domingo, 13 de março de 2011

Uma carta e a caixa-preta


Para quem manteve os pés no chão

Eu fecho os olhos e tudo o que eu vejo são os borrões de cores, as pessoas apavoradas e seus gritos agonizantes perfurando meus ouvidos.
Aquela era a minha primeira viagem de avião, eu estava indo para a Europa, iria ver e sentir a neve pela primeira vez. Eu havia conseguido uma bolsa de estudos numa das escolas mais conceituadas, mas isso é um mero relance do meu futuro inalcançado.
Quando a voz desesperançada do piloto irrompeu nas caixas de som anunciando nossa queda iminente, todos se entreolharam, usando uma máscara de medo que jamais seria retirada. Eu abaixei a cabeça entre os joelhos e lembro de ter rezado baixinho enquanto observava minhas lágrimas caírem no assoalho do avião que sacolejada violentamente.
O primeiro clarão veio da esquerda quando um dos motores explodiu. Mais grito, mais choro e mais pânico, enquanto pairava no ar aquela impotência diante do inevitável. Nós todos morreríamos.
O lado direito do avião se rompeu em uma explosão de metal e toda a fileira onde estava meu assento foi atirada para fora, estávamos quase para atingir o chão e eu me vi rodopiando no ar ao lado de várias outras pessoas que oravam, imploravam e que encontraram seu fim ao atingir o solo de uma floresta. A mochila presa em minhas costas foi o que abafou minha queda e salvou minha vida, dentro dela havia apenas peças de roupa e meu velho caderno de anotações, onde agora relato o que aconteceu.
De longe eu avistei a grande bola de fogo que se ergueu quando o avião caiu e senti seu hálito quente que percorreu as árvores e me alcançou. Instintivamente corri até lá para ver se havia mais sobreviventes, mas apenas encontrei uma pilha de metal retorcido em chamas e corpos, muitos corpos.
Nessa hora formou-se um grito de protesto em minha garganta, porém o mantive preso e corri para longe dali, me embrenhei na mata escura e vi o pôr-do-sol vermelho, como um reflexo das chamas. Meu celular havia se despedaçado quando atingi o chão e não encontrei nenhum outro por ali, vaguei em círculos entre as arvores, à procura de algum sinal de vida, mas não encontrei ninguém. Voltei, então, para mais perto dos destroços, onde logo alguém apareceria.
Passei a noite em claro, mastigando uma raiva contida que crescia em meu peito e toda a frustração egoísta por ter feito planos que não se realizariam, mais tarde me veio o gosto amargo da tristeza por todas aquelas pessoas e as lágrimas queimaram meus olhos. Eu estava vivo, mas não sabia até quando. Não há comida nem água, o ar ainda cheira a fumaça e morte e meu corpo dói de dentro para fora.
Eu tinha várias perguntas em minha mente. Eu me perguntava por que eu fora o único sobrevivente, me perguntava como seria o sofrimento da família de todas aquelas pessoas e percebi que a vida é apenas uma cadeia de eventos. São conexões que nos levam ao nosso destino, seja ele qual for. Todos nós deveríamos estar naquele avião, aquilo era para acontecer. Não sei se por obra de Deus ou do acaso, mas aquela tragédia havia sido agendada em nossas vidas desde o nosso primeiro suspiro.
Comecei a pensar na minha família e amigos, em todos aqueles que ficaram para trás e me indaguei como eles receberiam a notícia de que eu não voltaria mais para eles. Queria poder dizer a eles que eu estou bem agora, queria pedir perdão por qualquer coisa que eu tenha feito que tenha machucado algum deles e agradecer por tudo o que fizeram por mim. Eu vou sentir a falta de todos.
Papai, que sempre foi um exemplo de fortaleza para mim, vai entender que eu resisti até quando pude, apesar das dores que senti. Mamãe, com toda sua empatia, vai compreender que eu tentei ser conciso em minha última carta. Meus amigos, grandes irmãos que a vida me deu, vão se consolar por saber que eu pensei neles em meus últimos instantes. E você, que encontrou essa carta perdida, por favor, faça com que essas palavras cheguem até eles.
Vou parar por aqui, pois minha mão já não sustenta o peso mínimo da caneta e o frio vem me abraçar sem pedir permissão. Eu fiz essa minha vida valer a pena, se houver uma outra depois dessa, vou tentar ser melhor. Adeus.

De um anjo desalado que foi buscar seu par de asas.


Pauta para Bloínquês


3 comentários:

lipe Bandeira disse...

Passando pra dizer que adorei o post, muito emocionante.
To te seguindo. Depois passa lá!
http://lipebandeira.blogspot.com/

Abraço,lipeBandeira

Jéssica Trabuco disse...

Me arrepiei moço!
Muito bom o seu texto!

Vinicius Ferrari disse...

Carta magnífica, sem nenhum erro ortográfico gritante, completamente dentro do tema proposto e fugindo TOTALMENTE do ÓBVIO. Parabéns garoto, gostei muito de sua carta! Criativa, com sentimentos e bem escrita. Bom final de semana!