quinta-feira, 14 de julho de 2011

O colecionador de almas


Eu passava poucas vezes por aquela rodovia, mas todas as vezes que passei por ali, perto de um casebre abandonado no meio da estrada eu sentia um calafrio e um tremor pelo corpo. Havia a lenda de que o casebre era mal assombrado, essas casas velhas despertam a imaginação das pessoas, mas aquela tinha algo mais. Dois amigos meus insistiram para que eu os acompanhasse até lá uma noite, muito relutante, eu concordei. Menti para meus pais dizendo que dormiria na casa de uma amiga. E então fomos até a casa, uma menina e dois meninos despreparados para o que encontrariam.
Chegamos perto da casa, a lanterna que um de nós carregava parecia um vagalume franzino na imensidão total. A lua crescente brilhava sinistramente no céu, como um sorriso macabro de boas vindas. A casa de madeira parecia respirar e sussurrar. O piso rangia. A porta da entrada estava aberta, achamos estranho, pois poderia haver algum mendigo morando ali. O tremor se espalhou pelo meu corpo ao dar o primeiro passo para dentro da casa escura. Meus amigos riam de ansiedade.
A casa estava deserta, os cômodos vazios e cobertos de pó. Um cheiro forte nocauteava nosso olfato, cheiro de podridão... cheiro de morte.
O vento entrava pelo vidro quebrado da janela e os sussurros aumentavam.
Senti uma movimentação, vi um vulto cruzar meu olhar e sumir de repente.
- É melhor irmos embora - sugeri e os dois caçoaram de mim com piadas machistas.
Um grito de pavor cortou a noite e a lanterna despencou no chão.
- O quê foi isso? Onde ele foi? - perguntou um deles se aproximando de mim.
Meu coração disparou em alta velocidade e a porta da frente se fechou violentamente, com um baque surdo.
- Não tem graça - gritei para o nada, meu amigo certamente estava nos pregando uma peça.
O silêncio respondeu. E aos poucos um barulho contínuo foi surgindo, eram gotas caindo... o som de gotas abafadas pela poeira do assoalho. Peguei a lanterna e a fiz iluminar o ambiente e dessa vez meu grito ecoou pela casa.
Meu amigo que tinha desaparecido estava pendurado no lustre por um arame envolta do pescoço e o sangue pingava... escorria... a poça negra crescendo debaixo de seus pés.
- Quem fez isso? O que está acontecendo? - meu outro amigo perguntou apavorado, com lágrimas nos olhos - Temos que sair daqui, vamos. - ele agarrou meu braço.
"Ninguém vai deixar essa casa", uma voz rasgou o ar, tão fria e sibilante que parecia arranhar nossos ossos.
- Que... que... quem está aí? - meu amigo gaguejou.
- Nos deixe em paz - eu pedi entre soluços.
Outra movimentação e senti meu braço sendo puxado enquanto meu amigo gritava de desespero...
- Não me solte, não me solte, não... - sua voz foi sufocada, seu aperto se tornou mais fraco. Tive medo de apontar a lanterna até onde ele estava, mas o fiz.
Sua cabeça estava completamente virada para trás e o sangue escorria por sua boca, manchando o chão.
- Me deixe ir embora, me deixe ir - gritei assustada e me encolhi num canto do cômodo, me agachei, a visão embaçada pelas lágrimas e meu coração pulsando como nunca.
"Você vai ficar aqui para sempre", a voz afiada falou outra vez, a senti perto de meu ouvido.
Levantei apavorada e corri até a porta. Tentei a maçaneta, nada. Chutei com toda força, mas ela não cedeu.
Senti um suspiro gelado no meu pescoço e o calafrio me dominou, junto com a dor dilacerante da lâmina que penetrava minha barriga e me cortava sem piedade. Cai ajoelhada, me engasguei com o gosto de sangue e uma escuridão completa me abocanhou.

1 ano depois

- É aqui aquela casa que dizem que é assombrada, onde foram encontrados os corpos de três jovens. Nunca descobriram quem matou quem - disse um dos cinco rapazes que se aproximavam da porta.
Minha alma presa lá dentro os alertava para voltarem, mas não me viam... Quebrei um pedaço de vidro que ainda restava da janela e eles se entreolharam intrigados.
- Parece que é assombrada mesmo, vamos - disse outro abrindo a porta.
Acenei agitada, tentei tocá-los, gritei... mas meu sinal sumiu no ar, andou para longe e jamais encontrou ouvidos.
Os cinco entraram.
E a casa e seu proprietário fantasma acabavam de ganhar novos moradores... para toda a eternidade.

Lá fora, a lua crescente pintada de vermelho exibia o mesmo sorriso diabólico da noite da minha morte.

Um comentário:

Any disse...

:O
eu fiquei com muito medo com isso. parabéns. e por que eles não me ouviram? :x
hasuahus
beijos