quarta-feira, 29 de junho de 2011

Quando a espera é demais

- Ele vai chegar amanhã... – ela ouviu apenas aquelas quatro palavras e perdeu-se em devaneios enquanto a boca do homem continuava a se movimentar.

Durante os últimos anos, sua vida havia se tornado uma incógnita. A espera pelo o que poderia não vir a assombrava todas as noites dentro daquelas paredes frias. As outras pessoas já exibiam aquele olhar penoso quando a encaravam e ela odiava aquela sensação dispensável de comiseração.
O ambiente pálido e sufocante não lhe deixavam se sentir em casa e os murmúrios dos vizinhos a incomodavam.
Ninguém nunca lhe deu uma resposta coerente para o que havia acontecido. Ela sabia que seu coração tinha problema, mas era somente isso que lhe cabia saber e pior do que ter essa consciência aterradora, lhe jogaram na cara uma data, marcada como sua sentença.
Os enfermeiros já despreocupados e sem esperança de que um milagre chegaria, tratavam-na de forma negligente. Os médicos continuavam firmes nos prognósticos e diziam que tudo ia ficar bem. Embora o trabalho deles não fosse dizer e sim fazer acontecer, mas o destino tem essa coisa engraçada de carregar o futuro de certas pessoas na palma de sua mão, agindo como um egoísta e não deixando ninguém se intrometer.
As palavras do médico, ditas mais cedo, ainda sacudiam-se no quarto entre os apitos eletrônicos do monitor cardíaco e isso a deixava com um sorriso grudado no rosto. Ele vai chegar. Seu coração novo e saudável.
Naquela noite, mal conseguiu dormir enquanto fazia planos sobre sua vida que seria trocada daquele calendário agourento para um novo e cheios de dias pela frente. Ela voltaria a dançar, como sempre quis. Voltaria a praticar esportes. E voltaria a se apaixonar.
Ela sonhou com cada coisa trivial que voltaria a ser parte de sua rotina e sonhando com tantas coisas emocionantes, esqueceu-se de que em seu peito ainda batia um coração danificado. O tal destino apenas observou impaciente quando o coração agitou-se mais do que era capaz e com pulsares desregulados, ao som dos gritos do monitor, calou-se para sempre.
O sol adentrou o quarto, ansioso para ver a moça sonhadora que receberia um acréscimo de vida, mas deparou-se com os enfermeiros de olhares vazios, preparando seu corpo para o necrotério.
O coração novo chegou depois de um tempo, mas foi mandado embora com um grande ponto de interrogação. Ele não era mais aguardado ali, sua visita agora era esperada em outro lugar, para alegrar outra pessoa.
O destino, às vezes, é cruel e imparcial, nunca se dobra à vontade de ninguém e não aceita reclamações. Ou você joga conforme suas regras ou é tirado do jogo.

Pauta para Bloínquês

7 comentários:

Letícia R. disse...

Seu texto me tirou as palavras, rs.
Triste, mas bem reflexivo. Adorei e concordo.

Stella Rodrigues disse...

Concordo também. o destino é o pior inimigo, e o melhor amigo ao mesmo tempo.

Any disse...

seu texto me tirou o aar! tadinha da garota.. quando ela estava bem perto.. se foi. parabéns. estarei torcendo por você ^^

Lara Vic. disse...

caramba esse texto me deixou em choque! Muito lindo mas muito triste o final! Quem disse que sonhar não da nada?
parabéns pelo primeiro lugar no bloinques, beijos!

@anapribeiro_ disse...

Nossa, que texto incrível. Confesso que ele me prendeu, e por um momento, me senti a personagem principal.
Parabéns, grande escritor você!

Beijos.

http://ribeiroap.blogspot.com/

Insana disse...

É dificill...

bjs Insana

Matheus Danella disse...

A emoção de saber como seria seu destino... fez o próprio destino levá-la embora. Ela pensou demais no jogo, como seria se vencesse, e esqueceu de jogar.

Acabou perdendo, infelizmente. E lá se vão boas vidas.