quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

E se...


- Pai, como seria sua vida se eu não tivesse nascido? – o filho indagou.
- Ah, bem... – ele afunda em pensamentos enquanto procura uma resposta plausível. Eu seria um grande jogador de basquete, pois tive que abandonar minha carreira quando soube da gravidez de sua mãe. Talvez ao sair do colégio eu tivesse entrado na minha tão sonhada faculdade de engenharia e quem sabe eu tivesse feito um mestrado e doutorado. Com certeza eu teria gastado meu dinheiro no financiamento de um carro novo, ao invés dos gastos com o bebê. Aos vinte e cinco eu estaria engajado na abertura de meu próprio escritório e o sonho do basquete nem seria tão relevante a esse ponto. Quando eu tivesse chegado aos trinta eu teria aproveitado a minha vida intensamente, teria ido a todas as festas que tivesse vontade, ficado com quantas garotas eu quisesse, tido um porre que seria o motivo de caçoadas dos colegas de classe. Quem sabe teria me atirado na prática louca de esportes radicais como rafting, escalada e pular de pára-quedas, eu teria tido uma boa dose de adrenalina se tivesse experimentado alguma dessas coisas. E não posso me esquecer do intercâmbio no Canadá, que foi a primeira coisa cancelada quando descobri que seria pai. – Muita coisa seria diferente, filho, e eu não teria alguém para me fazer essa pergunta.
Então, o pai começou a refletir na vida que teve. Aos dezessete abandonou o basquete e agora analisando friamente, ele nem jogava tão bem assim. Ainda bem que cancelara o intercâmbio, pois seria muito difícil ficar longe de sua família e ele odiava o tempo frio. Ele era o dono de uma das melhores padarias da cidade, qual diploma de engenharia lhe daria isso? Ele não dirigiu o carro novo que sonhava quando era jovem, mas agora possuía um muito melhor do que aquele. Foram várias festas perdidas, mas nenhuma delas lhe guardava o sorrisinho lindo de seu filho ao ser pego no colo durante a madrugada, nenhuma garota seria melhor do que a mulher que se deitava com ele todas as noites. Ele não tinha amigos da faculdade para caçoá-lo de um porre, mas tinha vários outros amigos que lhe caçoavam exatamente por não ter tido um.
Por ser um pai de família que se dedicou desde o início, o máximo de adrenalina que conseguiu foi dirigir rapidamente até o pediatra quando seu filho caiu de bicicleta e quebrou o braço.

O filho sorriu com a resposta do pai e entrou na casa.
- Muita coisa seria diferente mesmo – ele disse para si mesmo – Mas eu não trocaria nada do que eu vivi por tudo o que eu quis viver.
- Com quem você está falando? – perguntou sua mulher, que se aproximou de repente.
- Eu estava pensando alto, só isso.
- E estava pensando em quê?
- Em quanto eu sou feliz por ter você e nosso filho ao meu lado e em quanto minha vida me surpreendeu com os melhores acontecimentos. Sabe, nem tudo acontece como a gente gostaria, não conseguimos tudo o que pedimos, mas com certeza tudo o que precisamos está sempre por perto e muitas vezes nem notamos.
- Uau, quanto filosofia – ela riu – O que aconteceu com você?
- Eu tive um filho.

Seu filho que ouvia a conversa atrás da porta sorriu ainda mais e sentiu-se orgulhoso por pertencer àquela família e se algum dia tivesse um filho tão curioso quanto ele que lhe fizesse a mesma pergunta, ele saberia muito bem como responder.

9 comentários:

renatocinema disse...

Ainda não sou pai...mas, pelo pai maravilhoso que tenho imagino como seja a sensação. A troca por tudo, a vida em nome do amor paterno. Um dia serei, quem sabe.

Luana Santana disse...

Como sempre você escreveu muito bem mesmo. O conto ficou belo, tão bom se existisse famílias assim.

Beijos

Caroline Araújo disse...

Gosto tanto dos textos daqui. E esse então, nem se fala.
Acho linda uma boa relação de pai e filho e o modo como a gente pode aprender a cada dia valorizar um pouco mais o que nós temos.
Grande Beijo!

Au disse...

Rodolpho, você escreve muito bem!
Eu sei, sempre digo algo parecido, mas é verdade! A cada texto você impressiona, consegue me fazer estar no cenário como se fosse um dos personagens!
E ótima maneira de avaliar a vida, o pai mostrou-se muito inteligente com a sua filosofia.

Ótimo conto!


Abraço!

Thiara Ribeiro disse...

Caramba! Tirou muitas e muitas lágrimas dos meus olhos!
Senti a verdade em cada palavra, dentro de mim!
Ser mãe, apesar da pouca idade e das dificuldades que passei, foi a coisa mais mágica e maravilhosa que aconteceu na minha vida!
Não tem explicação pra tamanho Amor!
TEm que sentir!

Lindo, Rodolpho! Lindo mesmo!

;*

Daniella Ockner disse...

Impressionante como raramente damos devido valor ao que está sempre ao nosso lado, ao verdadeiro motivo de nossa felicidade. Além disso, as vezes o que conseguimos por caminhos que não imaginávamos seguir é realmente muito melhor do que aquilo que procuramos sem descanso.
Um beijo (:

Jéssica Trabuco disse...

Ain que texto lindo!
A ligação que existe entre os pais e os filhos é de outro mundo!

Vanessa disse...

Sou mãe e assino em baixo!

Bjs!

Folhetim Cultural disse...

Parabéns pelo blog e pelos textos... Tenho um blog chamado Folhetim Cultural gostaria que visita-se este é o endereço: informativofolhetimcultural.blogspot.com
Vamos trocar conhecimentos...
Ass: Magno Oliveira
Folhetim Cultural