quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Cinzas da guerra

- Eu não te amo. Na verdade eu nunca amei - ele disse enquanto encarava o olhar vidrado da moça a sua frente. Momentaneamente os olhos dela transbordaram em lágrimas. As palavras dele a cortaram por dentro, ela vivera uma ilusão, acreditara numa mentira. Seu choro calou sua voz e enquanto via seu mundo embaçado pelas próprias lágrimas, ela o viu partir, sem nenhum adeus além daquelas palavras frias e cortantes.
Ele caminhou com passos decididos, consciente da dor que havia causado, consciente do estrago que estava fazendo. Sem olhar para trás ele continuou seu caminho em frente.
Vai ser melhor assim, ele disse a si mesmo. Tentando achar alguma desculpa plausível que justificasse aquilo que ele acabara de fazer.
Ele havia colocado falsos significados naquelas palavras para fazê-la acreditar naquilo que sua boca dizia, mas que seu coração não sentia. Ele a amava e por isso a estava deixando livre.
A carta de convocação para a guerra havia chegado há poucas semanas e nesse meio tempo ele se ponderou se era certo fazê-la esperar por ele, que talvez não voltaria ou se deveria deixá-la. A segunda opção por mais dolorosa que fosse foi a que ele optou. Ele não queria que ela ficasse sentada olhando pela janela, aguardando o momento de seu retorno. Ele queria que ela vivesse sem preocupações, vivesse uma vida que não seria a mesma se ele não tivesse mentido.
Caso ele retornasse da guerra, eles poderiam recomeçar de onde haviam parado.

2 anos depois

De volta à sua cidade natal, ele vê novas cores, novos cenários, rostos que havia esquecido. Ele tenta apagar a memória dos campos de batalhas e das trincheiras rasgadas. Tenta abafar em sua cabeça o som de gritos, bombardeios e tiros. Tenta voltar a enxergar o mundo novamente. O mundo do qual ele havia partido. O mundo onde ele deixara para trás aquela que mais amava. Em cada rosto na multidão ele procurava por ela, mas foi encontrá-la nos braços de outro homem, segurando as mãos de uma criança que deveria ser sua se não a tivesse tirado de sua vida.
Ela conseguiu superar a perda, seguiu em frente, se entregou a um novo amor.
Ele apenas observou de longe. Seu coração martelou uma vez, duro, espremendo duas lágrimas quentes de seus olhos.
- Eu te amo. Eu sempre te amei - ele sussurrou as palavras ao vento, esperando que pudesse chegar aos ouvidos dela.

4 comentários:

Aleatoriamente disse...

Rodolphp,
Que literatura bela.
Amei teu texto.

Beijinho.
Fernanda.

Natália disse...

Muito bem escrito e desenvolvido. De uma emoção ímpar. Mas muito triste. Beijo

Letícia R. disse...

Oin que triste D:
Acho interessante essas mentiras que contamos para o bem de outrem.

Gostei bastante, apesar dela ter ficado com outro cara. Textos tristes, por serem muito mais comoventes, sempre são bonitos.

Jéssica Trabuco disse...

Ain.. triste né.
Ele poderia ter falado a ela o que de fato estava acontecendo, talvez as coisas fossem diferentes.