quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A moça que virou flor



Por diversas vezes ela caminhou de mãos dadas com a solidão, conversando com ninguém. Ela preferia aquele silêncio tão barulhento que sufocava seus ouvidos e se deliciava com o canto tímido e vazio do vento e com as matizes do céu.
“O céu é o limite”, alguém uma vez lhe disse, mas como questionadora que ela sempre havia sido, obviamente discordou de tal afirmação, pois dizer que o céu é o limite é dizer que não há nada além dele e ela acreditava que havia. Aliás, acreditar também era algo que ela gostava de fazer, não por ser de sua natureza ingênua, mas por lhe fazer bem. Não adianta passar pela vida sem o mínimo de fé, a esperança lhe impulsiona para o amanhã, era assim que ela pensava.
Uma garota como ela, sozinha, sem encanto e sem grandes ambições deveria carregar em seu peito uma porção demasiadamente grande de tristeza, contudo isto nunca foi problema. Às vezes a tristeza tem o gosto doce, ela dizia, e eu gosto de doces.
Os dias de sua vida se tornaram tão iguais que pareciam repetições de um roteiro mal escrito, mas ela não se importava. Ela apenas se sentava em meio àquelas milhares de flores sem nome e encarava o céu, que não era o limite, afinal.
Seus pensamentos viajavam tão rapidamente que lhe causavam vertigens, por isso todos eles sempre pareciam vultos em movimento, borrões de cores inidentificáveis. Eles fluíam de uma forma constante e despretensiosa, vindos de lugar nenhum, indo para lugar nenhum.
O futuro era uma grande incerteza, talvez a maior de todas e ela não se dava ao luxo de tentar desvendá-lo, apesar de vez ou outra sentir aquele impulso curioso de bisbilhotar o que vem pela frente. É como uma saudade de um tempo que ainda não passou, ela dizia para as flores ao seu redor como se precisasse lhes dar satisfação, é a vontade de saber se o que me espera vale a pena.
Ela nunca soube o que viria, por isso sobressaltou-se e seu coração deu um salto quando certo dia ela tentou se levantar e viu que seus pés haviam se enraizado na terra fofa. As flores sacudiram-se agitadas, cochichando no ouvido umas das outras e a notícia rapidamente se espalhou. A moça estava se tornando uma delas, uma nova flor criada pelo tempo.
Assim que o susto passou, ela desistiu de levantar-se e como sempre fizera em sua vida, resignou-se. Aceitou o fato de que era ali o seu lugar e que não havia nada que pudesse fazer.
E outra vez nos deparamos com o futuro, que além de tudo é cheio de surpresas.
Naquela noite um acanhado beija-flor apareceu para dar boa noite para as flores e muito inseguro se aproximou daquela flor que não estava ali nas outras vezes. Sem fazer barulho ele beijou-lhe a testa e preparou-se para ir embora, mas a flor despertou e então percebeu a grande jogada do destino quando encarou os olhos daquela criatura tão serena.
Ela precisou virar uma flor para descobrir que em algum lugar alguém esperava por ela. Que sua solidão apenas a prepara para aquele momento e que havia sabores mais doces que o da tristeza.


O beija-flor voltou-se para ela e pousou em suas pétalas macias, de onde nunca mais sairia.

Pauta para Bloínquês


3 comentários:

Gessy disse...

Texto belíssimo! Parabéns!
Estou sem palavras, posso dizer apenas que eu gosto muito de doces...

Letícia R. disse...

Ah! Que LINDO! *-*

Alexandre Fernandes disse...

Muito sensível. Uma história realmente tocante. Uma intervenção bonita do amor. Algo incapaz de se imaginar, mas aconteceu.

O final é supremo e belo. Amoroso e delicado. Você se superou meu amigo...

Abraço!