domingo, 27 de março de 2011

O doce amargo da saudade


O silêncio do quarto à meia-luz era roubado pouco a pouco pelos tórridos gemidos que jorravam dos lábios do casal enroscado no emaranhado de lençóis na cama. As mãos dele, tão ávidas, percorriam as curvas da moça e apertavam sua carne macia. As dela se moviam nas costas do homem, suas unhas marcando a pele dele com arranhões de paixão. Os corpos se moviam em sintonia, indiferentes a qual dos dois conduzia aquele tango horizontal. A sensualidade envolvia o cômodo como uma alma penada vagando no mundo. O pudor fora posto para fora por um chute do pecado e desaparecera no ar.
Os sussurros arfantes e munidos de palavras ardentes eram depositados cuidadosamente no ouvido do parceiro, sorrisos maliciosos se formavam no canto da boca, mascarando a inocência há muito perdida. O excesso regia os sentidos, era pedido mais de tudo e então os desejos se realizavam. Mais toques, mais desordem no caos sobre o colchão umedecido, mais suor, mais luxúria e mais outros vários pormenores que embalavam o ato não ensaiado.
Ao final de tudo, os corpos se descolavam, os olhares se escondiam e os pensamentos vagavam em outros lugares até retornar ao mesmo ponto de partida. Depois do espetáculo encerrado e das palmas de aprovação expelidas, o silêncio voltou a pairar no local, esperando pacientemente por uma ruptura que não demorou a surgir.
- Você quer um café? – ela perguntou despretensiosamente, com a cabeça apoiada no braço, encarando o homem que mantinha o olhar fixo no teto.
- Eu aceitaria algo mais gelado – ele admitiu com um sorriso brincalhão.
- Que tal uma taça de vinho?
- Seria ótimo.
Ela libertou-se do lençol e cortou a escuridão até a porta, a silhueta de seu corpo desenhada no espaço onde o luar penetrava no ambiente. Um corpo gracioso e provocante, uma mistura de moça boa e mulher fatal.
Na cozinha, ela apanhou duas taças e a garrafa de vinho branco na geladeira. Antes de retornar ao quarto, olhou tudo ao redor, uma pia com pratos sujos, armários vazios e várias caixas espalhadas pelo chão. Aquela era a primeira noite dos dois na casa nova.
As paredes ainda cheiravam a tinta fresca, estavam nuas de quadros e virgens de marcas de sujeira. A estante na sala aguardava os porta-retratos que logo a usariam de pedestal. Pouca coisa havia sido desencaixotada.
O homem surgiu no breu, silencioso sobre seus pés descalços e vestindo apenas o corpo suado.
- Achei que você tivesse se perdido no caminho de volta – ele brincou. Ela caminhou até ele, entregou-lhe as taças e serviu o vinho. O beijo que se seguiu foi gelado e levemente frisante.
- Promete que nunca vai me abandonar? – ela perguntou olhando dentro dos olhos noturnos dele.
- Essa é a promessa mais fácil de cumprir – ele rebateu e a cozinha se tornou o palco de uma nova cena de amor.

Ela abriu os olhos e despejou as lágrimas que estavam presas. Desprendeu-se do devaneio e encarou a fotografia que um dia fora um momento presente e logo em seguida fechou o álbum. A casa estava escura, no vento forte a chuva desabou e os relâmpagos clarearam os cômodos vazios. Quase tudo já havia sido encaixotado. Todos os quadros retirados, toda a mobília desmontada e toda a saudade contraditoriamente imensa e no encaixe perfeito da palma da mão.
Ele cumprira a promessa fielmente até seu último suspiro e para ela, viver naquela casa sem sua presença seria um doloroso martírio, por isso ela decidira se mudar dali, exatamente no dia em que completava um ano da primeira mudança.
O amor não escolhe qual história vai durar para sempre, ele eterniza o tempo efêmero que uma vida a dois possui.


Pauta para Bloínquês

10 comentários:

Cristiano Guerra disse...

Certo, Rod, já te falei tudo que tinha que falar por msn; mas vou explicitar aqui:

Gramaticalmente perfeito, com destaque para a adjetivação.
Enredo surpreendente e, no todo, um dos melhores contos seus, já publicado aqui.

C. disse...

Amar demais derrama...
E pra quem ama na medida certa (humm existe isso?) nao há mapas nem relógio... mas o sentir, o pensar e o lembrar nos pertence!!

Bem lindo esse texto! Eu curto o capricho que vocês tratam o layout, as palavras, as imagens...

# beijinhos

renatocinema disse...

Belo demais. A última linha encanta. "O Amor não escolhe qual história vai durar para sempre". Perfeito

Naty Araújo disse...

Puts, Rodolpho, devo reconhecer que eu não comento aqui e sumi do seu blog, mas não deixo de ler cada detalhe.
Que coisa apaixonante foi essa?
Ressalto o que o Cristiano disse:
Foi um dos melhores contos seus que já li.
E enquanto lia eu ficava pensando: "Onde é que ele vai colocar a bendita frase do projeto?" hahaha.
Ficou maravilhoso! Sério mesmo.

Beijos e saudades \o

Tammy S. disse...

Primeira vez que venho aqui .
e gostei de verdade.
O texto lindo lindo ..
parabens por tudo , deve ser legal manter o blog em grupo . rs.
Boa sorte , sucesso , beijos :*

*Amanda* disse...

Se um dia esses seus contos virarem filmes... vc já sabe minha reação...



... Vou chorar em todos eles! rsrsrsrsrs


Simplesmente lindo!

Mariana Leal disse...

no final ensina a parar de chorar quando terminar ler ? obrigada .
lindo , nao tem palavras nao

• Cynthia Brito • disse...

Parabéns pela nota e pelo primeiríssimo lugar! Belo texto! Beijos e boa semana.

Bell Souza disse...

Forte e quente. Sensual, mas não vulgar. como tudo que você produz esse texto tem a medida exata. pena que não controlamos essas coisas tristes da vida.

Any disse...

ficou muito, muito bom mesmo!
mereceu o prêmio, parabéns.