim, houve momentos de paz e solidariedade.
- Solidari... o quê?
Ela soltou uma gargalhada leve e acho que o som seria como folhas se arrastando no vento do outono, mesmo sem nunca ter escutado.
- As pessoas costumavam ajudar umas as outras, não a maioria delas, é claro, mas uma parte da humanidade tinha um bom coração. Hoje em dia falta amor e reciprocidade.
- Não conheço estas duas palavras vovó – eu disse encabulado, havia muita coisa que eu não conhecia e minha sede de conhecimento era grande.
- Sente-se aqui – ele indicou seu colo e apanhou o diário de minhas mãos. – Para lhe falar sobre o amor é preciso contar a história de quando conheci seu avô, pois foi exatamente ele que me apresentou o tal do sentimento.
Meus olhos se arregalaram e eu me aninhei em seu colo, esperando ansiosamente pelo início de sua história, já desejando viver uma igual.
Ela começou a ler as velhas palavras nas folhas amarelas do diário e eu me senti tragado para uma viagem ao passado, onde tudo parecia ter sido mais vivo e cheio de amor, ainda que eu não saiba o que ele significa.
Vou ficar quietinho agora para ouvir atentamente, se nos toparmos outra vez pode ser que eu lhe conte o que é o amor, se não, boa sorte em encontrá-lo.

3 comentários:

renatocinema disse...

Quem valoriza o passado, enriquece o presente e ganha no futuro.

Bela história.

Alexandre Fernandes disse...

Há coisas boas que ficaram. E as lembranças são os diamantes que levamos do tempo passado. Relíquias de aprendizados que servem para dar firmeza na pegada presente.

O conto tem uma sensibilidade sem igual. Só mesmo característico de ti meu amigo. Mais uma vez, parabéns!

Abração!

ps: vê se aparece!

Renata Angra disse...

Rodolpho defino você "Poesia e sintonia" Te amo