sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Crime e castigo

Trancafiado em minha sela especial eu me sentia um animal enjaulado, atrás das grades frias e impiedosas. Sentando em meu catre fétido com a caneta na mão eu colocava no papel tudo aquilo que não pude dizer. Assim que terminei, chamei o carcereiro e o entreguei o envelope.
- Para quem é a carta? - ele indagou.
- Você não sabe ler? O destinatário está escrito aí e minha letra é bem legível - eu disse com meu tom superior. É espantoso como o setor carcerário emprega pessoas tão incompetentes, pensei comigo.
- Você é mesmo abusado de escrever a ela? - ele disse ao ler para quem a carta se destinava e cuspiu no chão.
- Tenho que concordar com você nesse ponto - respondi e dei-lhe as costas. Senti seu olhar desprezível sobre mim antes que seus passos distantes denunciassem sua partida.
Sentei-me novamente, abracei os joelhos e pensei.

- Você não pode desistir. Ela tem razão, você precisa é de uma boa defesa. Pode nos chamar como testemunhas - meus pais me disseram na noite em que fui preso. Ela tem razão, essas palavras ecoavam em minha mente, me lembrando de vozes que eu talvez não voltaria a ouvir. O fato é que ela não tinha razão. Minha esposa não estava certa, eu não havia agido por impulso.
Enquanto eu senti o sangue quente daquele homem em minhas mãos, eu experimentei uma sensação que jamais tive, eu conheci um poder o qual eu não queria abandonar. Ele havia me agredido no bar e eu agi em auto-defesa, assim pensam todos que estavam lá, mas eu o havia coagido a me agredir, eu o havia pressionado a fazer aquilo, mas disso ninguém sabia. Minha defesa tirou a vida dele com uma faca enfiada na jugular.
Deus, como isso foi bom! Eu precisava sentir aquilo, no fundo de meu ser eu sempre contive esse meu lado negro que gritava por liberdade e deixá-lo solto me fez querer nunca mais aprisioná-lo.

Eu sabia que toda carta escrita era analisada antes de ser enviada. Isso é de praxe e até o presidiário mais tolo deveria saber disso.
E essa seria uma maneira rápida de terminar as coisas, não é ? Pois então decidi não adiar mais o inevitável.
"Eu o matei. Eu quis isso. Eu saboreei aquele momento." Essas foram as dez palavras que eu escrevi na carta. Uma confissão. Eu pagaria pelo meu crime, mas o que me consola é saber que isso não o trará de volta.

Soltei meus joelhos assim que ouvi o bando de passos ferozes que vinham em minha direção. Suponho que a carta já tenha sido examinada. Acredito que não vou precisar mais de testemunhas, meu lado negro havia sido libertado, mas meu lado são ainda permanecia. Confessei. Sufoquei esse lado sombrio que tanto desejava espaço. Sei que não sou inocente, apesar de outra parte de mim alegar isso. Nunca acreditei quando os psiquiatras afirmavam a teoria de dupla personalidade, eu não era duas pessoas dentro de uma, eu era uma pessoa querendo ser duas. Soltei a fera dentro de mim e tive um relance de quem seria a outra pessoa que eu me tornaria, isso me agradou e me assustou.
Como auto-defesa eu matei a fera e com isso matei quem eu sou.

"O prazer de um momento não vale o preço de uma vida", eles encontrarão isso em uma outra carta debaixo da cama, espero que alguém entenda.

2 comentários:

BlackRabbit disse...

puta que pariu...
depois de muito tempo, um texo aqui que me agradou...
fugiu do q vcs tavam postando ultimamente...
muito bom...
(Y)

vinícius reis disse...

bom texto.