sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O pedido de Gisele


Nenhum enfeite, nenhum brilho. Não havia laços vermelhos e dourados, não havia árvore enfeitada com bolas coloridas e não havia uma estrela no topo dessa árvore inexistente.
Os corredores pálidos e frios do hospital calavam as canções e hinos da época, trancavam os sorrisos do lado de fora e mantinham o ambiente neutro, como um dia qualquer.

Vou contar a história de Gisele. Quem sou eu? Isso não importa agora.
Gisele fora diagnosticada aos dois anos de idade com câncer de medula, desde então sua vida se tornou uma batalha dentro de um quarto gelado de cortinas beges. Agora ela tem oito anos, uma guerreira, essa menina viveu além das expectativas médicas, foi submetida a transplantes, cirurgias e transfusões.
Cada luta de Gisele contra a doença era um passo rumo ao desconhecido.
Contudo, esse ano não foi um bom ano para a pequena lutadora. Parece que quando a catástrofe bate à porta e começa a nos roubar vidas, ela se apossa do cômodo e não parte até que tudo esteja arruinado. Há seis meses sua mãe fora levada por um acidente de carro. A garotinha jamais sentira tanta dor quanto aquela, ao ver sua mãe repousada em um caixão de madeira e sendo sugada pela terra imunda e sem piedade.
Seu pai sofreu terrivelmente com a perda, mas a menina o manteve forte e são. Ele tinha um propósito na vida, ele tinha alguém para cuidar. Quando pensava em fugir de tudo e deixar a vida lhe escapar pelos poros, sua filha, tão pequena, pegou sua mão e disse:
- Papai, você é tudo o que eu tenho, acho que a mamãe pode esperar um pouco pela gente. – o pai não soube o que dizer, seus olhos espremidos vazaram lágrimas ao ver que sua filhinha queria viver e estava disposta a lutar por isso.
O que ela não sabia era que a mãe não esperaria muito.
Três meses após se despedir da mãe, o destino imparcial lhe atirou outra despedida, como uma bola amassada. Seu papai fora arrancado de sua vida e mais uma vez ela recebeu aquela dor enorme que escavava seu peito frágil.
A menina gritou, chorou, passou noites em claro tentando entender o motivo de toda aquela tristeza. Ela perguntava às paredes caladas porque a vida era tão má com ela, ela nunca tinha feito nada de ruim para ninguém, por que os sabores dos sorrisos lhe foram tirados sem que ela pudesse decorá-los para dias como esse? Ela não merecia passar isso, ninguém merecia.
Seus avós se tornaram seus guardiões por lei e passaram a visitá-la no hospital com frequência, mas as palavras de vovô não eram tão doces quanto as de papai e os cafunés de vovó não eram tão suaves quanto os de mamãe, mesmo assim ela os amava.

Dezembro chegou, com ele veio uma boa recuperação e ânimo para Gisele, que começava a rabiscar sorrisos no canto da boca, enquanto fazia da saudade uma companheira ao invés de uma visita indesejada.
A diretoria do hospital tomada por um espírito mesquinho não permitiu decorações natalinas naquele ano. A ala da pediatria apenas fora visitada por um enfermeiro-Noel que enganou menos crianças do que desejava. Ele não trouxe presentes, mas sim cartões e canetas para que os pacientes fizessem seus pedidos.

“Mais um dia de vida é tudo o que eu peço, existe algo melhor do que isso?” Gisele escreveu em seu cartão lilás e entregou ao falso Noel.
Agora vamos às apresentações: eu sou o pedido de Gisele, sou seu desejo mais profundo. Você pode me chamar de anjo da guarda, de espírito, de qualquer nome que lhe convir, mas eu fui criado pelo coração de uma garotinha que nunca perdeu a esperança de continuar viva, que, apesar dos piores pesares, se manteve altiva e superando as feridas que o tempo insistia em lhe atribuir.
Eu sou a fé dessa garotinha que aprendeu desde cedo que Papai Noel é apenas uma lenda.
Gisele ganhou mais um dia, na verdade ganhou vários outros depois desse, mas prefiro deixar essa história sem final, pois o fim é igual para todos, ainda que chegue em épocas diferentes, o que eu queria mostrar é que a esperança existe e pode nascer em qualquer coração e que os sentimentos de união, fraternidade e amor que vêm ao final do ano devem ser levados por todos os outros dias.
Assim como Gisele, não deixe que nada lhe diga quando é hora de parar de lutar.

Em nome da franquia eu desejo a vocês um Feliz Natal repleto de amor e união e obrigado por passarem por aqui.

5 comentários:

renatocinema disse...

lindo texto, para uma história linda.

esperança........é fundamental mesmo. sem ela, não temos nada.

Pαμℓα Aℓvєs disse...

Todos os finais são iguais, mas podemos fazer do processo algo diferente!!!

Parabéns... o texto é lindo e encantador... Como sempre!! Quase não comento, mas sempre acompanho seus belos passos!!!

Feliz Natal meu querido...
Paz e bem

Charlie B. disse...

Eu gostei desse.

Incorporou bem a dica do hospital e das crianças com câncer como lhe disse, hein? Ficou bem bacana, em especial o cartão dela.


Abração Rod,

Charlie B.

BlackRabbit disse...

texto emocionante...
muito bom...
feliz natal...
\o

Letícia R. disse...

Oiin que liindo. Me emocionei. *-*
Estou até sem palavras agora.