segunda-feira, 30 de maio de 2011

A caçada

Século XV

A peste se propagava em nosso vilarejo com uma rapidez assustadora. Homens, mulheres e crianças sucumbiam cada vez mais. A resposta a isso estava clara, o que nos deixava ainda mais assombrados, isso era bruxaria. Com o início da caça às bruxas declarado, muitas dessas mulheres demoníacas buscavam refúgio em pequenas vilas onde pudessem passar despercebidas, mas não para mim. Eu possuia o Malleus Maleficarum, que ensinava como reconhecer uma aberração dessas. Eu venho observando as mulheres de comportamentos estranhos, saio a noite a procura de belas jovens suspeitas. Jovens, sim, essas filhas do diabo se escondem atrás de belos rostos para enganar a população.
Enquanto caminho sob a luz intensa da lua cheia, procuro por indícios e rastros. Um gato preto cruza meu caminho, sinal que estou na trilha certa. Um vulto encapuzado se embrenha na floresta escura. Era ela. A bruxa da nossa vila. Eu a sigo com cautela, atento onde eu piso para não denunciar minha presença. Um uivo corta a noite como uma faca afiada. A floresta se torna densa e uma névoa começa a se formar. O vulto está perto, eu posso sentir. Num movimento rápido eu a alcanço atrás de uma árvore e arranco seu capuz.
- Papai - ela disse com aquela voz que tanto conheço, ofegante pelo susto.
- Não, você não... - me esgasguei nas próprias palavras.
- Eu posso explicar - ela disse.
- Calada, sua amante do mal - eu lhe dei uma bofetada. Elas possuem o poder de persuasão que levaria homens despreparados a se matarem - Não acredito que acolhi uma serva das trevas por todo esse tempo... - ela fez menção de falar, mas a fiz parar com outro tapa.
O que eu sentia era ódio e repulsa. Pensar que o eu poderia ter dado o fim a todo o pânico que o vilarejo sofria, me dava vontade de matá-la com minhas próprias mãos. Aquela a quem chamei de filha, era uma pecadora.
A deixei amarrada junto aos cães durante a noite e logo pela manhã a levei à Corte e aos Inquisidores. A sentença como o esperado, era a queima na fogueira.
A prenderam em um calabouço naquele dia, com uma mordaça que a empedia de destilar suas mentiras e blasfêmias. No dia seguinte uma multidão se reuniu em praça pública para assistir a morte da bruxa. Da minha filha. Minha esposa, que descance em paz, foi poupada de ver a única filha se transformar em um monstro.
- Essa criatura maligna foi encontrada entre as árvores e é acusada de heresia, feitiçaria e propagação da peste - disse um dos Inquisidores - Que Deus tenha piedade da sua alma - e assim que disse isso acenderam a fogueira na qual ela estava presa. Seus gritos foram abafados pela mordaça. Ela chorava lágrimas de veneno.
Um rapaz veio correndo desesperadamente, passando pelo meio do povo e gritou:
- Havia uma garota na floresta, ela foi vítima da bruxa, mas está viva. Ela estava amarrada em uma árvore. Ela disse que a bruxa era uma velha cega que era guiada por um corvo - a multidão se calou e só o crepitar do fogo podia ser ouvido.
No silêncio mortal, todos os detalhes de repente se encaixaram, numa explosão de intuição.
Minha filha era inocente. Ela estava tentando salvar a garota.
Corri na direção da fogueira, mas já era tarde demais. A minha filhinha já se fora. Meus olhos ardentes derramaram lágrimas de remorso, dor e frustração. Naquele momento, diante do corpo da minha menina, jurei encontrar a velha feiticeira e dar um fim a ela.

Um comentário:

renatocinema disse...

Melhor texto que li até agora aqui, pelo menos para meu humilde gosto.

Adoro literaturas cruéis, surpreendentes e emocionantes.

Qual é o ser humano que nunca julgou por intuição? por um primeiro olhar?

O pior é saber que na época da inquisição isso deve ter ocorrido muitas vezes.

Belo texto.


Congratulações de um fã de Nelson Rodrigues.