sábado, 27 de novembro de 2010

O homem de pedra


Em um vilarejo no coração de uma densa floresta, habitado por camponeses e onde velhos costumes supersticiosos se mantinham vivos, corria uma lenda muito antiga sobre um caçador que fora amaldiçoado por uma bruxa vingativa.

O povoado sofria com a estiagem, a colheita estava secando e a única fonte de sobrevivência era a caça. Um caçador destemido, porém calado e egoísta, partiu em busca de alimento. Enquanto cortava trilhas desconhecidas dentre as árvores, ele avistou um magnífico faisão pousado em um tronco caído coberto de musgo e, sem titubear, manejando habilmente seu arco, plantou uma flecha certeira no coração da ave. O que ele não sabia, era que o pássaro pertencia a uma velha reclusa, que vivia na parte mais sombria da floresta. A quem todos se referiam como a bruxa.
O caçador sempre fora um homem solitário, que vivia amargurado e isso se refletia em seu olhar carrancudo e nas palavras ásperas que vazavam por entre seus dentes. Ele se julgava superior aos outros moradores do vilarejo, seu olhar frio se mantinha acima das cabeças e seu desdém emanava de seu corpo como suor.
Um homem com um coração de pedra, foi o que a bruxa percebeu. Ela colhia algumas ervas para o preparo de alguma poção ou o que quer que fosse quando assistiu o valente homem tirar a vida de sua preciosa ave. Escondida atrás de um tronco robusto, ela sibilou palavras venenosas que pingaram no chão, silenciosas e fatais, e escorreram até o caçador. Um encantamento poderoso, uma sentença de morte.
Ele retornou para o povoado, vestido com a glória de uma caçada de sucesso, um faisão e dois porcos do mato suculentos. Atirou os porcos abatidos para que fossem preparados para todos e levou a ave para sua casa, aquele era seu troféu por ser o melhor e aquela carne branca ele saborearia sozinho.
Enquanto cozinhava, avistou através do vidro opaco da janela, uma donzela que há muito encantava seu olhar e dominava seus pensamentos. O caçador fora flechado no peito pelo amor, por dentro daquela casca rígida havia um ser pulsante. Pobre caçador, a bruxa apenas viu pedra onde existia sangue e batimentos, e seu destino fora traçado.
A carne da ave possuía um gosto amargo e ele cuspiu assim que colocou na boca e sentiu um sabor de pedra lhe descendo pela garganta. Jogou o cozido fora e se deitou para tirar o peso do cansaço dos ombros, para substituí-lo por outro peso, ainda mais incômodo.
Na manhã seguinte, o caçador acordou indisposto e sentindo um peso incomum no corpo, ao vislumbrar seu braço direito se desesperou ao ver que ele se transformara em pedra. A pedra alva e gelada se espalhava lentamente em sua pele, calcificando centímetro a centímetro.
O homem não soube o que fazer, saiu de sua casa apressado e correu para a floresta. Não queria que ninguém lhe visse daquele jeito. Enquanto caminhava com esforço pelas árvores, percebeu que aquilo só poderia ser obra da bruxa e tomou o rumo da casa da velha malvada, contudo ele nunca chegou até lá.
Suas pernas se tornaram rijas e estancaram no meio de um passo. Seu braço esquerdo se manteve esticado com o indicador apontando, acusadoramente, para a casa da velha. Seu pescoço enrijeceu e seu rosto se petrificou em um semblante de suplício ou remissão.
As palavras da bruxa ecoavam pela floresta, dançando ao sabor do vento: Que a pedra enterrada em teu peito estenda o manto em teu corpo inteiro, até o dia em que encontrares o amor verdadeiro.
Alguns dias depois, quando perceberam seu sumiço, os homens do vilarejo saíram em busca do caçador, para encontrar uma estátua entre as árvores.

Só há uma maneira de reverter a maldição, mas quem seria capaz de amar um homem de pedra?

7 comentários:

Sabrina O. disse...

amei,muito,muito bom mesmo.
seguindo o blog.
beijos e da uma olhadinha no meu.

Gabriela Furtado disse...

Quem tem o coração de pedra, já é pedra por inteiro...e só um amor verdadeiro pode salvá-lo...
muuito bom, como sempre, ROdolpho....
beeeijooos:***

renatocinema disse...

Faço das palavras da Gabriela Furtado minhas palavras. Concordo plenamente.

Abraços

Insana disse...

O amor por sua vez é duro.

bjs
Insana

so sad disse...

amar alguem que resiste a teu amor vale? rs
então...

maiscores disse...

adoro os contos do blog *---*
só amor de verdade pode livrar o homem de pedra.
Boa semana!

Thiara Ribeiro disse...

Merece uma continuação! :)