sexta-feira, 8 de julho de 2011

Porque aquela pessoa será sempre ela


Mariana ouviu meus passos vindos da cozinha e percebeu que eu me aproximava dela. Ergueu as pálpebras dos olhos sonolentos e os fitou em mim enquanto a boca se movia, pedindo que eu a levasse para o quarto. Eu a olhava, pensando em como podia estar meu amor tão dócil, frágil daquela maneira ali naquele sofá. Tomei-a em meus braços, segurando-a firme. Ela se segurou em mim de modo que seus braços ficaram envoltos em meu pescoço. Caminhei com ela até no quarto, onde a coloquei na cama cuidadosamente. Curvei-me um pouco a seu lado, observando-a enquanto ela apoiava a cabeça com uma mão na testa. Ela sempre fazia isso quando estava preocupada. Então estendi minha mão direita, para que ela segurasse. Como a dizer: “Segure minha mão. Está tudo bem, eu estou aqui.” Era como um ritual. Sempre fazíamos isso quando ela ficava preocupada. Mas ela estava doente agora. E eu podia senti-la aflita.
Ao que ela tocou sutilmente em minha mão, segurando-a, senti o frio que pairava em sua pele. Fiquei ali em pé ao seu lado, segurando a pequena mão enquanto aqueles olhos se fixavam nos meus, pedindo que eu me sentasse. Era incrível a forma que ela tinha de falar me olhando, sem pronunciar palavra alguma com a boca. E então, antes que ela dissesse algo, sentei-me. E sem tirar meus olhos dos dela, pude ver que o olhar dela tremeluzia. Eram lágrimas que começavam a nascer. Doía-me no mais fino dos meus sentimentos vê-la sofrer. Ela tinha medo de morrer. E eu a olhava, jurando que ela me falaria que estava com medo de que a doença a matasse. Mas então as lágrimas se desprenderam e, ela começou a falar num tom angustiado enquanto parecia selecionar suas palavras, como quem não sabe por onde começar:
- Eu vou ficar... Feia. Meu cabelo vai começar cair. Já não sei se posso acordar viva amanhã. Allan... – Começou a falar falhado, como quando se entra em desespero – Não vale mais a pena ficar comigo. Eu tava pensando na hipótese de... De você me deixar! – Tampou metade da face com uma das mãos enquanto chorava. Eu olhava-a com atenção, mas de repente esbocei um sorriso depois daquelas palavras.
Coloquei a ponta dos meus dedos em seu rosto e acariciei-lhe a face com afeto para confortar a dor que ela sentia e que eu podia tomar dela. Sem pensar em falar, já estava falando com toda minha sinceridade:
- Você ainda será linda, até mesmo quando seu último fio de cabelo cair. Todos nós corremos o risco de dormirmos e amanhecermos mortos, meu amor. Até os que não possuem alguma doença. Acho lindo você não querer que eu te deixe. Mas eu não te deixaria, mesmo se me permitisse ou então se me mandasse te deixar. Acho que não sou homem suficiente pra viver sem uma mulher. E esta mulher, é especificamente, você. A minha mulher. – Fui falando enquanto me deitava ao lado dela. - A mulher da minha existência. Eu preciso de você, assim como precisa de mim. – Passei um braço sob seu pescoço, puxando-a para mim, de modo que sua cabeça deitou em meu peito. - Então durma tranquila, amor. Estarei aqui com você toda vez que abrir os olhos. Sempre valeu a pena estar com você. E nada mudará esse fato.
Já se confortando em meus braços, vi que ela passou os dedos em baixo dos olhos, secando as lágrimas e fechou-os. Mantive-a ali, abraçando-a, protegendo-a. Algo me dizia que ela gostou do que tinha ouvido. Ouvir os batimentos do meu coração a acalmava. Ela adorava dormir com a cabeça em meu peito. E naquela noite, não foi diferente. Porque ela precisava me sentir pertinho e eu precisava tê-la em meus braços, cuidar dela.
Senti o ar quente que saía de suas narinas alcançarem minha mão esquerda. Eu Inalava o cheiro bom que vinha do cabelo dela. Sorri. A sensação que eu sentia em tê-la comigo, era a mesma desde o dia em que me apaixonei por ela. Só que melhor ainda. Porque aprendi que quando a gente ama mesmo, não importa o que a pessoa tenha, o que ela faça, ou o que quer que seja. Sempre vamos amá-la cada dia mais que o anterior. Sempre vamos querer tê-la perto da gente, cuidar dela. Porque aquela pessoa será sempre ela. Incondicionalmente. Insubstituivelmente.
“Ah, Mariana, se eu encontrasse palavras pra dizer o que sinto! A última coisa que deveria pensar é que eu te deixaria por você estar com leucemia. Ninguém deixa a vida de lado. E você é tão... Minha vida!” – Pensei de olhos já fechados, abraçando-a, e afundando o nariz entre aqueles fios de cabelo loiro que cheiravam tão bem, lembrando a mim mesmo que agora cuidaria dela mais do que nunca.


# Pauta para Bloínquês


3 comentários:

renatocinema disse...

Tive em coma, uti e tive convulsão......imagine o quanto precisei desse amor para sobreviver?

Me identifiquei muito com a Mariana. Dor, sofrimento, carência.....e ao mesmo tempo recebimento de amor incondicional.

Amei.........

Chris Macêdo disse...

Será que um amor assim ainda existe?

Natalia Smirnova disse...

Que legal, muito interessante. Amores e amores...rs...Também escrevo. Estão todos convidados a ler “Illegitimate”. Parabéns pelo blog.
http://pagesoferasedtext.blogspot.com/