segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O homem que se apaixonou pela lua

Ele era um homem solitário, de poucos amigos e poucas palavras. Ele guardava somente para si os sentimentos bons que sentia e com isso os afogava em seu próprio ser.
Ele tinha um segredo que poderia torná-lo insano à vista das outras pessoas. Esse homem toda noite vai para a sacada de sua casa e flerta com a lua. Ele era um homem apaixonado pelo corpo celeste brilhante e regente das marés.
O homem que foi seduzido pelo encantamento da rainha da noite, passava o dia todo a esperando surgir, para admirar a sua luz que banha o mundo sem fazer distinção.
A paixão completamente platônica dele surgiu em uma noite depressiva, em que ele estava deitado na cama, vasculhando memórias de dias felizes, suspirando por desejos não realizados... Uma luz tímida se esgueirou através da cortina fina que a brisa teimava em sacudir e quando ele finalmente a contemplou seu coração pareceu se encher com toda aquela luz e ele soube que havia encontrado seu grande amor.
Você pode até dizer que a solidão tirou sua sanidade, mas o que ele sentia desmentiria sua opinião, até porque a gente nunca sabe de quem vai gostar, ou nesse caso, do que vai gostar. Vou concordar que isso tudo soa absurdo demais, eu mesmo fiquei pasmo quando soube dessa história.
Ele não era um homem com desejo de ser astronauta para pisar na lua, ele queria o amor dela, queria que ela virasse o rosto para sua direção e atirasse beijos flutuantes de estrelas cadentes, mas é claro que isso nunca aconteceu.
Passei uma ou duas vezes pela sacada dele enquanto voltava de festas noturnas e ele estava lá, olhando para o alto, ora brigando com algumas nuvens traiçoeiras que encobriram sua amada, ora conversando com sua donzela de luz. Sabe que eu não o achei maluco nesses dias, eu simplesmente sorri, abaixei a cabeça para dar-lhes privacidade e continuei meu caminho.
Quem sou eu para julgar o sentimento de alguém? Quem sou eu para dizer que uma pessoa está louca por ter dentro de si um coração apaixonado?
Todo romance, por mais água-com-açúcar que seja, mostra que o amor pode nascer dentro de qualquer um e que coisas impossíveis podem acontecer se você acreditar com fervor e fizer tudo o que estiver ao seu alcance.
Não sei se você, assim como eu, acabou simpatizando-se com a história desse homem louco de amor, mas obviamente não houve um final feliz para o casal, sinto informar.
Mas eis aqui o que aconteceu:
- Esse prateado da lua aí, é só fachada – uma moça falou olhando para o homem na sacada.
- E o que você sabe sobre a lua? – perguntou ele irritado.
- Sei que ela nunca vai te amar de volta – rebateu ela.
As palavras dela lhe atingiram como um soco no estômago, tiraram-lhe o ar por um momento e o fizeram engolir o que quer que fosse que ele daria como resposta.
Ele olhou para sua musa inspiradora lá no alto, que nunca lhe sorriu nem retribuiu com um mero aceno e se perguntou se era verdade que tal sentimento bombeado pelo seu coração nunca poderia ser retribuído. A luz pálida e silenciosa friamente mostrava-lhe que sim, que a lua poderia irradiar o mundo com sua luz apaixonante, mas ela nunca seria capaz de amar alguém.
Ele suspirou cabisbaixo, derrotado pelo próprio sentimento irreal, como uma semente que ameaça brotar para depois morrer sufocada. Tudo aquilo era uma ilusão que ele criara para não viver sozinho, tudo estava em sua cabeça, contudo se seu coração era grande o bastante para acomodar um amor lunar, com certeza suportaria qualquer tipo de amor.
- Você tem razão, a lua nunca vai me amar, talvez você pudesse me mostrar alguém que possa – ele jogou as palavras para a moça lá embaixo.
Ela sorriu, surpresa com a resposta, acenou de leve com a cabeça e esperou o homem descer para se juntar a ela.
E assim, a moça da sacada da frente, que observava o apaixonado solitário toda noite, venceu o duelo contra a gigante do céu.

Passei na frente da casa dele a noite passada e presenciei um beijo cheio de amor sob a luz da lua e quando olhei para o alto, vi que ela sorria para o casal.

Um comentário:

Jéssica Trabuco disse...

Nossa Rodolpho, que texto lindo, parabéns :)