quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Femme Fatale

- Sabe, parece coisa de cinema, mas vou te contar minha história - eu disse ao garçom, que revirou os olhos impacientes, certamente acreditando que se tratava de mais uma história de um bêbado abandonado e ele pode estar certo.
Eu precisava desabafar e aquele bar era o que eu costumava frequentar antes de ela surgir na minha vida. Todo aquele ambiente decorado em madeira, cheio de pessoas solitárias inertes em seus pensamentos, escondidas por trás da fumaça dos cigarros que deixava o local enevoado e sufocante. Mulheres elegantes com seus vestidos provocantes e sua maneira lasciva de fazer os pedidos. Homens sofisticados com seus charutos caros, ternos de grife e sapatos muito bem lustrados. Esse era o tipo de pessoa que frequentava o lugar. Entrei pela porta, com minha jaqueta surrada, cabelos despenteados e pedi uma dose de uísque.
Tudo tinha começado há dois anos, naquele mesmo bar, na mesa do canto. Numa noite de sexta, embrigado em minha solidão e sufocado na fumaça de meus devaneios sombrios, veio em minha direção uma daquelas mulheres que não tem como não olhar. Ela usava um vestido vermelho decotado, com um corte na perna que subia até quase atingir o quadril, os cabelos balançavam conforme o caminhar lento e seguro.
- Tem fogo? - ela perguntou e naquele momento eu me xinguei por não ser um fumante. Neguei com a cabeça - Posso me sentar? - ela indagou já puxando a cadeira ao lado da minha.
Não acreditei na minha sorte. Como uma deusa daquelas havia ido até mim? Entre conversas descontraídas, uísque e cigarros, terminamos nossa noite juntos e passamos a frequentar outros bares de classe mais elevada e nos juntamos. Eu me apaixonei em questão de dias e vivemos uma história emocionante. Trocávamos juras de amor. "Minha vida se resume no que eu passei com você!", ela me disse certa vez e eu me senti vivo, como nunca tinha me sentido. Ela era uma mulher poderosa e eu me sentia um homem poderoso por estar ao lado dela. Mas dizem que tudo o que é bom dura pouco, não é? Pois essa mulher fatal se mostrou uma ladra de altíssimo grau. Roubou todo o meu dinheiro, herança de meu pai que era dono de dois bancos e desapareceu. Venho tentando rastreá-la para jogá-la atrás da grades, mas sua lábia imbátivel com certeza está fazendo mais vítimas por aí.
O garçom me ouvia desinteressado.
- Ouça bem isso, não importa o quanto tente ser bom não dá pra segurar uma garota má - eu o aconselhei sabiamente.
- Claro, claro, o senhor tem toda a razão - ele disse com sarcasmo - Mas é hora de dizer adeus, então tome suas últimas doses e dê sua última gorjeta.
Pedi um Martini duplo, o bebi em um gole só, paguei a conta e sai.

O garçom deixou o balcão e foi atender uma mesa mais afastada, antes de chegar ao cliente, observou enquanto uma linda mulher em um vestido preto surgiu por detrás da fumaça de seu cigarro e se dirigiu à mesa de um cavalheiro desacompanhado.
- Tem fogo? - ele a ouviu perguntar.

3 comentários:

Cristiano Guerra disse...

Enquanto lia só consegui imaginar aqueles filmes em preto e branco, bem no estilo Chicago em seus tempos áureos. Sua construção de ambientes é impecável Rodolpho, parabéns.

Abraço

Vinícius disse...

não posso deixar de reparar no garçom como o personagem que dá sentido a essa história. Digo isso porque através dele, através do que ele viu e ouviu, o fim pôde ser extremamente perspicaz e intenso.

Letícia R. disse...

Impecável construção de ambiente mesmo. Fantástico.