terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Confissões


Eu já estava sentado naquela cadeira pela terceira vez, encarando os mesmos pares de olhos.
- Está certo, o que você quer de mim? - perguntei mais uma vez.
- Eu quero a verdade. A verdade que você está escondendo - disse aquele que encenava o papel do policial mau.
- Eu já disse que a verdade não pertence a mim - respondi serenamente e me lembrei daquela tarde uma semana atrás, quando tudo começou.

A igreja estava vazia, meus passos ecoavam pela nave central enquanto eu me dirigia ao confessionário. Sentei-me lá dentro e esperei. Ouvi passos apressados pouco tempo depois. Uma voz arfante e desesperada falou através da tela:
- Padre, eu pequei.
- Qual foi seu pecado, meu filho? - indaguei.
- Eu tirei uma vida - o homem respondeu. Minha voz sumiu, eu não soube como proceder diante daquela confissão - E estou prestes a tirar outra - ele continuou.
- Você se arrepende? - perguntei por fim.
- Sim - ele disse com sinceridade - E é por isso que vou tirar mais uma vida.
Franzi a testa confuso.
- Mas, meu filho, eu...
- Eu só vim buscar perdão, padre, me dê sua benção e alguma penitência.
- Eu não posso deixar você cometer mais um crime - eu falei me preparando para sair do confessionário e assim que o homem percebeu meu gesto, levantou-se e correu pelas portas.
Fiquei com a sensação de missão não cumprida. Eu não havia conseguido salvar aquela pobre alma. Mais tarde ao me preparar para fechar as portas, encontrei um pedaço de papel perto da entrada principal. O desdobrei com cuidado e li as linhas.

Mãe,

se você está lendo esse bilhete é porque eu já parti. Peço perdão por esse ato horrendo, mas foi a única saída que eu encontrei.

Do seu filho amado.

Retornei ao meu aposento e fiquei atento aos noticiários. Nada.
No dia seguinte ouço a notícia de um suícidio. Um homem havia desligado os aparelhos que mantinham seu irmão vivo e estava sendo procurado, mais tarde o encontraram em sua casa, pendurado por uma corda no pescoço.

Fui chamado a prestar depoimento quando testemunhas viram aquele homem saindo da igreja. Mas os policiais não entendiam os motivos dele. Eu mesmo tentava não julgá-lo. Seu irmão estava em coma há 5 anos e sem muita esperança de recuperação, a mãe dele sofria ao ver o estado crítico do filho, para tentar aliviar o sofrimento da mãe, ele havia tirado a vida do irmão, mas a culpa o castigou por isso, o que o levou a tirar a própria vida.
Eu não tinha nada a declarar para aqueles policiais e ao notarem isso, me liberaram mais uma vez.
Aquele caso já deveria ter sido encerrado. Aquela história havia acabado.
Na saída da delegacia, uma senhora me abordou com lágrimas nos olhos.
- Padre, meu filho era um homem bom.
- Eu sei que sim - eu disse e a entreguei o bilhete de seu filho - Deus nunca abandona seus filhos, Ele terá misericórdia dele.
Ela não leu o bilhete e continuou a chorar.
- Padre, eu pequei - ela disse com a voz suplicante.
- O que você fez, filha de Deus?
- Eu tirei a vida do meu filho. Eu desliguei os aparelhos - ela revelou.
Fui arrebatado por um tremendo choque.
- Mas...
- Ele fez isso para me livrar da prisão - ela disse apontando para o bilhete - O que devo fazer, padre? Confessar e viver sabendo que a morte de meu outro filho foi em vão ou ficar livre sabendo que causei a morte de meus dois filhos?
- Eu não posso lhe dizer o que fazer, apenas siga seu coração - eu disse.
Aquele caso não estava encerrado, mas eu não queria me envolver mais. Caminhei lentamente de volta à igreja, pensando até que ponto o ser humano é capaz de ir para proteger o outro por amor. Ele havia confessado um crime que não cometeu, depois tirou a própria vida para encerrar o caso e salvar a mãe.
Me perguntei se isso era errado. Quem pode dizer o que é pecado ou não? Não somos todos humanos sujeitos a erros? Um ato como esse é considerado um crime pela sociedade, um pecado mortal pela igreja, mas quem pode julgar verdadeiramente é Deus, só Ele pode condenar e só Ele pode salvar.

O nosso socorro está em nome do Senhor, / que fez o céu e a Terra.
Salmos 123:8

3 comentários:

Beatriz Lopes disse...

Ual, achei o blog demais! Adorei esse conto, e outros que li! Estou seguindo e linkando no meu blog! Beijos :*

Lariissa disse...

Nossa que estória tensa rsrs
passa lá que tem selinho (:
http://lariiqs.blogspot.com/2011/01/selinhos-atrasados-sorry.html
beijos :*

Letícia R. disse...

Nossa, ótimo, ótimo!
Esse confronto todo é bem intrigante, adorei.