segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Mecha de cabelo

Desde muito pequeno meu mundo se resumia àquele hospital, àquelas paredes brancas e sem vida. Eu olhava pela janela e avistava os pássaros em seu vôo livre, os galhos das árvores balançando no ritmo do vento, eu via o mundo através de um vidro. Ser uma criança com câncer não me tirou a vontade de viver, pelo contrário, me deu algo pelo qual lutar, me ensinou que a vida não tem preço.
Meu mundo solitário ganhou cor quando a avistei chegando, usando um vestidinho colorido e simples, os cabelos claros cacheados sacudindo de um lado para o outro. Era mais uma paciente, mais uma guerreira nesse mundo injusto. Mais uma que se preparava para as batalhas que se seguiriam.
Eu com meus nove anos de idade não sabia muita coisa, não conhecia sentimentos nem sensações, mas ao vê-la senti meu coração bater mais forte, um pulsar vivo e contraditório à minha condição, senti-me saudável. Mais tarde pude conhecê-la e conversar com ela, com seus sete anos ela era muito esperta e parecia entender o que estava prestes a acontecer. Todos nós vivemos ali na incerteza do amanhã, sem saber se perderemos a luta para a doença, sem saber até onde sobreviveremos.
Poucas semanas depois tentei vê-la, mas ela fugiu de mim, percebi então que ela não queria que eu a visse sem seus lindos cabelos. O tratamento a ela estava sendo agressivo demais. A alcancei antes que ela pudesse se esconder e disse a ela que a amava daquele jeito, disse que a amava espiritualmente, afinal, não acredito que amamos um corpo, mas sim uma alma. Ela me sorriu e depositou uma mecha de seus cabelos dourados em minha mão.
Passo a passo, dia após dia fomos lutando juntos, sofrendo em união, chorando sobre o ombro um do outro. Eu sentia a dor dela e ela sentia a minha. Tínhamos o mesmo medo, não de morrer, mas de perder um ao outro. Nossas batalhas se tornaram mais difíceis e nosso corpo fraquejava, mas resistíamos. Sabíamos que o outro estava ali, sempre.
Sempre? Sempre é tempo demais, sempre foi tempo demais para nós, principalmente para nós.
Foi em um dia nublado que tentei chegar ao quarto dela, mas fui impedido pelas enfermeiras. Meu coração saltou, bateu mais forte e desesperado. Aquele corredor escuro que nos separava não tinha fim. Senti as lágrimas queimarem e mancharem meu rosto enquanto eu lutava contra os pares de braços que me forçavam a recuar, mas eu não queria. Eu tinha que vê-la mais uma vez. Eu tinha que dizer adeus. De longe pude ver seus pais desconsolados e ouvia os soluços de sua mãe.
Por que a vida dá para depois tirar? Meu grito de "não" ecoou por todo o hospital. O grito sufocante do meu coração me machucou de um jeito que a doença jamais fez. Eu havia perdido aquela luta, meu mundo voltou a ser preto e branco.
No dia seguinte me permitiram ir ao funeral dela. Aquele foi o dia mais triste da minha vida. O caixão pequeno denunciava a injustiça desse mundo cruel. Antes de as pás de terra começarem a ser atiradas sobre ele, apanhei uma mecha escura de cabelo que há muito deixara de nascer em minha cabeça e atirei sobre ele e disse o último adeus.
Voltei para meus dias frios e solitários, enxergando um mundo mais vazio pela ausência dela, tentando achar algum sentido nessa vida sofrida.
Não desisti de lutar, agora eu lutava por nós dois, para conseguir aquilo que ela não pôde ter. Para mantê-la viva através de mim.
Até quando isso vai durar eu não sei. Até onde me permitirei resistir só o tempo pode dizer. Mas eu nunca esqueci dela. A mechinha de seu cabelo está sempre comigo, uma prova de que minha vida teve um valor. Uma prova de que mesmo sem conhecer sentimentos, eu conheci o puro amor e com ele conheci a dor.
Meus dias foram mais felizes quando estive com ela. Agora carrego ela no peito, no bater triste de meu cansado coração e nas lembranças doces que nenhum tratamento pode tirar.
Ela vive em mim. Ela vive de alguma maneira e eu nunca vou abandoná-la.

3 comentários:

renatocinema disse...

Não importa o que seja......a lembrança de algo perdido, faz a dor vir a boca do coração.

Insana disse...

É um gostoso recordar..

bjs
Insana

Letícia R. disse...

Ai que texto liindo. Final emocionante *-*
Deu até para sentir o desespero dele quando ela morreu e também todo amor que sempre a manteria viva nele. Lindo.